Isto até tinha tudo para ser uma boa história. Eduardo Cabrita licenciou-se em Direito e deu aulas na Universidade de Lisboa entre 1982 e 1988. Em 1985 tornou-se inspector de Finanças. Estaria à sua espera uma carreira profissional séria no sector público. Mas, por um azar dos Távoras qualquer, Eduardo Cabrita decidiu abandonar o serviço público e escolheu a carreira, em tese também de serviço público, mas que se tem revelado como aquela que mais medíocres tem tirado da irrelevância – a militância partidária.

Como tantos naquela época, foi levado para Macau, onde se tornou adjunto do secretário-adjunto para a Justiça do Governo local, em 1988/89. A partir daí, o mar abriu-se. Foi perito permanente da Representação Portuguesa no Grupo de Ligação Conjunto Luso-Chinês sobre a Questão de Macau entre 1989 e 1996, diretor do Gabinete para a Tradução Jurídica do Governo de Macau entre 1989 e 1996, e docente do Centro de Formação de Magistrados de Macau entre 1995 e 1996. Regressou a Portugal para desempenhar funções de Alto-Comissário da Comissão de Apoio à Reestruturação do Equipamento e da Administração do Território no primeiro Governo de António Guterres, e tornou-se secretário de Estado Adjunto do Ministro da Justiça no segundo. Foi deputado entre 2002 e 2005 e entre 2009 e 2015, e secretário de Estado Adjunto e da Administração Local no primeiro Governo Sócrates. Foi presidente da Comissão para a Promoção da Qualidade de Vida, dos Intercâmbios na Sociedade Civil e da Cultura da Assembleia Parlamentar da União para o Mediterrâneo entre 2009 e 2013.

Não sei como o leitor sente que correu a reestruturação do equipamento e da administração do território, ou como está a justiça ou a qualidade de vida, de que Eduardo Cabrita foi Alto Comissário, secretário de Estado e Presidente de Comissão. Tomemos como certo que as várias tarefas foram levadas a cabo com zelo e sucesso, porque Eduardo Cabrita se tornou ministro Adjunto do primeiro-ministro em 2015, e ministro da Administração Interna em 2017, substituindo Constança Urbano de Sousa, naquela época muito desgastada depois de uma temporada de incêndios que matou mais de 100 pessoas.

Desde então, a tarefa não tem sido fácil. Demitiu um adjunto do gabinete, um padeiro que se tornou especialista não em pão, mas em protecção civil, por causa de umas golas anti-fumo que eram inflamáveis e que depois passaram a ser só material de sensibilização das populações. É um caso de que já ninguém se lembra, ao contrário do triste episódio da morte Ihor Homeniuk ali para as bandas do SEF, e que acabou com a notícia de que Cabrita pretendia nomear a directora-geral do SEF, entretanto demitida para serenar os ânimos, para um cargo no Reino Unido. Para a substituir no SEF, Eduardo Cabrita nomeou o seu antigo chefe do gabinete, já despachado para o serviço tempos antes. José Luís Barão, antigo assessor parlamentar do PS, entre 2009 e 2011, assessor do vogal da mesa da Santa Casa de Lisboa, e aí director da Unidade de Recrutamento e Desenvolvimento de Recursos Humanos ou do Departamento de Empreendedorismo e Economia Social, chegaria assim, por mérito inquestionável, a director-geral do SEF, que entretanto se decidiu reestruturar para acabar com as conversas.

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Agora é esta coisa complicada da propriedade privada que afinal não é bem propriedade privada, um projecto falido, aprovado nos anos dourados do socratismo, para albergar imigrantes ilegais que a lei aprovada por esta maioria desejou, gente que vive em condições que seriam miseráveis em qualquer sítio do mundo num concelho que foi há tempos dado como exemplar no acolhimento de imigrantes; um episódio de brutalidade policial, cães, coisas que acontecem às quatro da madrugada e uns dichotes do senhor ministro sobre partidos da oposição, naufrágios e ele para ali, a salvar o País sem o reconhecimento sequer da plateia que assiste ao espectáculo.

Obviamente, demito-o!, disse Humberto Delgado a 10 de Maio de 1958, há 63 anos, quando lhe perguntaram o que faria com Salazar caso ganhasse as eleições presidenciais daquele ano. Aqui ninguém se demite, que a causa pública não se serve com proclamações românticas. Eduardo Cabrita estará de pedra e cal, como está desde a década de 1980, dedicado a servir-nos. E se porventura algum infeliz tiver a ousadia de o demitir, ele não nos abandonará – continuará a servir a Pátria que não o compreende, numa cadeira do Parlamento, para onde foi eleito. O mínimo que podíamos fazer era mostrar alguma gratidão.