Persistindo 45 anos depois de 1974 a caminho do Socialismo, Portugal atingiu um estado de degradação tal que, hoje, um tão simples anúncio como o anúncio do novo Movimento 5.7, não só logo assume o estatuto de grande acontecimento como a mais brilhante luz de renovada esperança quando, infelizmente, logo é fácil perceber também que, independentemente das muito louváveis e ainda mais meritórias intenções do seus promotores, mesmo tendo êxito, o seu êxito mais não conduzirá senão a nenhures.

E é fácil de perceber que tudo não irá nunca senão a nenhures tanto porque os equívocos de que parte quanto o plano em que tudo é colocado, assim o indicam e tornam imediatamente patente.

E o primeiro equívoco manifesta-se desde logo no propósito de pretender «pensar à Direita».

Há «pensar à Direita» e «pensar à Esquerda»?

Evidentemente que não há mas, aceitar haver e agir como tal, logo indica e torna patente não só tudo continuar sob o mesmo completo domínio mental da Esquerda, como há dezenas de anos tem vindo a suceder, tal como, assim sendo, muito pouco de distinto e singular haverá a esperar do novo Movimento, nascido já, afinal, velho _ ou mais que velho, obsoleto.

De facto, partindo e aceite a dicotomia Esquerda-Direita, completamente fútil na actualidade, difícil, ou talvez mesmo inevitável, é que, no fim, tudo acabe por mais não se resumir a uma mera discussão de graus de Socialismo a aplicar,  como ao longo das últimas décadas temos visto sistematicamente suceder, sem mais _ ou pouco mais.

Se a mais séria, mais grave e radical divisão que sempre houve em Portugal, como ainda há, nunca foi entre Esquerda e Direita, cousa, ainda por cima, importada, mas de muito distinta ordem, o que se estranha é que um Movimento que afirma ter como primordial propósito uma renovação do pensamento político nacional, logo ficar inquinado, preso e espartilhado em tão anacrónica quanto, hoje, irrelevante dicotomia.

Perguntar-se-á: mas não existe Esquerda?

Existe.

Existe Esquerda, que se confunde com o Socialismo, tal como a própria Esquerda, não sem muito manifesto orgulho, sempre alto proclama e se apressa a auto-identificar, mas não existe Direita _ e muito menos a Direita que a Esquerda, por conveniência, diz existir e muitos, talvez ingenuamente uns, talvez também por interesse outros, acabam, sem qualquer vantagem, por aceitar ser, sem mais _ ou pouco mais.

A mais séria, mais grave e radical divisão que sempre houve em Portugal, como ainda há, não é entre Esquerda e Direita mas entre uma visão Marítima e uma visão Continental, ou seja, entre os que entendem ser Portugal uma Nação verdadeiramente Marítima e os que entendem ser Portugal uma Nação predominantemente Continental _ não deixando a Esquerda de se identificar, naturalmente, com uma visão predominantemente Continental.

Qual a importância de Portugal ser afirmar, ou não, como a Nação Marítima que verdadeiramente é e é para ser?

Jacques Pirenne, o conhecido historiador Belga que escreveu a monumental obra, «As Grandes Correntes da História Universal», foi talvez quem melhor sistematizou a diferença entre as Civilizações ou Nações Marítimas e Continentais.

Independentemente de alguns dos seus patuscos erros, como afirmar terem sido os Ingleses o primeiro povo europeu a chegar ao Japão, Jacques Pirenne parece ter analisado correctamente o carácter essencial de umas e outras, concluindo tenderem as Nações Marítimas a ser mais individualistas, mais abertas, mais tolerantes, mais receptivas, de síntese civilizacional, mais descentralizadas e eminentemente comerciais, tendendo as Nações Continentais, por contraposição, a ser exactamente o inverso, naturalmente.

Uma perspectiva interessante, sem dúvida, que se afigura perfeitamente correcta, não deixando de nos fazer reflectir, inclusive, por um lado, como Portugal se identifica, essencialmente, com a mesma caracterização enquanto Nação Marítima, assim como, em contrapartida, torna, por outro, igualmente evidente porque tende a Esquerda, eminentemente Continental, a ter, naturalmente, maior êxito em Nações com esse mesmo perfil.

Se atendermos, em simultâneo, à importância do Mar para Portugal, seja de um ponto de vista Geopolítico e  Geoestratégico, com a sua futura área sob jurisdição marítima a atingir o 3,8 milhões de km2, bem como toda a enorme importância que o Mar crescentemente tem na economia mundial, seja em termos de recursos naturais, recursos alimentares, recursos energéticos, recursos biogenéticos, bem como em termos de comércio e transportes marítimos, para citarmos apenas alguns casos mais evidentes, facilmente se compreende também porque, termos ou não termos consciência, plena consciência, da Nação Marítima que verdadeiramente somos, não é questão de somenos.

Se atendermos para além disso, à primordial responsabilidade que um Governo, qualquer Governo, sempre tem em garantir, antes de mais e acima de tudo, as condições necessárias e suficientes para uma perfeita e real afirmação de verdadeira Autonomia e Independência Nacional, as condições necessárias e suficientes de realização da Liberdade, as condições necessárias e suficientes para a plena afirmação da Individualidade,  facilmente se compreenderá também como, tendo em atenção, como acima exposto, a crucial e decisiva importância do Mar para Portugal, a crucial e decisiva importância de a  nenhum Governo ser permitido não ter plena consciência da Nação Marítimo que, antes de mais e acima de tudo, verdadeiramente somos.

Finalmente, compreendendo igualmente a impossibilidade de qualquer Governo seja qual for, formular qualquer Estratégia de Defesa Nacional, a Estratégia que verdadeiramente deve estruturar a acção de qualquer Governo, até qualquer outra Estratégia mais circunscrita, como, inclusive, uma Estratégia Económica e de Desenvolvimento, sem a devida atenção e plena consciência  do que a Nação é e é para ser, uma vez mais, com facilidade se compreende  a crucial e decisiva importância da plena consciência que é necessário termos da Nação Marítima que real e verdadeiramente somos.

Lendo tanto o Manifesto do Movimento quanto seguindo as acções do respectivo lançamento público do mesmo, nem por uma única vez se vislumbra, ou se vislumbrou, a mais mínima séria e real preocupação com Portugal, com da singularidade como a mais Marítima das Nações Marítimas da Europa, como tampouco a palavra Mar é referida por um única vez que seja, seja em que circunstância for.

Na entrevista entretanto concedida à SIC Notícias, Miguel Morgado manifestou, naturalmente, uma genérica preocupação com o contínuo e progressivo atraso de Portugal em relação não só às restantes nações europeias como em relação às principais nações do mundo.

Isso, porém, não diz muito. Ou melhor, diz muito sobre a preocupação com a situação económica mas não com Portugal especificamente, tanto mais quanto, logo depois, afirmando pretender vir o Movimento servir sobretudo como inspirador dos Programas de Governo dos Partidos que vierem a integrar o mesmo, quanto sublinha é a importância de tudo começar uma mais aprofundada «reflexão sobre a relação da liberdade com a igualdade», assim como nunca se perder de vista a igual atenção que sempre deve ser conferida aos «membros mais desfavorecidos e mais vulneráveis da nossa sociedade», como referido durante o lançamento público do Movimento, tal como apresentado no Telejornal da RTP 1, sem que se destaque, uma vez mais, qualquer preocupação pelo facto de Portugal ter ou não ter qualquer real e verdadeira estratégia de afirmação da sua singularidade, seja em relação à Europa, seja no Mundo.

Se assim é, o que se conclui, é que, tal como previsto, os quadros mentais do Movimento continuam inexoravelmente dominados pela Esquerda, ou seja, pelo predomínio das questões respeitantes ao Sistema Económico, e pouco mais.

Afinal, porquê a preocupação com a «igualdade»? O que é que isso significa? Não é a questão da «igualdade» um disparate típico da Esquerda e do Socialismo que, na verdade, nada significa?

É, dever ser, primordial preocupação de um Governo a situação com os «membros mais desfavorecidos e mais vulneráveis da sociedade», por mais louvável que seja tal preocupação, ou a sua primordial preocupação e trabalho deverá ser centrada na formulação e execução de uma verdadeira Estratégia de Afirmação, Independência e Autonomia Nacional?

Assim se nos afigura.

Não seria de esperar mais de um Movimento que se diz «novo», que pretende fazer «ouvir vozes originais e jovens _ com inteligência, arrojo e alegria»?

Aparentemente sim, esperando-se, talvez, uma verdadeira actualização do pensamento de um D. Afonso Henriques, a quem devemos a nossa Independência Política; de um D. Dinis, a quem devemos a nossa Autonomia Cultural; de um D. Duarte, a quem devemos a afirmação da nossa Singularidade Espiritual; de um D. João II, a quem devemos a nossa Projecção Universal.

Contudo, tendo atenção à origem da designação do Movimento, 5.7, e lendo «Uma Constituição para os Anos 80», de Francisco Sá Carneiro, talvez comecemos a compreender, e a aceitar também, que o equívoco, afinal, talvez seja mais nosso do que do próprio Movimento, ou seja, sermos nós quem, ouvindo falar de um Movimento para combater a sério o Socialismo vigente que desde há longas décadas tudo em Portugal progressivamente esmaga, corrói, esteriliza e aniquila, logo nos iludimos imaginando o nascimento de um verdadeiro Movimento Liberal, verdadeiramente Português, de real, radical e verdadeira contraposição a esse mesmo infantilizante Socialismo.

Mas não, evidentemente, ainda não.

Mesmo um outro também novo Movimento, ou Partido, ainda não percebemos bem, dito inclusivamente como Liberal, a Iniciativa Liberal, parte igualmente integrante do 5.7, centrando-se exclusivamente no liberalismo económico, não passa de uma caricatura do verdadeiro Liberalismo, manifestando tão pouco Português quanto realmente Liberal, não percebendo sequer que, tudo reduzindo a um simples e mero liberalismo económico, no final, até, sob determinados aspectos, com o próprio Socialismo acabam por se confundir.

Significa tudo isto não ter o Movimento 5.7 importância?

Longe disso.

Tem importância, mas uma importância equivalente a um analgésico, ou seja, a algo que pode sempre diminuir a dor, no caso, o peso actual do Socialismo que nos esmaga e nos reduz à servidão, mas sem possibilidade de curar uma qualquer real infecção, regressando sempre, mais cedo ou mais tarde, quer a dor, quer, no caso, passando uma ou outra legislatura, o mesmo nefasto e devastador Socialismo.

Por outras palavras, para verdadeiramente nos libertarmos do Socialismo vigente é necessário mais do que um simples Movimento 5.7, é necessário Portugueses, verdadeiros Portugueses que ainda saibam e queiram pensar em Português, como Portugueses, reconhecendo e tendo plena consciência, antes de mais e acima de tudo, da Nação Marítima que somos, da Nação Marítima que somos para ser.

Portugueses que compreendam que, se não soubermos olhar o Mar com olhos de ver, neste momento, como quase desde sempre, o nosso maior activo Geopolítico e Geoestratégico, assim como o nosso grande, e talvez último, recurso com verdadeiro peso e importância económica, o que ainda dizemos como Mar Português, passará, inexoravelmente, a Mar Europeu, gerido por Bruxelas — e não será, com certeza, a nosso favor.

Tenhamos consciência disso, tenhamos consciência de tudo isso para, finalmente, libertando-nos, parafraseando Pinharanda Gomes, deixarmos de ser «a nação ocupada» que temos sido.

O mais virá por acréscimo.

Mas precisamos de um pouco mais do que, actualmente, se afigura o 5.7 pretender ser.

Será que conseguirá evoluir?

Eis uma boa questão.

Director do Jornal da Economia do Mar