As comunidades vivem de mitos e ritos. Isto é verdade quer para uma comunidade histórico-cultural, como a nação, quer para uma comunidade desportiva, como um clube de futebol.

A celebração dos mitos e a continuidade dos ritos é o que, numa demonstração externa, pública e estética, corporiza o espírito, a memória e a História. A nação portuguesa, com quase mil anos de história independente e com fronteiras centenárias na Europa, é uma construção de longa duração: obra da vontade de autonomia dos barões de Entre Douro e Minho e da vontade política do seu fundador, Afonso Henriques, obra da vontade nacional colectiva, agarrada pelo refundador, Nun’Álvares, obra da vontade e da necessidade de projecção marítima e imperial de navegadores, conquistadores, aventureiros.

Luís de Camões deu-lhe expressão narrativa, precisamente no tempo em que a Nação entrava numa espécie de Cativeiro da Babilónia, um cativeiro legal e dinástico mas um cativeiro, e sempre assim visto e sentido.

A independência foi restaurada 60 anos depois, resistindo em quase trinta anos de guerra da Restauração à tentativa anexionista da Casa da Áustria. E nos princípios do século XIX, por um levantamento popular e patriótico, voltou a resistir ao poder de Napoleão. Nos finais do século XIX aguentou a corrida a África das grandes potências europeias. E depois, contra as vagas e forças da História, resistiu a 14 anos de guerra.

Os que passámos por esta guerra, ao lembrá-la e celebrá-la, não o fazemos animados por nostalgias imperiais e muito menos imperialistas. Respeitamos os que nos combateram de armas na mão em nome dos seus Estados nascentes; e, sabendo que os que então nos combateram nos respeitam, queremos ser também ser aqui respeitados e não tratados como marionetas de regimes ou serventuários de causas suspeitas.

Por isso, há 25 anos, um núcleo de antigos combatentes lançou a ideia do Monumento aos Combatentes do Ultramar. E, a partir daí, todos os anos, junto ao monumento de Belém, onde estão inscritos os nomes de todos os militares que morreram nessas últimas campanhas de África e da Índia – bem como os que depois morreram ao serviço de Portugal em missões internacionais – alguns milhares de nós lembramos os nossos camaradas mortos ou desaparecidos em combate, cujos nomes ficaram gravados nos muros do monumento.

A cerimónia transcende ideologias – sobretudo ideologias partidárias de que o povo português está cada vez mais distante – e não pretende rever o que a História decidiu. Pretende sim não retirar aos mortos desses 14 anos de guerra, e aos outros que na defesa da pátria foram mortos, o seu lugar na História.

E lembrar que a Pátria, a terra da pátria e os mortos pela pátria, são o património agregador da comunidade e a verdadeira garantia da Liberdade dos portugueses. Uma liberdade que não vem de Bruxelas nem das Nações Unidas, que nunca poderá ser alienada a organismos supranacionais, a federalismos utópicos, a mecanismos de submissão discreta de povos e culturas, ao abrigo de facilidades financeiras e simpatias baratas.

O 10 de Junho dos Combatentes é, e continuará a ser, uma afirmação do patriotismo português, um rito celebrativo da nossa identidade e unidade, numa Europa que hoje também parece despertar para a sua verdadeira natureza e sentido, uma Europa das Pátrias, de Estados Nacionais, soberanos, que voltam a lembrar um passado histórico que tem de ser integrado, tal como também o Cristianismo incorporou as heranças da Grécia e de Roma e criou uma civilização onde a identidade e a independência são condição da Liberdade e das liberdades.

Foi isto que Camões entendeu e registou e que outro poeta maior de Portugal, Fernando Pessoa, veio lembrar e reintegrar no século passado. E os grandes poetas são os melhores intérpretes do espírito do povo, aqueles que, como os antigos arúspices, sabem ler nas entranhas do passado e nos ventos do presente a memória do futuro.