Marcelo Rebelo de Sousa

Marcelo e os nossos queridos “populistas” /premium

Autor
  • Miguel Pinheiro
243

O discurso do Presidente da República foi um alerta contra os "extremismos" que podem vir aí ou contra os "extremismos" que já estão cá dentro? Eu não tenho dúvidas (mas há quem tenha).

É uma lei irrevogável da política portuguesa: quando um Presidente da República discursa, transforma-se numa esfinge. Em vez de revelar, esconde; em vez de iluminar, dissimula; em vez de esclarecer, confunde. A última aparição deste estranho fenómeno deu-se com o discurso de Ano Novo de Marcelo Rebelo de Sousa. Lendo tudo e ouvindo tudo, conclui-se que cada palavra do Presidente tinha (pelo menos) duas interpretações.

O PS, por exemplo, escutou o Presidente com invulgar dedicação e, mesmo assim, ficou com a firme impressão que Marcelo estava a alertar o país para os “extremismos e radicalismos que atingem outros países europeus” e a soprar a trombeta do combate contra “os fenómenos populistas”. E o BE, igualmente atento e sempre à procura da batalha seguinte, achou, com toda a seriedade, que Marcelo estava a falar “dos Bolsonaros” (pelos vistos, há mais do que um) e a convocar a cidadania para “um combate largo contra a extrema-direita que pretende destruir o regime democrático”.

Uma pessoa lê isto e fica ligeiramente perplexa. É que eu não ouvi nada disso. De acordo com o PS e o BE, o Presidente passou o seu discurso de Ano Novo a falar de um possível futuro — quando eu, que escutei tudo com a atenção que dedico a uma missa, fiquei convencidíssimo de que Marcelo estava a falar do presente; e, de acordo com os mesmíssimos partidos, parece que o objetivo de Marcelo era tentar proteger Portugal da temida chegada dos “populismos”, dos “extremismos” e dos “radicalismos” — quando eu, peço desculpa, achei que o seu objetivo era proteger-nos (Deus o abençoe) dos “populismos”, dos “extremismos” e dos “radicalismos” que já temos cá dentro.

Honestamente, acho que não estou a delirar. Quando o Presidente da República afirmou, didático, que, “com o mundo e a Europa como se encontram, bom senso é fundamental” estava de certeza a advertir contra o Bloco de Esquerda, que defende a saída de Portugal da NATO e a implosão da Organização Mundial do Comércio, do Fundo Monetário Internacional e do Banco Mundial; e estava, claro, a alertar-nos contra o PCP, que exige “romper” com aquilo que diz ser “a conivência e subserviência face à União Europeia e à NATO”, ao mesmo tempo que elogia as maravilhas do regime norte-coreano e critica as injustiças contra a Venezuela chavista.

A sério: serei eu que estou a ver mal a coisa? Quando Marcelo Rebelo de Sousa atacou os “radicalismos temerários”, estava seguramente a lembrar a promessa do Bloco de Esquerda de retomar o “controlo público” e a nacionalização do “sistema bancário”. Mais: quando falou em “riscos indesejáveis”, estava obviamente a apontar para as consequências nefastas, hoje indesmentíveis, do regresso às 35 horas na função pública no SNS, ou para o apelo do BE a que se acabe cegamente com as PPP na Saúde.

Não vejo onde possa haver equívocos. Quando o Presidente da República disse no seu discurso que “não há ditadura, mesmo a mais sedutora, que substitua a democracia, mesmo a mais imperfeita”, estava obviamente a criticar o facto de o governo português ter optado por uma dependência económica crescente de “ditaduras sedutoras”, como a chinesa e a angolana, em vez de procurar parcerias mais robustas com democracias, “mesmo imperfeitas”, que prefiram o capitalismo das empresas ao capitalismo do Estado. E, quando o Presidente falou contra as “arrogâncias intoleráveis” em política, estava sem qualquer dúvida a criticar António Costa pela forma como costuma referir-se ao anterior governo ou aos líderes partidários que o criticam no Parlamento.

A interpretação que o PS e o BE fizeram do discurso de Ano Novo do Presidente estava, como se vê, absolutamente errada. Aliás, não podia ser de outra maneira: porque é que Marcelo havia de perder tempo a criticar os “populismos”, os “extremismos” e os “radicalismos” dos outros, em vez de enfrentar os nossos? De qualquer forma, para evitar dúvidas, era preferível que os discursos presidenciais portugueses viessem sempre acompanhados por um sistema de tradução automática. O combate aos populismos exige clareza.

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Miguel Pinheiro
374

Quem acha que não há partidos populistas em Portugal devia ouvir o eurodeputado do PCP João Ferreira. Nacionalismo económico? Isolacionismo? Ataque às elites? Mentalidade de cerco? Está lá tudo.

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