Crónica

O regresso do Rei

Autor
  • Luis Teixeira

Os professores acreditam que os 9 anos, 4 meses e 2 dias de tempo de serviço congelado hão-de sair do nevoeiro da dívida e os enfermeiros, que os 68% de aumento hão-de chegar com a maré.

Este maravilhoso país não é muito católico. Há no povo uma propensão para os ritos pagãos que aflora no modo como, ao fervor sagrado, se junta frequentemente o cuidado com as necessidades práticas da vida: da mesma maneira que os selvagens sacrificavam para terem caça abundante, os devotos de Santo António rezam para que os noivos fugidos voltem e os objectos perdidos se achem. Entre essas tendências pagãs que perpassam os dias dos cidadãos deste maravilhoso país conta-se o sebastianismo. O sebastianismo é um culto autóctone que se caracteriza por negar a realidade. Outros cultos imitam a realidade ou visam explicá-la. O sebastianismo propõe-se substituí-la.

O sebastianismo surgiu depois da morte do rei D. Sebastião na batalha de Alcácer-Quibir, em 1578. O atraso na chegada da notícia da morte a Portugal e o facto de o corpo ter sido entregue ao rei espanhol, vários meses depois da batalha, hão-de ter contribuído para que todos, fidalgos e plebe, pusessem em causa que D. Sebastião tivesse de facto morrido no campo de batalha, apesar de todas as evidências em contrário. Não vou discorrer sobre o modo como dessa primeira negação da realidade se passou a uma forma estruturada de evasão. Há muitos trabalhos sobre isso, alguns interessantes. Mas o que agora nos importa é que o sebastianismo não morreu. Ressurgiu regularmente ao longo dos séculos, sempre que a Pátria era confrontada com a dura realidade de um mundo indiferente e escasseavam a esperança e o dinheiro, e conduziu a prodigiosos irrealismos. Parece que, durante as invasões francesas, no início do século XIX, os lisboetas iam, em dias de nevoeiro, juntar-se no Alto de Santa Catarina, tentando avistar as velas dos navios do Encoberto a entrarem a barra. E, no sertão brasileiro, em 1897, os escravos de Canudos foram levados à revolta, fiados em que D. Sebastião voltaria para os libertar, e foram chacinados.

A última versão do sebastianismo que assaltou este maravilhoso país foi a negação da dívida. A dívida, tal como a morte de El-Rei D. Sebastião, é uma mentira. Não existe. Foi inventada pelo inimigo (antes os espanhóis, agora os mercados) para nos fazer trabalhar mais e ganhar menos. O raciocínio desafia os factos e a lógica? Tal como no século XVI, não faltam oportunistas e alguns literatos para dar argumentos e uma capa de seriedade aos impulsos da turba.

As últimas variações desta forma mais recente de sebastianismo são os movimentos reivindicativos de professores e enfermeiros. Os professores acreditam que os 9 anos, 4 meses e 2 dias de tempo de serviço congelado hão-de sair do nevoeiro da dívida e os enfermeiros, que os 68% de aumento hão-de chegar com a maré. Aparentemente, para impor esta realidade alternativa, a única coisa que se exige é acreditar. Com paixão, com raiva, na rua, de braço dado, de punho erguido, de peito esticado. “O povo unido, etc.”

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