A Margarida tem uma filha com 4 anos, uma empresa e um buraco no pulmão. Depois de dois internamentos, antibióticos, cortisona e morfina, está em casa, com a vida suspensa em sofrimento. Aguarda há mais de 3 meses que o Serviço Nacional de Saúde marque a cirurgia que poderá ajudar a resolver a situação e lhe devolva a vida.

A Joana tem um filho com 16 anos, reformada por invalidez desde os 29 anos devido a uma doença crónica que já lhe valeu cinco cirurgias, que lhe trouxe outra doença auto-imune e agora… problemas sérios de oftalmologia. Tão sérios que requer cirurgia urgente por risco de perder completamente a visão. Por ser urgente, os exames necessários para proseguir com a cirurgia serão realizados em Outubro e depois terá ainda que aguardar que a intervenção seja agendada. E dizem que tudo foi pedido com carácter de urgência…

No Sistema Nacional de Saúde há cirurgias que foram canceladas por falta de material básico, há grávidas a fazer 200 quilómetros por falta de médicos especialistas, há notícias diárias de hospitais que não conseguem assegurar medicação que garante qualidade de vida a doentes crónicos.

Querem mais um exemplo? Quantas ostomias e/ ou cirurgias seriam evitadas em Portugal, se a autorização para a admnistração dos medicamentos para tratar doenças inflamatórias do intestino fosse concedida mais rapidamente? Ninguém sabe. Porque simplesmente não há estatísticas oficiais que permitam fazer a avaliação.

Isto não é num país em vias de desenvolvimento. Isto é em Portugal! Portugal, o membro da União Europeia que recebe milhões de euros de fundos europeus para investir em melhores serviços e cuidados de saúde aos seus cidadãos.

Mário Centeno disse publicamente, e cito: “O Estado hoje tem mais recursos afetos ao Serviço Nacional de Saúde. Eu tenho a certeza de uma coisa: o Serviço Nacional de Saúde, hoje, é melhor do que era em 2015. Não tenho nenhuma dúvida sobre isto. O serviço que é prestado hoje na saúde aos portugueses é melhor do que era em 2015. Mil e seiscentos milhões de euros por ano não podem ser despesa em vão, e não são”.

Eu diria: eu tenho a certeza que o Serviço Nacional de Saúde está uma lástima! As Margaridas e as Joanas deste país concordarão comigo! Porque são pessoas, senhores, são pessoas que recorrem ao Serviço Nacional de Saúde em busca de ajuda para os seus problemas de saúde. O cuidado ou tratamento não atempado tem consequências devastadoras não só na saúde e qualidade de vida dos pacientes, mas também nas pessoas que os rodeiam: maridos, esposas, filhos, país, avós.

O Serviço Nacional de Saúde precisa de medidas concretas para garantir cuidados de saúde de qualidade e atempadamente aos utentes: contratação de recursos humanos para garantir que as equipas estão completas; recursos financeiro e boas práticas de gestão para garantir o stock de materiais básicos; revisão dos processos de autorização de acesso a medicamentos para que seja mais célere e por último, medidas concretas e significativas que reduzam as listas de espera.

Numa altura em que muito se anuncia em prol de uma campanha eleitoral, o que os cidadãos portugueses querem e precisam é de medidas concretas e reais que tornem o Serviço Nacional de Saúde eficiente e ao serviço dos cidadãos. É que ao contrário do que pensam os senhores políticos em campanha eleitoral: o cidadão não é parvo! E sabe bem distinguir o trigo do joio que lhe tentam impingir!

Gestora do projecto “www.crohncolite.pt” e autora do livro “ConViver com as Doenças Inflamatórias do Intestino”