A proposta de Joacine Moreira de devolver bens culturais às ex-colónias merece uma discussão séria. Que se fará a seu tempo, por muito que incomode. Cá estarei para a travar, e não será ao lado do Livre. Entretanto, vale a pena repetir alguns princípios de salubridade pública porque a iniciativa da deputada provocou reacções que deveriam envergonhar qualquer cidadão. Refiro-me, em especial, ao já célebre post do Facebook que André Ventura lhe dedicou. Sugerir, mesmo em tom de piada (piada? onde?), que Joacine seja “devolvida ao país de origem” é sugerir que há portugueses de primeira, aos quais assiste o direito de fazer política, e portugueses de segunda, aos quais esse direito não assiste. E que a gradação é definida pelo local de nascimento, o que, no caso em apreço, coincide com o tom da pele. Podemos chamar a isto nacionalismo-teste-do-algodão: quanto mais branco, melhor. Ou podemos chamar-lhe aquilo que é: racismo. Não há outro nome para a desqualificação de uma proposta legislativa com base na cor da pessoa que a faz. Que tanta gente seja capaz de relativizar a suposta ironia de Ventura mostra apenas que a tolerância, o lusotropicalismo e os “brandos costumes” da pátria não passam de mitos autocomplacentes. Afinal, a esquerda tinha razão. Há mesmo um racismo estrutural na sociedade portuguesa. E eu, antes céptico, tenho que me render à evidência – convertido não por Joacine, mas por Ventura.

Em tempos normais, nada disto teria grande importância. A piadola morreria nas redes sociais ou nos cafés da claque. Acontece que não vivemos tempos normais. Na Europa e na América, as direitas conservadora, liberal e democrata-cristã, que no século passado combateram os totalitarismos e fizeram a União Europeia, sucumbem hoje ao vírus do populismo. Durante demasiado tempo, acreditámos que Portugal estaria imune. A eleição de Ventura para o Parlamento lançou as primeiras dúvidas. Os casos que se foram multiplicando com o Chega, da saudação nazi nos comícios aos filiados provenientes da extrema-direita, adensaram-nas. O post contra Joacine confirmou-as. A partir de agora, há um antes e um depois. Ninguém pode alegar que não viu, que não sabia, que não deu por nada, como muitos disseram não ter visto, não ter sabido, não ter dado por nada nos anos 30. É impossível ser neutro perante o racismo. Aqueles que não estão contra, são cúmplices. Se as últimas sondagens dão ao Chega 6% das intenções de voto, o problema já não é só de Joacine. É de todos nós.

Estou a exagerar? Então lembrem-se que a diferença entre cidadãos de primeira e de segunda foi sempre a pedra angular de todas as políticas racistas, da Alemanha nazi ao apartheid, da segregação no Sul americano à Índia actual. E lembrem-se da velha (julgava eu…) polémica doutrinária quanto à definição da nacionalidade pelo jus sanguinis ou pelo jus soli. Foi em nome do blut ariano que Hitler limitou progressivamente os direitos civis e políticos dos judeus, até à sua evaporação literal nas câmaras de gás. Não deixa de ser uma amarga ironia que Ventura revele tal afinidade electiva no momento em que passam 75 anos sobre a libertação de Auschwitz. Porque a história, ao contrário do que dizia Marx, nem sempre se repete como farsa.