Política

Populismo, Portugal e o Mar

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A capacidade que a Esquerda tem, e sempre teve, para se impor, dominar e exercer o condicionamento mental que exerce, é admirável.

O que é o Populismo?

Ninguém sabe, mas é um susto e andamos todos apavorados com os perigos do tal Populismo que ninguém diz, nem sabe dizer, o que é mas, seja o que for, nunca será menos que terrível, uma espécie de pré-anúncio do fim-do-mundo.

Compreende-se, não há pior medo do que o medo do desconhecido e, num ponto, talvez tudo esteja certo: o tal Populismo não deixa de representar, de algum modo, não exactamente o fim-do-mundo, mas o fim de um certo mundo, do mundo que viveu, e tem vivido, no Ciclo da Revolução Francesa.

É isso que está a terminar e o que estamos a viver não é mais do que o crepúsculo do Ciclo da Revolução Francesa.

Como em todos os momentos de crepúsculo, tudo ainda é um pouco confuso, pouco nítido, indefinido.

Compreende-se que possa gerar alguma inquietação, alguma apreensão, mesmo algum receio, mas está longe de justificar o histerismo que a Esquerda gosta de impor em relação a tudo quanto se lhe opõe.

Compreende-se, está na sua natureza, é-lhe inato e, nos tempos de infantilismo que estamos a viver, impostos pela mesma Esquerda, funciona e tem sido plenamente frutuoso.

O processo seguido é simples e eficaz.

Como se controla e se exerce esse condicionamento, não tem sequer grande ciência, como se sabe quase desde o início do mundo: pela Palavra.

Como Freud já advertia, «quem cede nas palavras acaba, mais cedo ou mais tarde, por ceder também, inevitavelmente, nas ideias», e, cedendo hoje, como cedemos, na Palavra, acabamos por ceder também nas ideias.

Muito elucidativo, por exemplo, o artigo de Jaime Nogueira Pinto publicado no Observador, «A excepção portuguesa: porque não temos uma direita radical?».

Como se sabe, e Jaime Nogueira Pinto melhor do ninguém o sabe, como exposto e reconhecido no seu próprio livro, «A Direita e as Direitas», não há isso que se diz como Direita, não deixando, todavia, de proceder como se não soubesse, mesmo quando reconhece, simultânea e algo paradoxalmente, no mesmo artigo, a hegemonia que a  Esquerda tem sabido vir exercer ao longo das últimas décadas e, quem sabe, mesmo desde toda a segunda metade do Séc. XX até hoje.

De acordo com o artigo, porém, na Direita, tudo cabe: Rolão Preto, Fascistas, Conservadores, Monárquicos, mais Liberais, mais Absolutistas, mais Integralistas, Capitalistas, Libertários, Liberais e até mesmo os Nacional-Socialistas — talvez única e exclusivamente pela assunção da expressão «nacional» na designação, não porque, como também se sabe, não há, nem será alguma vez possível haver, Socialismo algum que não se implante senão como Nacional-Socialismo — mas assim reconhecendo, ficar-se-ia sem Esquerda…

Um pouco confuso, sem dúvida.

E pensando em termos mais puramente doutrinários, não estiveram, por exemplo, os Integralistas de um António Sardinha e Alfredo Pimenta, antiliberais e positivistas, com o último a ter mesmo por grande ambição poder vir a  ser o São Tomás de Aquina de Augusto Comte, mais próximo, sob múltiplos aspectos, de um certo Socialismo, embora não marxista, ou seja, de uma certa Esquerda, do que de uns Liberais, no sentido mais genuíno da expressão?

E porquê recorrer ao uso de expressões tão contraditórias, como, por exemplo, a de Capitalismo-Liberal, fingindo-se, ou aceitando-se mesmo, a compatibilidade de quanto é, em si mesmo, de um ponto de vista doutrinário, completamente distinto e até mesmo, em múltiplos aspectos, oposto e inconciliável?

A quem poderá interessar tal confusão senão mesmo à Esquerda, aceitando ser efectivamente Direita tudo quanto não seja Esquerda, tudo quanto não se confine ao estreito quadro socialisto-marxista em que a própria Esquerda se constituiu, com real e profunda homogeneidade doutrinária, salvo pequenas declinações de grau que não de natureza, como não sucede, nem nunca sucedeu, ou alguma vez sucederá, com a dita Direita?

A Direita, de facto, não existe, não passando o que agora se diz Direita senão de pura invenção da Esquerda como forma de melhor controlar e condicionar tudo quanto lhe escape, ou seja, tudo quanto fuja ao quadro socialisto-marxista em que se constituiu e constitui.

Fazer crer possuir a Direita a mesma homogeneidade que existe, realmente, à Esquerda, importa, e muito, à Esquerda porquanto, infantilizadas as mentes, reduzido todo o pensamento ao mero raciocínio dicotómico e procedendo sempre de acordo com a dita dialéctica marxista, fácil é tudo controlar, tudo condicionar e esmagar.

Da Infantilização das Mentes à Hegemonia da Esquerda

Se Baudelaire afirmava ser «La plus belle des ruses du Diable» persuadir-nos que não existe, também a mais «bela manha» da Esquerda sempre foi a todos persuadir não actuar senão desinteressadamente, generosamente, altruisticamente, em nome, sempre em nome, da mais nobre e santa Justiça.

Como sabemos, se não pensamos por palavras, não há, porém, pensamento sem palavra.

E não havendo pensamento sem palavra, a melhor, mais directa e eficaz forma corromper, perverter e, por fim, condicionar o pensamento, é, naturalmente, começar por corromper, subverter e anular todo verdadeiro poder da palavra, destituindo-a de todo o significado até que fique a brilhar tão só, única e exclusivamente, toda a intensa carga emocional que as mesmas palavras sempre detêm também.

Nesse sentido, anulada a mais a crucial distinção entre significante e significado, ganhando as palavras em valor emocional quanto perdem em valor cognitivo, recua o pensamento aos mais idílicos e felizes dias da sua mais tenra infância, período em que as emoções ainda sobrelevam, naturalmente, toda a razão, tornando-se assim fácil um tão subtil quanto quase imperceptível  muito efectivo e eficaz controlo mental.

Pela emoção move-se o mundo, conduzido facilmente também o pensamento à pura dicotomia e, arrogando-se ares de filósofos, pela dialéctica marxista, roubada a Fichte e erradamente atribuída a Hegel, como tese-antítese-síntese, mas na realidade, reduzida a mera oposição entre tese e antítese, fácil é prender e conduzir subtilmente as mais infantis mentes, sempre muito excitáveis pela dicotomia, pelo jogo cénico do sim e do não, dos bons e dos maus, do positivo e negativo, onde se pretende.

O que é a Esquerda? O Socialismo.

O que é a Direita? O negativo da Esquerda, o negativo do Socialismo, tudo o que não é Socialismo, identificando-se sempre, Esquerda e Socialismo, como um e o mesmo.

Mas, afinal, o que é e o que defende o Socialismo, a Esquerda? De um ponto de vista estritamente doutrinal, tem o Socialismo como primado e primordial finalidade, a realização da Justiça.

Não havendo, talvez, sentimento  mais agudo e inato ao ser humano que o sentimento de Justiça, bastando para tal ver como instintivamente reage qualquer criança, mesmo das de mais tenra idade, a tudo quanto para si entenda, mesmo tão só vagamente, como injustiça, o preceito não deixa de ser, de per se, particularmente sedutor, mesmo perfeito, de um ponto de vista emocional — tornando, inclusive, difícil rebater ou refutar que deva ser essa a prioridade das prioridades da própria Política, tal como hoje é quase universalmente aceite.

Nada a dizer, perfeitamente legítimo e perfeitamente compreensível uma doutrina política, como qualquer doutrina política, que tenha como primado e primordial finalidade a realização da Justiça.

O problema surge quando se começa a perceber que, para a Esquerda, sempre materialista, não só não tenha o indivíduo realidade alguma como a muita Socialista Justiça mais não vise senão a realização de uma tão absurda quanto louca Igualdade, em boa verdade, pura perversão do mais grave, sério e real conceito de Justiça.

Eclipsa-se o conceito, como a própria Justiça, perante tão largo disparate? Com certeza, mas a emoção de tão mais nobre e sublime propósito fica — e perdura.

Se o Socialismo visa a realização da Justiça, se a Justiça, para o mesmo Socialismo e a mesma Esquerda, como um e o mesmo, é a realização da Igualdade, como aceitar mínimo ataque à Igualdade, como ao Socialismo, ou à mesma Esquerda, enquanto sinónimos de realização da mesma Justiça?

Não é tudo por quanto todos mais anseiam? Será possível, aceitável, humano, negar a quem quer seja, Justiça?

Não é em nome da mesma Justiça que se encontra expressamente consagrado na Constituição a proibição de quaisquer formas de discriminação por razões de sexo, idade, raça, religião, ideologia e o mais que, eventualmente, agora escape?

É. Mas em termos de conta bancária, não só toda a discriminação é aceite como até enaltecida e por todos, ou quase todos, aplaudida — por razões, evidentemente, de Reengenharia Social, meio indispensável para se atingir a mesma tal Igualde, afinal, o valor supremo da Esquerda, do Socialismo, por mais disparatado que seja.

Contradição? A quem importa? Todos, quase todos, assim aceitam — em nome de uma espécie já intocável e sacrossanta Igualdade. Não é a desigualdade, quase só a desigualdade, seja lá isso o que for ou signifique, que incomoda?

Discute-se muito o papel do Estado? Discute-se, mas sempre, tão só e apenas, nos estritos limites determinados pela mesma Esquerda, ou seja, no estrito limite de tudo quanto respeite aos melhores, mais eficazes e eficientes meios para se atingir a, por si estatuída, primordial finalidade de promoção e realização da Igualdade, sinónimo, uma vez mais, de realização da mesma Justiça. Não mais do que isso.

Contestar, nesta quadro, a Esquerda, o Socialismo, a loucura da Igualdade ou o disparate do correspondente conceito de Justiça, se conceito se pode designar tão manifesto absurdo, não é apenas ser de Direita, é logo ser classificado, no mínimo, de Extrema-Direita porquanto, a Direita, a Direita moderada, é a Direita devidamente enquadrada pela Esquerda, a Direita que também persegue a realização da mesma Justiça, pelo que, perseguindo a realização da Justiça, não poderá deixar de perseguir a mesma Igualdade enquanto realização da mesma Justiça, sob pena de tudo colocar em causa.

O que é a Direita? Apenas tudo o que não é Esquerda, o Socialismo?

Não apenas. É muito mais do que isso, é o negativo da Esquerda: onde a Esquerda busca a Igualdade, busca a Direita a desigualdade, o que vale por dizer que, sendo a Igualdade a realização da mesma Justiça, não buscando a Direita a mesma Igualdade, não se dizendo talvez, nos dias mais moderados, buscar activamente a Injustiça, sempre se dirá, pelo menos, ser-lhe manifestamente indiferente a realização da mesma Justiça.

Logo, a Direita mais não pode representar senão a iniquidade como toda a injustiça e tudo quanto de mais negativo corra e ocorra no mundo.

Não houvera Direita e «nos rios correria mel», a «inteligência média dos cidadãos ultrapassaria já a de Aristóteles», como previa o grande Estaline quando se desse a plena implantação do Comunismo.

A Esquerda impôs-se. A Esquerda impõe-se. Quem se meter com a Esquerda leva. E é justo porque, quem se mete com a Esquerda está, por definição, inapelavelmente, irremissivelmente, não só a meter-se com a Justiça como fora da Justiça, mais não personificando senão, consequentemente, a mais puro e diabólica iniquidade.

Exagera-se? Atenda-se, por exemplo, ao uso que a Esquerda faz de expressões como Direita, Neoliberalismo e, mais recentemente mas ainda não tão insistentemente, Populismo.

Muito provavelmente, quase absoluta certeza, ninguém saberá dizer, e menos ainda determinar, com rigor, qual o significado atribuído pela Esquerda a tais expressões, como tampouco os próprios, o que se constata com facilidade, de resto, pelo modo obsessivo como às mesmas sempre indiscriminadamente recorrem a propósito e despropósito de tudo e coisa alguma, como se repetissem apenas e tão só, automática e até à exaustão, um qualquer mágico mantra espanta-espíritos, como as mães de outrora evocariam o Papão para aplacarem as diatribes dos mais truculentos meninos.

Porque se classifica hoje como Populismo, e com tanta irritação, por exemplo, tudo quanto anteriormente se classificava apenas, embora sempre negativamente, como Direita?

Por um lado, porque os novos movimentos ditos Populistas não se enquadram simplesmente na Direita tradicionalmente acomodada à Esquerda e, por outro, porque os novos movimentos ditos Populistas, neste crepúsculo de Ciclo da Revolução Francesa que representa também o crepúsculo do Ciclo de Hegemonia da Esquerda, manifestam-se, antes de mais e acima de tudo, como anti-Esquerda, algo, para a mesma Esquerda, simplesmente intolerável, inadmissível, insuportável, mesmo sabendo que, tal como nunca houve uma só e única Direita, tampouco há hoje um só e único Populismo.

O que é gora dito classificado como Populismo é múltiplo e diverso, salvo, talvez, esse traço comum anti-Esquerda que outros, talvez mais simpaticamente, talvez mais obscuramente, dirão anti-Sistema, como se o Sistema, hoje, alguma coisa mais alguma vez fosse senão a mesma Esquerda.

Sim, estamos no crepúsculo de um Ciclo, hora em «que tudo perda as arestas e as cores» e se torna difícil ver com nitidez os contrastes.

Ainda tempo de adolescência, também dos novos movimentos, ainda naquela idade dramática em que mais se nega do que se afirma, como tão bem descrito nos belíssimos versos de adolescência de Régio: «Não sei por onde vou, Não seu por onde vou, Sei que não vou por aí!».

Compreende-se que as pessoas se tenham cansado de se verem tratadas como uma espécie de novos Servos do Estado como antigamente eram os Servos da Gleba;

Compreende-se que as pessoas se tenham cansado de se verem tratadas como uma espécie de adolescentes imberbes sempre dependentes das sempre muito esclarecidas e iluminadas vanguardas que tudo decidem, dispõem e determinam;

Compreende-se que as pessoas se tenham cansado de verem negada a individualidade, desvalorizada a família, supostamente ultrapassada a era das nações quando perfeitamente sabem e reconhecem nada ser real onde não há individualidade, como não haver individualidade que não comece sempre por formar senão no seio de uma família, família sempre inserida numa comunidade, inserida numa nação, inserida numa Civilização, sabendo, como sabem, como não podem deixar de saber, ser o pensamento, de que tudo sempre depende e tudo decide, ser sempre radicado;

Compreende-se que as pessoas se tenham cansado das supostas elites sempre muito Universitárias, sempre muito lidas na French Theory, nos Althusser, Derrida, Foucault, Deleuze e todos os seus mais directos ou longínquos avatares, como um Richard Rorty, recusando a transcendência, resquício de um passado metafísico já ultrapassado, negando, por consequência, a verdade enquanto verdade, o pensamento, a lógica, para mais não restar senão tão somente a retórica, aceitando, por consequência, tudo quanto podemos saber e dizer do mundo, da realidade e seja do que for, nunca ser mais senão mera convicção pessoal, mera narrativa, mero jogo de palavras, tendo sendo bem presente nós, nesse enquadramento, as mais famosas convicções e paixões de um António Guterres, as narrativas de um José Sócrates, os jogos de palavras de um António Costa e até dos afectos de um Marcelo Rebelo de Sousa, como acto preventivo, quem sabe, para superar qualquer tendência de crueldade, o interdito, o único interdito, como sempre destacou Rorty.

Como se compreende que as pessoas se cansem de políticos sem mínima altura, prontos a serem tudo e o que for necessário, não se coibindo, inclusive, ao patético repúdio das raízes cristãs da Europa, como se a Europa pudesse ser a Europa que a Europa é sem o cristianismo que a formou, lhe deu as Universidades e, juntando à Liberdade trazida pelo Cristianismo, a Verdade da Filosofia Grega e a Justiça do Direito Romano, constituiu a Civilização que a Europa sempre constituiu e representa, como a Europa ainda representa e constitui, por um simples prato de lentilhas eleitoral — senão, quem sabe, algo mais sinistro.

Compreende-se que as pessoas se tenham cansado.

A Singularidade de Portugal, Nação Marítima e Atlântica

Há quem se interrogue, como Jaime Nogueira Pinto no citado artigo, porque não surgiu ainda em Portugal qualquer movimento de cariz Populista, admitindo que tal queira dizer alguma coisa.

Razões haverá, com certeza. Dir-se-á não termos, antes de mais, problemas que outras nações enfrentam.

Não sofremos, por exemplo, problemas imigração massiva e exótica mas, pelo contrário, apesar de tudo, sempre com uma matriz cultural e religiosa próxima ou mesmo comum, como sucedeu, por exemplo, com a vaga de imigrantes da Ucrânia, sendo, de resto, as demais comunidades de dimensão relativamente escassas e não parecendo fazer sequer muito sentido entender como verdadeiros imigrantes, senão de um estrito ponto de vista burocrático-administrativo, quem chega do Brasil, Cabo-Verde ou de qualquer País de Língua Portuguesa.

A comunidade muçulmana, por seu turno, também está perfeitamente integrada, como sempre esteve, não deixando Portugal, além disso, de ser uma nação que integra, com maior ou menor consciência disso, as três tradições, Cristã, Hebraica e Muçulmana.

Não temos comunidades anti-portuguesas como outras nações têm, nem os correspondentes problemas de terrorismo, nem o drama de separatismos, seja por razões de ordem étnica, linguística ou cultural, que outras nações sofrem também.

A globalização não nos afectou abrupta e devastadoramente, tanto porque nunca fomos uma nação muito avançada desse ponto de vista, como a mesma desindustrialização, se assim se pode dizer, resultou muito mais do descalabro económico ocorrido em 1974/75, numa primeira fase e, numa segunda, da entrada na então Comunidade Económica Europeia, não deixando de recebermos, em contrapartida, os tais Fundos Europeus de Coesão que sempre tudo amenizaram, não sendo de deixar de referir igualmente que, tendo sido nós, Portugal, os Portugueses, a iniciarmos a primeira globalização económica do mundo, nunca perdemos a noção de sermos, por definição,  uma nação de profundo sentido globalista, quem sabe, até mesmo Universal.

Finalmente, de um ponto de vista mais estritamente político, mesmo não sendo Portugal uma nação tão una quanto por vezes se faz querer, quer, talvez, por uma já difusa mas ainda real memória da atroz Guerra Civil do Séc. XIX, bem como do desastre da I República e de quanto se chegou a perspectivar perigosamente em 1974/75, não afirmamos as clivagens nem as rupturas outros povos tendem a afirmar sempre de modo mais radical.

Somos uma Nação Marítima, verdadeira e essencialmente Marítima, Atlântica, que muito se ignora a si mesma, é certo, mas ainda assim reconhecidamente Marítima, com um povo, talvez por isso mesmo, ou muito provavelmente por isso mesmo, também talvez mais sábio que muitos outros povos, sabendo, reconhecendo, talvez apenas intuitivamente, talvez apenas quase só já inata sabedoria, não haver na realidade isso que diz como contrários, tudo sendo para ser continuamente compreendido e ultrapassado.

Um nação que, por ser uma Nação Marítima e Atlântica, nunca foi nacionalista no sentido mais estrito que tal expressão veio a adquirir e hoje tem.

Não, não se afigura necessário o surgimento, em Portugal, quaisquer movimentos Populistas.

Em Portugal, tais movimentos não deixariam de sempre um caracter algo exótico e os Portugueses estão também cansados desses exotismos e, se o Socialismo é uma doutrina essencialmente Nórdica, Continental, o Populismo, tal como hoje o vemos configurar-se nos múltiplos movimentos em resposta ao mesmo Socialismo, à mesma Esquerda, afirma-se ainda igualmente demasiado Nórdico, Continental, pouco adequado à nossa mais arejada, Marítima e Atlântica Alma.

O que Portugal precisa é de Portugueses que pensem em Português como verdadeiros Portugueses que devem saber ser.

Políticos Portugueses que saibam pensar em Português como verdadeiros Portugueses.

Políticos Portugueses que tenham verdadeira consciência da Nação Marítima, Atlântica, que realmente somos.

Políticos Portugueses que saibam olhar para o nosso Mar, não para o Além-Mar de outrora, com verdadeiros olhos de ver, e perceber, séria e realmente, de uma vez por todas, todo o seu imenso, decisivo, crucial valor em termos Económicos, Geopolíticos, Geoestratégicos e até no que, por facilidade de expressão, se diz como Identidade.

Políticos Portugueses que saibam olhar para o nosso Mar e compreendam não apenas possuirmos uma das maiores áreas marítimas do mundo sob jurisdição nacional, mais ainda tendo em atenção a extensão dos limites da Plataforma Continental, como uma das mais ricas biodiversidades marinhas, e percebendo também como o futuro do mundo, como o de Portugal, está e virá realmente do Mar, se disponham a vigiar, guardar e defender esse nosso último e decisivo recurso, esse imenso património, último e decisivo factor que ainda torna possível a afirmação de uma real e verdadeira independência nacional, uma real e verdadeira autonomia e uma real e verdadeira soberania, dispondo-se a enfrentar decididamente quem e o que necessário for, a começar e incluindo, eventualmente, a própria União Europeia.

Políticos Portugueses que, olhando para o nosso Mar, saibam pensar a correspondente Estratégia, traçar o consequente Plano de Acção e perseguir, sem hesitação nem descanso, os respectivos objectivos.

Políticos que tenham como primordial finalidade da Política, do Governo, a afirmação de real e verdadeira Independência Nacional, da real e verdadeira Autonomia Nacional, da real e verdadeira Soberania Nacional, sabendo que tudo isso estará sempre causa se não soubermos olhar e defender o nosso Mar como se impõe sabermos ter plena consciência disso e agir consequentemente.

Políticos que não temam passar por ridículos por serem Portugueses , por  pensarem como Portugueses, como tudo o que grande Universidade detesta e a Esquerda abomina.

Políticos Portugueses que pensem como Portugueses, reconhecendo sermos a singular Nação Mafrítima e Atlântica, que somos porque, ao contrário de quaisquer mais modernas French Theory, sempre tão bem acolhidas e propagadas pela Universidade como sempre tão acarinhadas e exaltadas pela Esquerda, Portugal tem uma consciência da Transcendência e da Verdade como poucas outras nações terão, se alguma; um povo com um sentido da Individualidade (por deturpado que hoje possa parecer estar), sem a qual nem a Liberdade vez alguma será real nem sentido algum terá, assim como um tão singular conceito de Propriedade, como Orlando Vitorino soube brilhantemente conceptualizar e expor, sem a qual qualquer suposta finalidade de realização da Justiça será tão vã como inútil.

Temos tudo quanto mais importa. Haverá quem afirme votarem os Portugueses com os bolsos e não em vãs filosofias?

Com certeza, é compreensível — ninguém vive exclusivamente do ar que respira –, mas afirmar que um povo que sofreu e aguentou, como os Portugueses sofreram e aguentaram, com o calmo estoicismos como sofreram e aguentaram, a vinda de uma Troika após o descalabro Socialista do Governo de José Sócrates, só vota com os bolsos, nem é um insulto, é apenas o disparate de quem não tem mesmo pensamento que vá além do bolso.

Mais seriamente, dir-se-á ser cada vez mais actual o dito de Almada Negreiros: «Há Portugal, não há Portugueses…»? Talvez, mas não havendo Portugueses em número suficiente para continuar Portugal, Portugal já teria desaparecido — e não desapareceu.

Há Portugal e há Portugueses.

Não saberemos onde todos estão, por certo, mas saibam os nossos políticos ser Portugueses, eventualmente uma nova geração de políticos, com verdadeira Alma Marítima, Bárbaro pensamento Atlântico, e o mais virá naturalmente, quase apenas e tão só por simples acréscimo.

Deixemos os Populismos para os Nórdicos e para quem deles necessite, para quem o Populismo significa o fim do Ciclo da Revolução Francesa. Para nós, porém, Nação Marítima e Atlântica, sempre singular, o fim de Ciclo não é exactamente o fim do Ciclo da Revolução Francesa mas o fim do Ciclo da Revolução Pombalina. Causa próxima mas cousa bem distinta.

Talvez por isso, também tudo isto tanto incomode — tanto incomode que tantos preferiram olhar para o lado, fingindo nada ver — senão já incapazes de ver, mesmo.

Director do Jornal da Economia do Mar

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