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Uma vez, ainda andava na escola, não tive a última aula e por isso cheguei mais cedo a casa do que era costume. Quando entrei, pareceu-me ouvir os meus pais a fazerem uns sons estranhos na sala. Fui ver o que se passava e apanhei o maior choque da minha vida. Corei instantaneamente, repugnado com o que estava a ver, mas sem conseguir desviar os olhos. Eles não me viram, absortos naquilo que estavam a fazer, mas eu vi tudo. Tudo. Ali, no meio da sala, onde eu e os meus irmãos brincávamos, onde a família jantava, o meu pai e a minha mãe, de olhos nos olhos, faziam – não há forma suave de o dizer – um dueto de karaoke. Isso mesmo. Cantavam “The time of my life”, com direito a coreografia e tudo. Sim, a minha mãe saltou e o meu pai agarrou-a. À minha frente, caramba! O mercurocromo que em vão despejei nos meus olhos. Ainda hoje não consigo ver o “Dirty Dancing” sem vomitar.

Por causa desta experiência traumática, achava que estava vacinado para situações em que a intimidade de casais me aparece, sem aviso, escarrapachada à frente. Até hoje. Ao assistir à discussão conjugal entre PS, Bloco e PCP, voltei a sentir os pêlos da nuca a eriçar com a vergonha alheia. No Domingo, mal Duarte Cordeiro começou a falar sobre as negociações, pude jurar que estava a ouvir “Now I’ve had the time of my life / No, I never felt like this before / Yes I swear, it’s the truth / And I owe it all to you”.

O momento mais embaraçoso foi quando o secretário de Estado dos Assuntos Parlamentares afirmou: “Não deixamos de constatar que estes partidos já viabilizaram orçamentos que não tinham nem de perto nem de longe os avanços que este tem”. Que é o equivalente cortês do namorado javardo que diz: “Olha-me esta! Sempre fizemos grandes coboiadas e agora que peço para te mascarares de Catwoman e me açoitares com a cauda é que te armas em santa?” Não é que não tenha razão, nós é que não precisamos de saber. A troca de bocas passivo-agressivas nas televisões é bizarra para os portugueses. Sentimo-nos numa sessão de terapia de casal.

Uma coisa é lavar a roupa suja em público; outra, completamente diferente, é mostrar a roupa suja em público. Que foi o que Duarte Cordeiro fez. Parecia aquela tradição medieval em que, no dia seguinte à noite de núpcias, se mostram os lençóis manchados à janela, para atestar a virgindade da noiva. Disfarçadamente, mas não muito, Duarte Cordeiro chamou a atenção para o facto de o Bloco e o PCP já se terem despedido da castidade há muitos orçamentos. E, por mais que agora esperneiem, já não a recuperam. É uma exigência que nenhum orçamento consegue acomodar.

Talvez venha daí a fixação dos dois partidos com a qualidade do SNS. Se é o caso, lamento desiludi-los: mesmo que o SNS fosse tudo aquilo com que sonham, nem os melhores cirurgiões plásticos, nos melhores hospitais, com as melhores condições, iam conseguir reconstruir a pureza perdida naquela tarde de Novembro em 2016. Foi a tarde em que o PCP e o Bloco aprovaram o 2º orçamento deste Governo. Dessa vez, não tinham desculpa. Já conheciam os truques do PS, do ano anterior. Não podem dizer que foram ao engano. Entregaram a sua flor a António Costa e ele já não a devolve. Digamos que a cativou.

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