Num dos livros mais bonitos que li este ano, ‘Aulas de Literatura’ de Julio Cortázar, o escritor argentino do ‘Jogo do Mundo’ e de inúmeros contos publicados em Portugal pela Cavalo de Ferro, fala-nos sobre o papel do humor e da música nos textos literários. Numa das aulas, creio que na segunda, refere-se à fatalidade. A força que leva aos acontecimentos de que o protagonista não se pode esconder e que sucedem, precisamente, em resultado do que faz com o intuito de fugir ao destino marcado. Cortázar gosta de contos fatais, reconhece-lhes a capacidade de entretenimento que decorre do suspense inerente, do poder de atracção fruto do percurso invencível dos acontecimentos. Mas não descura um aspecto para o qual chama a atenção: apesar de encantador, o fatalismo é uma crença oriunda de culturas não ocidentais. Para o exemplificar, Cortázar narra um antigo conto persa do jardineiro de um monarca que dá de caras com a figura da morte enquanto trata das roseiras do seu amo.

Este aspecto é interessante porque reflecte bem o significado da Páscoa. A Ressurreição é o oposto da fatalidade. Ao voltar à vida, Jesus Cristo venceu o destino. Há outros dois episódios bem demonstrativos desta falta de fatalidade. Um é a parábola do filho pródigo que regressou a casa e foi bem recebido apesar do que fez. Outro é o breve diálogo que Cristo trava na cruz com o bom ladrão. Condenado à morte, em virtude dos crimes cometidos, reconheceu a injustiça cometida com Jesus, que nada praticara de condenável. A resposta que ouviu foi a promessa da salvação. Mesmo naqueles últimos minutos o destino não estava traçado.

Não é preciso ser cristão ou católico, sequer crente para perceber a força que estes exemplos retratam. O seu impacto na forma de estar de uma comunidade. Há sempre lugar para o perdão; há sempre espaço para mudar; há sempre um momento para o arrependimento. O futuro não está definido nem se encontra perdido. Não há inevitáveis. E também não é preciso ser cristão ou  católico, sequer crente para compreender a importância desta disposição na civilização ocidental. Para o mal, na impaciência, pressa, frenesi, na agitação tão própria que é a nossa e que nos leva a querer convencer os outros das luzes que nos iluminam, mas também para o bem, na inquirição constante, na busca permanente do saber que resulta da noção que é a inexistência de impossíveis, de que se posso mudar o destino é bom que o faça quanto antes, ou o tente uma e outra vez porque o risco do fracasso é elevado e só se acerta depois de experimentar vezes sem conta.

Mas ainda na convicção que se até o bom ladrão se encontra, qualquer um o pode conseguir também. Se temos essa oportunidade, esse dom, capacidade, a nossa opinião é tão válida quanto as demais e a nossa vida (o nosso caminho para Deus) não deve ser determinada por outros. As liberdades individuais nascem daqui, o estudo científico nasce daqui, a liberdade económica, o livre comércio, o respeito pelo outro, a democracia liberal, as eleições, o voto, a separação dos poderes, as constituições políticas, as discussões constantes, o desacordo, a desarmonia, a busca das outras civilizações, a procura insaciável do desconhecido. A inquietação permanente que temos dentro de nós reside neste ponto.

Não pretendo inferir qualquer superioridade, não é disso que se trata, pois isso seria já uma fraqueza e inferioridade. É somente a necessidade de compreender de onde viemos, o que nos criou e nos permitiu ser o que somos e o quanto a resposta a essa pergunta reside no Domingo de Páscoa.

PUB • CONTINUE A LER A SEGUIR