Mundial 2018

O orgulho da Nação /premium

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Eu, português, da Nação dos lusitanos, “Estou Aqui”, sou da têmpera dos antigos Descobridores, sou do tamanho do Cristiano, o melhor do Mundo. Tenho direito a ser feliz. Façam lá o favor de ganhar.

Ronaldo, claro.

E também os outros 10, ou 22, que quase anónimos o acompanharam no feito, apesar de tudo relativo (não é Portugal campeão da Europa?), de empatar com a Espanha.

Um feito realizado a dois dias do país recordar lamentando – ou lamentar, recordando – as vítimas de Pedrógão. E foi bonito, e foi importante, e era essencial a homenagem. O país, uma nação ferida (de morte, no sentido pleno da palavra), ergueu-se sobre os escombros das suas próprias insuficiências, para gritar a uma só voz, reunidas a do Presidente da República com as centenas que se ergueram neste fim-de-semana, num grito a pulmões plenos:

Nunca mais.

Nunca mais queremos ser vítimas da incúria alheia, do desleixo colectivo ou dos erros de alguns. O país, quando se une e resiste, é muito mais do que o homem do leme, é um povo que quer aquilo a que tem direito, e um povo antigo como o português tem direito a ser feliz, a estar seguro, a viver a vida sem medo do Mostrengo que o ata ao leme e torna impotente face aos incêndios fatais, às tragédias evitáveis. Disse incêndios? Podia ter escrito afogamentos, queda de falésias, acidentes rodoviários, podia ter escrito (oxalá não) sismos devastadores, maremotos, podia ter escrito, até, crises económicas, troikas, ano e meio para uma consulta no SNS, podia ter escrito e não escrevi, mas também não é preciso.

Temos direito a ser felizes. Isso eu sei.

Ronaldo, Cristiano Ronaldo, é o melhor do Mundo? Para nós, sem dúvida, embora o número desses “nós” aumente a cada golo seu e seja hoje legião. Um Mundo inteiro chama-lhe o melhor do Mundo. E “nós”, o nós pequenino dos portugueses, Nação velhinha de quase 900 anos, o que sente? Orgulho. Felicidade. Temos direito a ser felizes. Temos direito a ter orgulho. É só futebol, dizem os intelectuais do costume. Têm razão, é só futebol. Acantonados na pequena salinha de pensamento, esses intelectuais querem fazer-nos duvidar do prazer do jogo, do gosto em gostar dele, do bom gosto em ter orgulho por sermos bons nele. Divagam em torno dos umbigos, espantados por ninguém os ouvir – pois os umbigos não têm ouvidos.

É só futebol. Somos grandes. Fomo-lo sempre, por definição da História. Pelo esforço dos milhões que se lançaram, navegadores, conquistadores, emigrantes, como poucos povos através dos séculos, à conquista do planeta, afrontando miasmas e feras, racionais e irracionais, navegando, só porque era preciso, os longínquos Oceanos, tendo por chão um ténue fio de vida sobre um abismo sem fundo. Até a geografia nos faz grandes, e ainda maiores quando se concluir o processo, em discussão desde 2017, que pode alargar a nossa plataforma continental em 2,15 milhões de km2, a somar aos actuais 1,6 milhões de zona económica exclusiva. Seremos, ó surpresa, um dos maiores países do Mundo.

E se, tendo direito a ser felizes, só se pode ser feliz no presente, não há presente mais feliz do que um jogo da selecção portuguesa… do que um golo do Ronaldo.

Temos direito a ter orgulho em ser quem somos. Um povo amiúde atormentado pela falta de um desígnio colectivo, carente de auto-estima, carência aliás alimentada pelos intelectuais reunidos na pequena salinha de pensamento. Este jornal publicou um artigo sobre as críticas brasileiras a Portugal por ocasião do Portugal-Espanha. Velhos complexos revisitados? Atacaram Ronaldo e a selecção, num contexto fundamentalmente de rivalidade sobre o GOAT, como se o melhor de todos os tempos de hoje não estivesse destinado a ser outro amanhã, como sempre foi e será; e como se interessasse o exercício subjectivo de comparar fintas e remates, como se Cristiano, Messi e Neymar tivessem comparação e não fossem, simplesmente, jogadores geniais todos; que nos entretêm, dão prazer, partilham connosco a pincelada mágica, o glorioso gesto de definição final (e fatal) no mais indefinido e imprevisível dos jogos.

E o que atacam esses brasileiros além disso? Portugal. A colonização. O ouro desviado para a Europa. A escravatura. O escasso desenvolvimento sob a férula portuguesa. Ecoam velhas versões desaustinadas sobre a vergonha de terem sido colonizados por Portugal, discutidas pelos sábios fechados na sua salinha de pensamento, pequena, pequenina, também a abordar a magna discussão sobre o putativo Museu dos “Descobrimentos”, como se a palavra, chamando Descoberta à crua conquista, validasse a escravatura e a violência colonial.

A tudo isso já foi dada resposta. O que Portugal fez nos idos de quinhentos foi redesenhar o Mundo, abrir as vias da Comunicação global, iniciar um período dourado de Renascimento do pensamento e criatividade humanas. Ao Descobrir os caminhos do planeta, Portugal também desencadeou as consequências inevitáveis que sempre acompanham os momentos chave da História da Civilização, como o extremismo político (a reação), a insegurança global, crescentes desigualdades, pandemias…. Mas tudo isso, “o lado negro da Força”, sendo inevitável, é fruto do seu Tempo, foi sempre assim, e entendo mal – na verdade, não entendo – que se ponha em causa a coragem, o feito, o valor dos obras valerosas então encetadas, caso em que nenhuma empresa humana transformadora poderia ser reconhecida como boa. Como justa.

E ainda quanto ao Brasil, bem explica o livro “1808, Como uma rainha louca, um príncipe medroso e uma corte corrupta enganaram Napoleão e mudaram a História de Portugal e do Brasil”, escrito por um brasileiro, que não fora Portugal a colonizar o Brasil, nem Brasil como o conhecemos haveria, ou brasileiros para criticar Portugal.

Este é um extraordinário país. Dizê-lo não é provincianismo nem paroquialismo, apenas verdade. Com defeitos, muito por resolver, fogos, hospitais, serviços públicos,  emparcelamento rural (a falta dele), alguma inveja inata, mas com inúmeras virtudes, raras em Nações tão parcas em recursos naturais (eu sei, o Mar) e tão diminutas no número dos seus recursos humanos.

Portugal tem Ronaldo. E isso dá-lhe, isso dá-nos o direito a ser felizes.

Na representação colectiva de Ronaldo em giravoltas, o país inteiro viravolteia. E se essa representação é de soberba, de afirmação categórica de um ícone difícil de comparar, se na expressão desenhada do “Eu Estou Aqui” do tamanho do Mundo se pressente o ego enorme deste jogador de futebol, é o país inteiro que se afirma, se sente incomparável, se eleva ao céu das Nações e se afirma grandioso. Eu, português, da Nação dos lusitanos, “Estou Aqui”, sou da têmpera dos antigos Descobridores, sou do tamanho do Cristiano, o melhor do Mundo.

Tenho direito a ser feliz. Façam lá o favor de ganhar, por nós.

Agora que entramos em 2019...

...é bom ter presente o importante que este ano pode ser. E quando vivemos tempos novos e confusos sentimos mais a importância de uma informação que marca a diferença – uma diferença que o Observador tem vindo a fazer há quase cinco anos. Maio de 2014 foi ainda ontem, mas já parece imenso tempo, como todos os dias nos fazem sentir todos os que já são parte da nossa imensa comunidade de leitores. Não fazemos jornalismo para sermos apenas mais um órgão de informação. Não valeria a pena. Fazemos para informar com sentido crítico, relatar mas também explicar, ser útil mas também ser incómodo, ser os primeiros a noticiar mas sobretudo ser os mais exigentes a escrutinar todos os poderes, sem excepção e sem medo. Este jornalismo só é sustentável se contarmos com o apoio dos nossos leitores, pois tem um preço, que é também o preço da liberdade – a sua liberdade de se informar de forma plural e de poder pensar pela sua cabeça.

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