A última vez que aqui escrevi, um dos leitores desejou que eu fosse violado na casa dos meus pais por “um bando de imigrantes coitadinhos transexuais gays e criminosos”. A causa foi, na altura, uma crónica onde defendia que julgar outros por características que não escolheram (como a cor da pele, o país em que nasceram ou a orientação sexual) revelava falta de inteligência. Eu ri-me, porque já ando na Internet há muito tempo. Claramente, atingi algum ponto sensível. Mas este exemplo de agressividade descabida – e tantos, tantos outros, contra tanta gente – merece atenção. Eu normalizei-a. Mas não devia.

Vivemos tempos muito violentos. Contudo, nada parece despertar no utilizador da Internet maior agressividade que o ser confrontado com uma opinião divergente. É verdade que a diferença sempre teve, historicamente, o seu quê de ameaça, tantas vezes por medo ou ignorância. Mas também costumava ser objeto de alguma curiosidade.

Agora, nem tanto. É tudo adversativo. Já não há perspetivas diferentes, há perspetivas erradas. Ninguém dialoga, antes espera – ou, ainda mais comummente, não espera – pela sua vez de monologar. Não há opinião nenhuma que não encontre respaldo num facto da Internet e, se não encontrar, vamos sempre a tempo de o inventar.

Tudo isto é muito grave, claro, mas ainda se toleraria se fossemos todos educadamente ignorantes. Afinal, o politicamente correto, que hoje tem má fama, sempre permitia algum convívio.

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