Hoje à noite, Portugal sentir-se-á diferente. Esquisito. Errado, até. No domingo passado, Marcelo terá feito o seu último discurso à nação, e nem sequer percebemos. Não vai haver mais Marcelo aos Domingos durante a campanha presidencial.

Consegue imaginar como vão ser os Domingos sem Marcelo? Não, a sério, já pensou nisso? Com quem vai falar a Judite? O que vamos fazer durante essa hora vazia? Olhar para as paredes? Sair de casa? O país vai passar por angústias e ansiedades quando ligar a televisão, à espera de o ver e ouvir, e de repente se lembrar que … ele já não está lá, como quando o cão morreu.

E as segundas-feiras? O que vão as pessoas discutir no café? O que vai acontecer àquelas senhoras de idade que dizem uma a outra “Olha, o Marcelo disse ontem que….”

E quando a campanha acabar, quase de certeza que ele não voltará aos ecrãs no Domingo. Porque já será o Presidente da República. E será Presidente, não por causa da política e da ideologia, mas porque é o Marcelo, e porque todos conhecem o Marcelo.

Qualquer pessoa que tem uma televisão conhece o Marcelo. Os pedantes que vivem na bolha política ou na bolha académica talvez conheçam os outros candidatos, as suas ideologias e as suas falhas… Mas a mulher e o homem comum só conhecem um candidato: o Marcelo, e conhecem-no muito bem. É possível que não gostam dele, mas conhecem-no. Quem é que vai querer saber dos outros?

marcelo

Este vai ser o momento Ronald Reagan de Portugal.

O Marcelo foi a primeira personalidade de televisão cujo nome eu aprendi em Portugal. Tem sido o meu papel de parede televisivo desde sempre. Os outros comentadores nos media vão e vêm. Nenhum outro ex-líder-de-partido-transformado-em-comentador teve uma hora no Domingo só para ele durante anos e anos. Acabam, normalmente, por ter de partilhar a mesa do estúdio com um comunista ou outro tipo qualquer. O Marcelo, não.

Com os seus olhos azuis que cintilam (não esqueçamos o poder hipnótico que têm olhos azuis neste país de olhos escuros), o seu adorável ciciar, os seus bonitos fatos, os seus distintos cabelos brancos e o seu bronzeado permanente (embora este seja capaz de ser da maquilhagem televisiva), tem-nos cativado — e, mais importante, tem cativado os directores de programas na televisão — para ter sobrevivido nos ecrãs durante este tempo todo, com direito até a ligações em direto via satélite quando está de férias, para continuar sem interrupção as suas risadinhas com a Judite, as rápidas apresentações dos livros da semana, e as suas explicações professorais dos pormenores políticos da semana passada. Lembro-me quando foi cancelado o seu programa na RTP. Vivemos todos momentos tensos até sabermos que ia voltar na TVI.

Antes de eu me habituar à presença constante dele, fiquei intrigada pelo facto de um político (no activo ou não) ter direito a uma plataforma nacional em prime time, todas as semanas. Fez-me lembrar a minha primeira visita a Portugal, quando Mário Soares estava sempre a discursar na televisão, durante horas e horas. Mas isso foi na década de 70,  pouco depois da revolução. Talvez parecesse mais normal então, mas no século 21?

Marcelo vai ser Presidente da República no ano que vem. Vai ser o Presidente do povo. Vai ser o Presidente dos Corações, uma espécie de Princesa Diana da política.

Bem, Portugal, desejo-te sorte e coragem para aguentares os primeiros Domingos sem o Marcelo. Esperemos só que haja a possibilidade de ele imitar Putin, mudar as regras, e impor que o Presidente da República possa ir à televisão cada domingo à noite falar com a Judite e sugerir uns livros da semana.

Coragem, Portugal, coragem.

(texto traduzido do original inglês pela autora)

Mr. (Almost) President

Tonight, Portugal will feel different. Weird. Wrong, even. Last Sunday will have been Marcelo’s last ever normal address to the nation, and we didn’t even realise it. There will be no more Marcelo Sunday nights during the campaign.

Can you imagine how Sunday nights will be without him? No, really, have you actually considered it? Who will Judite talk to? What will we do for that hour? Stare at the walls? Go out? There will be awkward moments when we will turn to the telly expecting to find him there, and it’ll suddenly hit us… he’s not there. It’ll be like when the dog dies.

And Monday mornings? What will people discuss over coffee? There will be no more old ladies saying “well, Marcelo said, last night, that…” to each other any more.

Once the campaign is over, he won’t be back on our screens on Sunday nights. No, because he will be President of the Republic. Not because of politics, not because of ideology, just because he’s Marcelo.

Because everyone knows Marcelo. Everyone in the country who ever owned a TV knows Marcelo. Those precious few who live inside the political bubble and the equally bubbly academic bubble might well know all the other candidates and their ideologies and foibles… but the woman and man on the street already knows Marcelo, inside and out. They might not necessarily like him, but they know him. What do they know or care about any of the others?

This is going to be Portugal’s Ronald Reagan moment.

Marcelo was the first TV personality whose name I knew. He has been my TV wallpaper for so long. The other pundits down the hierarchy come and go. Even the other mainstay ex-party-leaders-turned-pundits don’t get their own hour on a Sunday night to themselves for years on end. They usually end up having to share their table with a communist or something.

With his bright twinkly blue eyes (let us not forget that blue eyes have incredible hypnotic powers in brown-eyed Portugal), his adorable lisp, dapper suits and distinguished grey hair and perma-tan he has captivated us and, more importantly, he has captivated someone somewhere high up in the telly, enough for him to stay on telly all this time, including satellite links for when he’s on holiday, enabling uninterrupted giggling with Judite, flicking through piles of books, and professorially explaining the ins and outs of the political week. I remember when his RTP slot was cancelled and there were some tense moments before the nation knew that he would return to TVI.

Before I got used to him always being there, I was amazed that one man, a politician (whether active or not) was allowed a platform on national TV, prime time national TV. EVERY. SINGLE. WEEK. It was reminiscent of the first time I was in Portugal and Mário Soares was on the telly for hours on end. But that was the seventies and only a little while after the revolution. That didn’t seem out of place then, but this is the 21st century.

Marcelo will be the President of the Republic early next year. He will be the people’s President. He will be the President of hearts. He will be our Princess Diana of politics.

So, Portugal, good luck with getting through these first few Sundays sans Marcelo. Let us just hope that maybe, just maybe, once he is President of the Republic, he pulls a “Putin”, changes the rules and makes it constitutionally acceptable for the President of the Republic to talk to Judite, suggest a handful of books, and twinkle at the nation for an hour every Sunday night.

Courage, mes braves. Courage.