Durante meses, a diabolização do Chega ocupou os estúdios e as páginas da comunicação social. Intensificou-se com o acordo das direitas nos Açores (o PS irrita-se quando perde o poder) e cresceu ainda mais com o início da campanha para as eleições presidenciais. Para diabolizar o Chega, Ana Gomes a Marisa Matias confessaram que estariam dispostas a violar a Constituição portuguesa se fossem eleitas para Belém, não dando posse a um Governo apoiado por André Ventura. Pelos vistos, para duas candidatas presidenciais, já nem a Constituição constitui um limite à competição política com o candidato do Chega.

Esqueçam o partido de um único deputado. A estratégia de diabolização tem pouco a ver com o Chega ou com Ventura. A diabolização do Chega serve, em primeiro lugar, para passar uma esponja sobre o papel de António Costa e do PS na formação de alianças com partidos de extrema-esquerda. Com a diabolização da “extrema-direita”, Costa deixa de ser o líder socialista que abriu um precedente perigoso na política portuguesa, abrindo o poder às esquerdas anti-democráticas, para se tornar num PM moderado e sensato. Costa continua a chefiar o Governo graças ao apoio do PCP, mas o radical passaria a ser Rui Rio.

Em segundo lugar, a diabolização do Ventura também serve para ajudar o processo de normalização do PCP e do Bloco. Dois partidos que sempre foram contra a democracia liberal, aparecem agora como forças políticas moderadas em oposição ao “iliberalismo” radical do Chega. Por exemplo, durante uma entrevista recente aqui no Observador, nunca ocorreu a Pedro Duarte o ponto mais óbvio de todos: a verdadeira escolha é entre um Governo do PS com o apoio do PCP (ou e com o Bloco), e um Governo do PSD e do CDS, com o apoio do Chega e da IL. Ou seja, Pedro Duarte conseguiu opor um cenário extremista, o seu partido aliado ao Chega, a um cenário moderado, o PS aliado à extrema-esquerda. E disse que preferia a segunda. Isto é para rir ou para chorar?

Com a normalização em curso do PCP e do Bloco, iniciada com a geringonça, um dia destes vão dizer-nos que, apesar dos seus discursos e programas políticos, na realidade, os comunistas e os bloquistas são a favor do euro e da NATO, e que sempre defenderam a democracia ocidental e se opuseram aos totalitarismos marxistas.

Por fim, as esquerdas precisam de renovar periodicamente o seu “anti-fascismo” porque têm pouco mais para apresentar aos portugueses. Nos últimos 25 anos, o PS esteve 19 no governo. Nessas duas décadas e meia, a economia portuguesa esteve sempre a piorar em comparação com as outras da UE. A pobreza aumentou em termos europeus. A dívida subiu para níveis impossíveis de pagar. Os serviços públicos degradaram-se. Os casos de corrupção multiplicaram-se. E nos últimos cinco anos, o PCP e o Bloco foram cúmplices do PS. Nada melhor para fazer os portugueses esquecer a realidade do que inventar “fascistas.” A renovação periódica do “perigo fascista” permite às esquerdas falarem como se não tivessem qualquer responsabilidade pelo que se passou nos últimos 25 anos em Portugal.

Mas estava a diabolização do Chega em curso, quando o Presidente da República disse em directo aos portugueses que, obviamente, daria posse a um Governo apoiado pelo partido de Ventura. E justificou a sua posição com três argumentos poderosos. O Chega é um partido legítimo para o Tribunal Constitucional e, portanto, respeita a Constituição. Também compete ao PR respeitar a Constituição do Estado português.

Além disso, o Chega representa eleitores portugueses. E não há eleitores de primeira e de segunda. São todos iguais. Aliás, essa foi uma das justificações para legitimar a geringonça. Finalmente, explicou com toda a naturalidade, e razão, que se o voto dos deputados do Chega não servisse para uma maioria governamental, também não serviria para qualquer outra matéria parlamentar. Ou seja, no cenário de Ana Gomes, teríamos uma de duas situações absurdas. Um grupo de deputados proibidos de votar sobre qualquer questão parlamentar. Ou um grupo de deputados que poderia votar, excluindo a votação sobre a formação de um Governo. Qualquer português percebe que só há uma motivação para as esquerdas: a diabolização do Chega serve para impedir um Governo de direita e manter a esquerda no poder.

As tentativas de diabolização do Chega não vão parar, mas o Presidente acabou com a sua legitimidade. Os portugueses prestam muita mais atenção ao que diz Marcelo Rebelo de Sousa do que aos ataques das esquerdas, incluindo duas das suas candidatas presidenciais. Tal como conta muito mais a posição do PR do que as indignações dos militantes do PSD e do CDS que se opõem aos respectivos líderes partidários, usando a ameaça da “extrema-direita” para fazer oposição interna.

Não sem alguma ironia, a reeleição de um Presidente, que justificou um Governo com maioria parlamentar que inclua os deputados do Chega, será um marco simbólico na integração plena do partido de Ventura no sistema democrático nacional. Tendo em conta que Ventura é um adversário de Marcelo nas eleições presidenciais, não deixa de ser uma acto com alguma generosidade política. Deve ser o Natal em Belém.