Tem passado praticamente clandestino o debate em torno das opções energéticas do País. Um pouco à margem do interesse mediático, alguns movimentos cívicos agitam-se contra o lítio e são alvo de caricaturas: não usam telemóvel com pilhas de lítio? Não são a favor do fim dos combustíveis fósseis? Que ambientalistas são estes?

É fácil fazer de um debate sério uma anedota. E uma boa risada é muitas vezes o pretexto para não vermos além da superfície.

Tenho assistido e participado nalguns debates e constato outra perplexidade: no debate em torno da exploração do lítio, os partidos de esquerda  parecem amarrados a compromissos, desviando-se do essencial. Algumas associações, cujos membros são tradicionalmente de esquerda sentem-se perdidas: será mesmo verdade que só à direita – e diga-se, em abono da verdade, alguma direita – manifesta perplexidade diante do que está anunciado pelo Governo?!

Do outro lado, alguns amigos políticos interpelam-me: então não somos nós a favor das empresas, da criação de riqueza, do investimento externo? Porque haveríamos nós de ser contra o lítio? Não será o lítio uma oportunidade de riqueza?

Era importante que se ouvissem as pessoas que se dedicaram ao estudo do lítio em Portugal. Em suma e duma penada, o que está em causa é o seguinte:

  1. Ao contrário do que tantas vez se pensa, a extração do lítio não é uma atividade que represente um retorno elevado;
  2. O valor acrescentado poderia decorrer da cadeia de valor e do processo transformativo das matérias minerais em compostos de lítio susceptíveis de ser incorporado nas baterias;
  3. Com esta miragem, o Governo decretou que quer instalar aqui uma indústria que inclui todo o processo até à refinaria;
  4. Uma refinaria de lítio, porém, pressupõe o tratamento da matéria mineral em dimensões diríamos gigantes: na Europa continental não existe nenhuma refinaria, existe apenas um projeto para instalação na Alemanha;
  5. A dimensão do projeto contrasta com a realidade do lítio em Portugal;
  6. Em Portugal, são conhecidas algumas fileiras de lítio susceptíveis de ser exploradas, mas não em dimensão tal que nos possamos constituir como uma potência do lítio;
  7. As fileiras conhecidas apontam para um dimensão de cerca de 10 metros por centenas de metros e o teor de lítio é nos melhores casos até 1% (só para se ter uma ideia comparativa, na Austrália existem fileiras de 1 km por 800 metros com um teor de 5%);
  8. Face aos dados existentes, o projeto que o governo anda a vender parece um “quase-delírio” (a expressão é do Prof. Carlos Leal Gomes, da Universidade do Minho);
  9. Para tanto, anuncia-se uma exploração de lítio não em mina (que teria um impacto diminuto e poderia ser ambientalmente aceitável), mas a céu aberto, com áreas de concessão de aproximadamente 800 metros de diâmetro e com possibilidade de escavação até 350 metros de profundidade – estes números não são inventados, estão enunciados já para Montalegre;
  10. A dimensão das concessões representa uma agressão brutal e levanta as maiores reservas em termos ambientais, mas também em termos económicos;
  11. Em termos ambientais, nomeadamente pelo riscos de contaminação e de impacto sobre as águas – o nosso bem mais escasso diante da desertificação decorrente das alterações climáticas -, mas não só: sobre a agricultura, a saúde e naturalmente sobre o turismo;
  12. Em termos económicos, para além do mais, porque se estaria a abrir a porta ao roubo de toda a riqueza mineralógica susceptível de ser arrancada até aos tais 350 metros de profundidade;
  13. Ou seja e em suma, por exemplo todo o ouro ou volfrâmio que fosse encontrado faria parte da concessão e poderia ser arrancado como subproduto, quando na verdade o seu interesse e valor aponta para um produto de valor muito superior ao do lítio.

Apesar de todos os avisos, o governo do partido socialista manteve esta proposta no seu programa. E a dimensão do que está em causa tem levado muitos dos que se dedicam a esta realidade a pensar que ou estamos diante de um enorme logro ou de um gigante roubo.

A acontecer seria o mais grave atentado à riqueza do nosso país: o desenvolvimento sustentável e a preservação do seu património natural.

Uma coisa é certa: a dimensão do que possamos estar a falar obrigaria a outra atenção sobre o assunto. E numa altura de grande rapidez na evolução tecnológica, em que a energia a hidrogénio, por exemplo, é apontada cada vez mais como uma possibilidade, é no mínimo estranho a insistência num projeto que põe a saldo irreversivelmente o nosso Portugal. Tudo isto, numa altura em que os partidos se multiplicam na afirmação de programas que dizem ser ambientalistas. Se assim é, como permitir que esta ameaça real e grave passe ao lado da atenção dos portugueses?! E não será esta uma forma de comprometer a nossa riqueza futura?

Como muitas vezes sucede, nem tudo o que parece é.

Cabeça de lista do CDS pelo Alto Minho