Em democracia é sempre um sinal de confiança olhar em frente, mas é difícil observar mais longe do que a vista alcança. Os limites políticos do perímetro visual juvenil são hoje, em Portugal, mais amplos e nítidos. Assistiu-se, pela acção descomplexada da Juventude Popular, ao rompimento da “idade do centrão”, e ao alargamento do espectro centrista até à direita popular, moderna e democrática. Essa circunstância inovadora permitiu inaugurar uma terceira via: um corpo jovem que não se define pelo que aceita do socialismo, mas pelo que planeia fazer diferente dele. O que temos é que dar o salto. Ser, sim, “um novo país velho”, que reconhece a impossibilidade de desenhar um futuro sem memória ou o acto abstruso que é perspectivá-lo apenas contemplando o passado. E levar na mochila de viagem três objectivos principais: redimensionar o Estado à geometria indispensável, atribuindo-lhe o máximo de eficácia na sua circunscrição; a progressiva autonomia do Homem na gestão do seu projecto de vida; a promoção enérgica dos factores indispensáveis à mobilidade social numa economia aberta.

Mobilizaremos os jovens a fim de tomarem o seu lugar na construção de uma força alternativa e maioritária alargada a todas as pessoas de boa vontade que não se revêm na “República do Socialismo”. É este quadro de intenções que preside à designação do mote atribuído ao 23.º Congresso da Juventude Popular, “Dar Lugar ao Mérito”.

Dar Lugar ao Mérito é rejeitar a “proletarização da classe média”, que vivendo para trabalhar ao invés de trabalhar para viver, auferem baixíssimos salários, desadequados face ao seu grau de proficiência, votados a uma fraquíssima protecção social e laboral e tendo a morada de família passado a ser o escritório e não o lar. Ao afirmarmos o princípio da liberdade, produtividade e mobilidade do emprego, não nos esqueceremos de reforçar os mecanismos de segurança dos trabalhadores e suas famílias, bem como de retribuição condigna com a sua prestação.

Dar Lugar ao Mérito é corresponder à necessidade de encontrar o retorno fundamental para o investimento na formação académica, onde a Escola e a Academia, escolhidas por decisão das famílias e não do Estado, confirmem o seu estatuto de oficina da humanidade e elevador social.

Dar Lugar ao Mérito é imprimir na economia uma dinâmica de abertura ao exterior e potenciadora de postos de trabalho, criando um clima favorável à iniciativa privada, nomeadamente através de um sistema fiscal que estimule o investimento e compense quem cria riqueza, trabalha mais e apresenta melhores resultados. O desemprego é particularmente confrangedor nos sectores mais jovens da sociedade, cifrando-se nos 24,2%, cerca de três vezes mais do que a taxa global. Confrontamo-nos então com esta situação verdadeiramente paradoxal: a geração mais qualificada de sempre não consegue vislumbrar o retorno das suas valências académicas em oportunidades de trabalho.

Dar Lugar ao Mérito é conferir prioridade à resolução dos problemas de emancipação jovem, que requerem até cada vez mais tarde o apoio dos pais e adiam indefinidamente os planos dos mais novos: aquisição de habitação, casamento e constituição de família. Uma economia livre só pode ser entendida como aquela que possibilita uma plena realização das pessoas e uma maior justiça entre elas.

Dar Lugar ao Mérito é asseverar a coesão territorial,base fulcral para que cada jovem, independentemente da circunstância de onde é oriundo, disponha de todos os mecanismos de suporte para vencer na vida de acordo com as suas qualidades, não sendo assim coagido a abandonar a sua terra natal de modo a dar procedência aos seus sonhos.

Dar Lugar ao Mérito é repensar o sistema de segurança social, de molde a que os jovens de hoje, financiadores do actual modelo, possam ser dele credores amanhã. Contrariando o inverno demográfico e o saldo natural negativo que Portugal verifica há nove anos consecutivos, emitindo estímulos positivos, directos ou indirectos, à constituição de família.

Dar Lugar ao Mérito é restaurar a confiança na política, escolhendo os melhores, banindo a corrupção do espaço público, combatendo os vícios estruturais do sistema de que as novas gerações são a principal vítima e pugnando, ainda, pela necessária renovação dos quadros humanos dos partidos.

Dar Lugar ao Mérito é atribuir carácter inviolável ao dom transcendente da vida humana, à dos que sofrem e à dos que são saudáveis, cumprindo ao Estado, através do SNS e da acção concertada com outros parceiros, cuidar dos mais vulneráveis, apostando em meios técnicos cada vez mais potentes para atenuar a dor ou curar os doentes no leito da sua dor. E não matar a pedido da vítima.

Dar Lugar ao Mérito é decretar o fim do politicamente correcto, e passarmos a avaliar-nos uns aos outros pela luminosidade das ideias e não pela sua natureza ideológica, optando por não temer o contraditório, abstendo-nos de censurar a diferença e de uniformizar artificialmente o pensamento.

Portanto, dar lugar ao mérito não representa deixar alguém entregue à sua sorte. Pelo contrário. Traduz-se, antes, em permitir que o Estado renove a sua autoridade, restringindo-se às tarefas de providência para estar mais próximo dos cidadãos, concentrando-se com mais eficácia e utilidade no âmbito das funções de coesão social. Acreditamos que é essa liberdade, em termos ideais, que concretizará a lei do retorno para cada individuo: um mecanismo de ascensão social acessível a todos, de onde cada um de nós possa receber o que merece.

A Juventude Popular crê, em conclusão, que a sua intervenção política — sendo crível que continue a mobilizar cada vez mais jovens — manter-se-á erigida sobre uma atitude moral e corajosa, que se traduz numa séria preocupação com a justiça e a verdade. Baseada nas virtudes da responsabilidade, do patriotismo, da permanente exigência de qualidade, criatividade, mérito e sentido humanista. Juntos, já construímos Uma Geração para Portugal. E, a partir do próximo Congresso, declararemos a chegada do tempo de Liderar Gerações. Não só a nossa. Mas as de todos os portugueses. Esse é um ponto sem retorno.

Advogado e Presidente da Juventude Popular