Recentemente partilharam-me a história de um pai que quando, pontualmente, tem que sair do trabalho para poder ir buscar os filhos à escola, é gozado e visto de lado, quer pela entidade patronal quer pelos colegas. Após algumas destas situações, este pai decidiu mentir e justificar as suas saídas com idas ao mecânico e a partir desse momento, nunca mais teve problemas.

Esta história verídica e, pelo que sei, bastante comum, demonstra a forma como a parentalidade é encarada no local de trabalho e, se no caso dos homens os efeitos limitam-se a algumas piadas ocasionais, no caso das mulheres os efeitos sentem-se quer nas oportunidades de progressão da carreira, quer ao nível dos salários.

Segundo um estudo publicado em 2019 pela Organização Internacional do Trabalho, Portugal é um dos países no mundo com maior diferença salarial entre géneros. Os homens portugueses ganham em média mais 22,1% do que as mulheres, acima da discrepância média salarial mundial, que é de 18,8%. Mas esta situação é mais grave no momento em que nascem os filhos. Se no caso dos homens, estes tendem a receber melhores salários quando são pais, no caso das mulheres isto já não é bem assim.

Segundo o artigo publicado em 2017, “The Expanding Gender Earnings Gap: Evidence from the LEHD-2000 Census” nos Estados Unidos, as mulheres com formação universitária ganham, aos 25 anos, cerca de 90% do salário dos homens, mas apenas 55% aos 45 anos. Enquanto que fatores históricos de disparidade salarial, como diferenças nos níveis de educação, estão a desaparecer, a questão da maternidade mantém-se e é hoje o principal promotor de desigualdade salarial entre homens e mulheres.

Socialmente, as mulheres continuam a ser consideradas os principais cuidadores das crianças e por isso, após o nascimento do primeiro filho são socialmente pressionadas a gravitar para trabalhos que oferecem horários mais flexíveis (mas com salários mais baixo) e políticas de maternidade mais interessantes.  Mas mesmo não mudando de trabalho, muitas oportunidades são-lhes automaticamente vedadas, pela percepção de que mulheres com filhos estão menos disponíveis para trabalhos que exigem viagens ou mais tempo no escritório.

Perante esta situação governos e empresas têm que se unir.

As empresas devem começar por promover políticas mais amigas das famílias, permitindo o teletrabalho, comparticipando o pagamento de creches e tornando socialmente aceitável que mães e pais participem ativamente na vida dos filhos.

Devem ainda começar a divulgar publicamente informações sobre percentagem de colaboradores do género masculino e do género feminino e qual a diferença salarial entre géneros, promovendo assim mais transparência. A adopção de uma Política de Não-Negociação Salarial, apesar de polémica, poderá ter efeitos muito positivos na redução da desigualdade salarial. Estudos demonstram que as mulheres são julgadas, com mais severidade do que os homens, quando negoceiam a compensação.

As empresas devem também auditar e reconsiderar os seus sistemas de recrutamento, compensação e promoção, que são promotores de mais desigualdade entre homens e mulheres, muitas vezes debaixo da desculpa da meritocracia.

E para além da necessidade de haver uma maior partilha do tempo das licenças de parentalidade entre homens e mulheres, é ainda importante haver pressão social para uma maior partilha do tempo dedicado às tarefas domésticas pois, segundo o mesmo estudo da Organização Internacional do Trabalho, serão precisos 200 anos para atingirmos essa igualdade.

Para caminharmos para uma sociedade saudável e igualitária, o custo de ter filhos para uma mulher não pode continuar a ser tão alto. Por uma sociedade mais igualitária, esta tem obrigatoriamente de ser uma luta quer de mulheres, quer de homens.

Inês Santos Silva tem 30 anos é Diretora Executiva da Aliados – The Challenges Consulting e co-fundadora da comunidade Portuguese Women in Tech.

O Observador associa-se à comunidade Portuguese Women in Tech para dar voz às mulheres que compõe o ecossistema tecnológico português. O artigo representa a opinião pessoal do autor enquadrada nos valores da comunidade.