Rádio Observador

Polémica

Os inassimiláveis

Autor
  • Pedro Picoito
303

É quando a “Cristandade” começa a desintegrar-se, acompanhando a homogeneização cultural imposta por Estados cada vez mais centralizados, que Portugal e Espanha expulsam as suas populações não cristãs

Chego tarde à polémica provocada pelo já célebre artigo de Maria de Fátima Bonifácio no Público e não tenho nada de novo a dizer. Além disso, concordo com a sua oposição às quotas para minorias no mercado de trabalho, na universidade e no Parlamento, e acredito que a discriminação positiva é uma entorse aos princípios liberais da meritocracia e da igualdade perante a lei. Mas esta questão torna-se secundária perante dois argumentos falaciosos e muito pouco liberais.

O primeiro é a generalização sobre os negros e os ciganos, que a leva a cair na velha armadilha ideológica do determinismo. Dizer que os “ciganos são inassimiláveis” ou que “os africanos são abertamente racistas” não é apenas uma caricatura de mau gosto. É condenar à suspeita todos os ciganos que procuram integrar-se na sociedade portuguesa, apesar dos obstáculos que enfrentam, e todos os negros que não são racistas, apesar dos preconceitos de que são alvo. É negar a individualidade a um número vastíssimo de pessoas em nome da sua origem étnica ou cultural. É, em suma, desprezar a meritocracia e a igualdade, os tais princípios liberais que as quotas – e, ironia das ironias, Fátima Bonifácio – põem em causa.

Seria uma grande ingenuidade esquecer o peso da cultura ou da etnia nos comportamentos, mas seria um cinismo ainda maior decretar que a herança social os determina sem hipótese de mudança. Um cinismo que se recusa a ver o elemento da condição humana ao qual os historiadores devem estar mais atentos: a liberdade individual. Porque em história não há leis, ao contrário das ciências naturais. Nenhum ser humano está condenado, pela sua origem, a um destino escrito nas estrelas (ou nas páginas de opinião do Público). É por isso que a democracia continua a ser o pior dos regimes, exceptuando todos os outros. Apesar de tudo, é aquele que melhor defende a possibilidade de mudar as circunstâncias em que vivemos. Apesar de tudo, é aquele em que não há “inassimiláveis”.

O segundo argumento falacioso é a invocação da “entidade civilizacional e cultural milenária que dá pelo nome de Cristandade”, da qual os negros e os ciganos estariam excluídos. Convenientemente, Fátima Bonifácio não define que coisa seja a “Cristandade”. Percebe-se porquê: dá mais jeito brandir abstracções indefinidas contra outras abstracções indefinidas. Supondo, porém, que o termo sirva para descrever as sociedades europeias ou ocidentais, num sentido equivalente ao legado da “Grande Revolução Francesa de 1789” também não extensível a essas raças “disfuncionais em supermercados”, vale a pena lembrar alguns pormenores.

Quando a dita “Cristandade” nasce, ali pelo início da Idade Média, é já um fruto cruzado de culturas muito diferentes: a religião judaica, a filosofia grega, o direito romano. Cresce depois, no espaço a que hoje chamamos Europa, assimilando povos germânicos, celtas, eslavos e escandinavos que as civilizações clássicas tinham por “bárbaros” (ou seja, os negros e ciganos de então). Opera o milagre de conviver, nem sempre em paz, com judeus e até com muçulmanos – na Península Ibérica, na Sicília e nos Balcãs. Ao contrário do que geralmente se pensa, é quando a “Cristandade” começa a desintegrar-se, acompanhando a homogeneização cultural imposta por Estados cada vez mais centralizados, que Portugal e Espanha expulsam as suas populações não cristãs, tal como a Inglaterra fará pouco depois aos católicos e a França aos protestantes. Mesmo assim, ciganos e negros ficaram e a sua cristianização será, com maior ou menor sucesso, um dos factores preferenciais de assimilação. Nos países católicos, por exemplo, os negros formaram confrarias próprias, com frequência dedicadas a Nossa Senhora do Rosário. Não deixa de ser uma ironia, mais uma, que Salvini pretenda agora impedir a sua entrada na Europa sacando do terço em comícios da extrema-direita.

Nenhum destes processos históricos foi fácil, o que talvez explique o recurso a argumentos cristianíssimos por parte dos nossos contemporâneos mais dados a abstracções indefinidas e a idênticas dificuldades. Mas nem a “Cristandade” nos poderá salvar de dois erros simétricos. À esquerda, o de fechar os olhos aos problemas. À direita, o de fechar os olhos às soluções. Para combater o primeiro, Fátima Bonifácio cai no segundo. Sem se dar conta de que ambos são mais iguais do que parecem, na sua igual negação da história. E que, se hoje pode falar em “Cristandade”, é apenas porque a “Cristandade” se deu sempre ao trabalho de assimilar os “inassimiláveis”.

Investigador do Instituto de Estudos Medievais da Universidade Nova de Lisboa

Não queremos ser todos iguais, pois não?

Maio de 2014, nasceu o Observador. Junho de 2019, nasceu a Rádio Observador.

Há cinco anos poucos acreditavam que era possível criar um novo jornal de qualidade em Portugal, ainda por cima só online. Foi possível. Agora chegou a vez da rádio, de novo construída em moldes que rompem com as rotinas e os hábitos estabelecidos.

Nestes anos o caminho do Observador foi feito sem compromissos. Nunca sacrificámos a procura do máximo rigor no nosso jornalismo, tal como nunca abdicámos de uma feroz independência, sem concessões. Ao mesmo tempo não fomos na onda – o Observador quis ser diferente dos outros órgãos de informação, porque não queremos ser todos iguais, nem pensar todos da mesma maneira, pois não?

Fizemos este caminho passo a passo, contando com os nossos leitores, que todos os meses são mais. E, desde há pouco mais de um ano, com os leitores que são também nossos assinantes. Cada novo passo que damos depende deles, pelo que não temos outra forma de o dizer – se é leitor do Observador, se gosta do Observador, se sente falta do Observador, se acha que o Observador é necessário para que mais ar fresco circule no espaço público da nossa democracia, então dê o pequeno passo de fazer uma assinatura.

Não custa nada – ou custa muito pouco. É só escolher a modalidade de assinaturas Premium que mais lhe convier.

Partilhe
Comente
Sugira
Proponha uma correção, sugira uma pista: observador@observador.pt
Polémica

Resposta ao manifesto racista de Fátima Bonifácio

Marta Mucznik
1.715

As quotas étnico-raciais não são um fim em si mesmo e a introdução das mesmas não equivale a premiar ‘incapazes e preguiçosos’ ou colocar pessoas em lugares de topo apenas por causa da cor da pele. 

Polémica

A ostraca /premium

Helena Matos
1.072

Todos, a começar pelo director do Público, teremos a qualquer momento o nosso nome inscrito na lista dos que devem ser banidos. A ditadura das causas exige-o. 

Polémica

Caso encerrado (ainda "O regresso do 'eduquês'")

José Pacheco

O senhor Torgal crê – uma crença não se discute – que as escolas são prédios, dentro dos quais professores do século XX tentam ensinar alunos do século XXI, seguindo práticas pedagógicas do século XIX

Combustível

Os motoristas e o mercado

Jose Pedro Anacoreta Correira
338

Quando o Governo não consegue instrumentalizar politicamente os sindicatos, passa ao ataque. A luta e defesa dos trabalhadores é só para trabalhadores do Estado e filiados na CGTP.

PSD

Rui Rio precisa do eleitorado de direita /premium

João Marques de Almeida
112

O eleitorado de direita deve obrigar Rui Rio a comprometer-se que não ajudará o futuro governo socialista a avançar com a regionalização e a enfraquecer o Ministério Público. No mínimo, isto.

Educação

Cheques de Ensino

Diogo Fernandes Sousa

Com os cheques de ensino se um pai se enganasse afetaria apenas o seu filho. Agora, se um político se engana no Ministério da Educação, como sucede regularmente, afeta toda uma geração de estudantes

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

Confirme a sua conta

Para completar o seu registo, confirme a sua conta clicando no link do email que acabámos de lhe enviar. (Pode fechar esta janela.)