Lembra-se do anúncio de proibição de transmissão de touradas na RTP? A informação chegou pela voz do secretário de Estado Nuno Artur Silva, que explicou em entrevista que o novo contrato de concessão da RTP “não era compatível” com a transmissão de touradas. Lembra-se, também, do debate público que isso gerou nos jornais? E, já agora, lembra-se das reacções, através de cartas abertas, de centenas de figuras públicas? Umas em concordância e apoio explícito à decisão do Governo. Outras em frontal discordância, incluindo figuras históricas do PS e ex-ministros da Cultura. Lembra-se?

Se se lembra, então esqueça. Apertado por todos os lados, o Governo mandou informar que não havia qualquer proibição, que o texto do novo contrato de concessão não impede touradas e que “não há nenhuma tentativa de censura”. O porta-voz da revelação foi Arons de Carvalho, fundador do PS e representante do Governo no Conselho Geral Independente da RTP. E resumiu tudo a “polémica baseada num boato”. Por outras palavras, disse isto: toda a gente que se debruçou sobre o tema percebeu tudo mal. Ou seja, centenas de figuras públicas e políticas (a favor e contra), centenas de jornalistas, milhões de portugueses, todos perceberam mal. Afinal, a explicação para as críticas ao Governo é simples: somos todos estúpidos.

Que nos tratam por estúpidos, já sabíamos. Não é a primeira nem a segunda vez que as coisas se resolvem nestes termos. Isto é, que membros do Governo (ou figuras por si mandatadas) enfrentam a contestação mudando o sentido das suas palavras, distorcendo a realidade e esclarecendo, por fim, que as pessoas é que não perceberam. Há exemplos mais longínquos — por exemplo, quando, em Janeiro, o ministro da Educação proibiu as escolas privadas de dar aulas à distância e, dias depois, negou que alguma vez tivesse feito tal proibição. E há exemplos muito recentes, como o da final da Liga dos Campeões, no Porto, há dias, e que vale a pena reconstituir.

Lembra-se de lhe garantirem uma bolha para os adeptos ingleses que viriam ao jogo e regressariam no mesmo dia, com testes feitos e sem contactos externos, como assegurara a ministra Mariana Vieira da Silva, a 13 de Maio? Lembra-se de ver a cidade do Porto cheia de adeptos ingleses nos dias que antecederam o jogo e como a dita bolha “furou antes de encher”? Lembra-se das notícias sobre “escaramuças” entre adeptos? Lembra-se de um amplo debate público sobre a aplicabilidade de “bolhas” para conter adeptos, sobre o fracasso da operação e sobre os riscos de aceitar adeptos ingleses (e novas variantes da Covid-19) em Portugal num contexto de pandemia?

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Se se lembra, então esqueça. O secretário de Estado do Desporto qualificou o evento como um sucesso. E o Primeiro-Ministro lá reconheceu que não correu na perfeição, mas garantiu igualmente que a bolha não foi rompida: “9.800 adeptos vieram nessas condições; 80% dos adeptos”. O problema (aparentemente inesperado) foram os turistas, que entraram no Porto sem este enquadramento. Contradição? Nada disso: todas as garantias do Governo se referiam unicamente aos adeptos que entrariam no estádio para assistir ao jogo e não aos adeptos que visitassem a cidade enquanto turistas, o que acontece sempre neste tipo de eventos. Nós é que não percebemos a precisão das palavras dos membros do Governo — somos certamente estúpidos, incluindo o próprio Presidente da República.

Era bom que isto se percebesse: quem decide está sujeito a errar, pois ninguém acerta sempre. Num contexto de pandemia, com tantas variáveis imprevisíveis, o risco de errar torna-se particularmente elevado e ingrato. As pessoas não são estúpidas e percebem-no: errar é normal. Por isso, não as tratem como estúpidas. Só piora, porque acrescenta a indignidade da política de mentira que corrói a confiança nas instituições. E é nestes momentos que convém não esquecer: os maiores inimigos da democracia por vezes estão nos lugares menos suspeitos.