Trabalho numa zona muito carenciada, com a maior prevalência de população imigrante no país. Todos os dias sou confrontada com situações de pobreza extrema, de dificuldades de gente de carne e osso, que trabalha arduamente para conseguir sustentar-se a si e aos seus. Vir ao hospital a pé, porque 5 € de transporte faz a diferença no final do mês, lutar para manter um emprego mal pago e com condições árduas, porque se tem filhos e contas para pagar no final do mês, comer arroz todos os dias porque a carne e o peixe são caros, é uma realidade a dois passos de Lisboa, que a grande maioria dos portugueses desconhece.

Tenho o privilégio de conhecer estas pessoas, lutadoras, empenhadas e com uma enorme coragem para serem imigrantes num país onde são considerados cidadãos de segunda. Uma primeira geração de imigrantes que não tem apoios, que luta dia e noite para garantir o sustento da família. A segunda geração que nasce e cresce num país onde se pretende o acesso à escolaridade obrigatória de 12 anos mas não existem apoios familiares que permitam que esse acesso seja equalitário. Quem acha que o processo educacional é igual para um filho de um casal de médicos ou o filho de um casal de imigrantes, ela nas limpezas e ele a trabalhar na construção civil?

As crianças crescem numa época onde ter um smartphone ou uns ténis de marca é quase que essencial para a integração no grupo e os filhos dos imigrantes não são excepção.  A inversão das prioridades num orçamento reduzido, de forma a que os filhos não se sintam excluídos é uma realidade destes imigrantes.

Filhos que crescem sozinhos por os pais estarem a trabalhar. Filhos que crescem em  meios desfavorecidos, muitas vezes expostos precocemente a drogas ou a violência.

E quem ajuda estes pais a terem ferramentas para criarem os filhos num meio, num país, numa sociedade da qual estão excluídos? A integração dos imigrantes tem de responder a estes apelos, pois são a génese de problemas futuros.

Todos os dias, quando ponho a chave na porta da minha casa, sinto-me abençoada, tenho uma casa confortável, comida no frigorífico, uma família, um porto de abrigo. Penso muitas vezes nos meus doentes, que passam frio, que comem mal, que lutam por dar o melhor que podem e sabem aos seus filhos e ainda assim me abençoam em cada consulta “doutora, rezo por si todas as noites”.

Obrigada pelo vosso amor e pela vossa coragem!