O temível vírus fez com que, após o estado de emergência, o Dia Internacional dos Museus de 2020 seja único, coincidindo com a reabertura destas instituições, em Portugal.

Esta inédita reabertura propicia pensarmos de forma mais aberta. Que memórias de Portugal são, de facto, mais importantes? Que museus/colecções urge serem criados, mais divulgados, em época de grandes restrições e mudanças a nível mundial ? Deve-se sublinhar que o património cultural e os museus não têm de ser sorvedouros de dinheiros públicos, podendo gerar apreciáveis receitas, auto-financiando-se até, havendo também recurso a outros financiamentos.

Agora, apenas me foco em dois exemplos, colecções de Alexandre Rodrigues Ferreira e museu Portugal Global, que penso serem alguns dos museus marcantes, essenciais.

I Colecções recolhidas pelo naturalista Alexandre Rodrigues Ferreira na extraordinária expedição científica ao Brasil (1783-1792)

Em “Alexandre Rodrigues Ferreira e a sua obra no contexto português e universal”, o Professor Miguel Telles Antunes, Director do Museu da Academia das Ciências de Lisboa, considera que os resultados desta “gesta ímpar” foram “os mais notáveis obtidos até então no nosso país, suportando bem o confronto com o que se fazia em países considerados avançados” (Alêtheia Editores, Lisboa, 2007, p. 7).

Os objectos, desenhos e documentos provenientes desta “viagem filosófica”/ expedição científica encontram-se dispersos por Portugal, Brasil e França.

Em Portugal, sobretudo a Academia das Ciências de Lisboa e a Universidade de Coimbra, as duas instituições que no nosso País actualmente detêm a maior parte deste acervo, têm-no muito estudado, valorizado e divulgado, e estão a desenvolver excelentes e inovadoras iniciativas nesse sentido.

O Doutor Alexandre Rodrigues Ferreira (1756-1815) nasceu em Salvador (Bahia), formou-se na Universidade de Coimbra, onde em 1779 se doutorou, e faleceu em Lisboa. O mais destacado naturalista português da sua época realizou, de 1783 a 1792, uma expedição científica no Brasil, em que percorreu cerca de 40.000 quilómetros, desde Belém do Pará, a Rio Negro, Mato Grosso e Cuiabá, pela bacia do rio Amazonas e regiões adjacentes, até às fronteiras da Guiana, da Venezuela, da Colômbia, da Bolívia e do Paraguai.

Ferreira recolheu largos milhares de espécimes de botânica, zoologia, mineralogia, geologia e antropologia, que enviou para Portugal, os quais logo tiveram tanto impacto no meio científico de vários países, que milhares foram até “requisitados” durante as Invasões Francesas, e ingressaram no então recente Museu Nacional de História Natural, em Paris.

Ao longo dos séculos, diversas outras calamidades provocaram a perda de diferentes núcleos destas colecções, em Portugal, e não só.

A obra de Ferreira tem sido muito estudada e, por exemplo, Russel-Wood, da Universidade John Hopkins, considera que esta viagem deu “extraordinários contributos para o conhecimento científico”, in “A World on the Move. The Portuguese in Africa, Asia and America 1415-1808”, Carcanet in association with the Calouste Gulbenkian Foundation, Manchester, 1992, p.84.

Alexandre Rodrigues Ferreira é chamado “o Humboldt brasileiro”. Sublinhe-se o facto de ele ter nascido no Brasil, como aliás também nasceram nesse País-irmão outros naturalistas seus colegas e contemporâneos, os quais foram os obreiros de “viagens filosóficas” em Moçambique, Angola e Cabo Verde.

O naturalista alemão Alexandre de Humboldt (1769-1859) chegou à América em 1799, portanto dezasseis anos depois de Ferreira, e a sua expedição durou até 1804, portanto quase metade do tempo da do naturalista português.

Quando, em 1999, se comemoravam a nível mundial os 200 anos da chegada de Humboldt ao Novo Mundo, no referido museu francês comprei o livro “Humboldt savant-citoyen du monde”, de Jean-Paul Duviols e Charles Minguet, dois professores, especialistas, da Universidade de Paris (edição Découvertes Gallimard, 1994), no qual se escreve: “Quando Alexandre de Humboldt desembarca (na América) em 1799 falta fazer tudo: inventariar a fauna e a flora, analisar o clima e a geologia, subir os grandes rios … Foi esta expedição … a primeira conduzida cientificamente … que trará a glória a Humboldt.”

Portanto, mais uma vez, houve apagamento de um feito pioneiro e notável de um português, o que enfatizei na comunicação que fiz na Academia Portuguesa da História, na Sessão Extraordinária Comemorativa do Aniversário do Achamento do Brasil, “Novas Descobertas do Brasil com o Iluminismo. O Doutor Alexandre Rodrigues Ferreira e outros Viajantes Científicos”, em 21/4/1999.

II Museu Portugal Global

Sobre o projecto do Museu Portugal Global, começo por lembrar o esclarecimento que tenho feito, para sossegar sobretudo os meus caros colegas, directores de numerosos museus, no sentido de este museu ser exequível sem prejuízo dessas colecções, podendo-se recorrer inclusivamente às novas tecnologias.

Escolhi mencionar primeiro as maravilhosas colecções provenientes da viagem filosófica de Alexandre Rodrigues Ferreira por dois motivos: porque elas devem ser referidas no Museu Portugal Global, e porque, durante séculos, elas espelharam falta de amor a grandes feitos da nossa História e ao património cultural, de que outros se aproveitaram, como é habitual acontecer …

O património cultural está na moda e recentemente muito se tem feito em Portugal, mas ainda estamos longe de o valorizarmos tanto quanto países civilizados fazem, tanto quanto ele pode ser rentabilizado sem ser desvirtuado e, sobretudo, tanto quanto a nossa História merece!

Esse tradicional desamor, de facto, ainda permanece de forma extemporânea, como o mostra, por exemplo, o estranho adiamento em, desde o século XIX, se criar um museu dedicado à época em que Portugal abraçou o mundo, mas entretanto se terem gasto fortunas em museus dispensáveis/inúteis …

Com o Museu Portugal Global pretende-se homenagear de igual forma, não só Portugal, mas também a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), todo o Mundo Lusófono e os outros países com presença portuguesa, sem eurocentrismo, mas com abordagens pluriculturais, interculturais.

Não se quer um museu dedicado aos Descobrimentos, mas de âmbito muito mais vasto, no tempo, no espaço, no conteúdo: – em épocas; – em áreas geográficas (que abranjam China, Japão, Indonésia, Tailândia, Canadá, Uruguai, etc.); em temáticas, que se tornarão tanto mais aliciantes quanto mais do quotidiano e explicações interculturais contiverem, por exemplo quanto à alimentação.

Portugal Global é irrepetível e pode e deve ser evocado com abordagens científicas extremamente rigorosas, numa descomplexada visão mundial, que ajude a perceber a época actual e seja também um contributo para a Paz de que o Mundo tanto necessita.

Há cerca de 50 anos defendo essa iniciativa, a qual a Academia Portuguesa da História, desde há dois anos, apoia “com o maior entusiasmo” (ofício de 27/3/2018).

Devo sublinhar que também há dois anos chamei a esta iniciativa Museu Portugal Global, designação esta sem contestação.

Este projecto tem já recebido também incentivos vindos dos outros continentes e de países do mundo lusófono, mas não só.

Tenho apresentado este projecto inclusivamente através de textos, alguns dos quais com a ampla divulgação que o “Observador” faculta.

Esperemos que esta especial reabertura dos museus em 2020 traga o arejamento e a ousadia, que todos devíamos ter herdado dos Navegadores e dos Viajantes como Alexandre Rodrigues Ferreira, e de tantas outras Personalidades ao longo dos séculos, para, finalmente, se criar o Museu Portugal Global!