Na semana passada celebrei o meu aniversário de um ano em Portugal com um dia mágico, inesperadamente fazendo surf com os Red Hot Chili Peppers em São João da Caparica. Tem sido um ano de riso, de lágrimas e de frustração. Portanto, passado um ano, o que penso deste país louco, com uma beleza e cor incríveis, mas por vezes frustrante?

O meu ‘top 5’ de aprendizagens sobre Portugal:

  • Os portugueses adoram falar;
  • Não se importam de esperar horas, até dias;
  • São condutores loucos;
  • Portugal é a Austrália da Europa;
  • É um país em rápida mudança.

Há um ano, parti da costa da Austrália — como parte do meu trabalho com uma empresa australiana de energia renovável das ondas — com o intuito de desenvolver um projeto de energia das ondas em Peniche. Aterrei em Lisboa numa noite quente de verão, logo após Portugal ter sido campeão europeu de futebol. Tinha voado 25 horas e mal podia esperar para tomar um banho frio. Enquanto esperava para poder aceder ao meu AirBnB, fui recebido por um senhor no seu café. Em português arranhado aprendido no Duolingo (aplicação de línguas), expliquei que tinha acabado de chegar da Austrália. O dono do café ofereceu-me imediatamente um “kit português de boas-vindas”, que consistia em pastéis de bacalhau e um cálice de aguardente. Já levemente tocado, saí do café uma hora depois para ir para o meu AirBnB, e fui surpreendido por um pôr-do-sol que nunca esquecerei. Portugal tinha-me recebido de braços abertos — e que receção inesquecível.

As duas semanas seguintes, no entanto, ficaram marcadas durante dias inteiros pela busca incessante por um apartamento, já que a minha data de saída do AirBnB se aproximava rapidamente. Apesar de já ter vivido em países europeus e de conhecer o nível de competição em termos de alojamento, não estava preparado para uma experiência tão intensa! Contactei mais de 200 propriedades sem sucesso, e comecei a fazer chamadas a proprietários de AirBnB, pedindo desesperadamente por uma solução de longo prazo. Em desespero, até investiguei leis de ocupação ilegal, considerando a elevada quantidade de edifícios abandonados que vi na Baixa da cidade. 12 horas antes de ter de sair do meu AirBnB, um dos meus contactos salvou-me e encontrou um apartamento. Uma batalha de alojamento estava ganha, mas a guerra estava longe do fim. O próximo oponente que me esperava era mais esperto e mais burocrático.

Foi aqui que descobri que os portugueses não se incomodam de esperar. Entremos no mundo do Serviço das Finanças, Serviço de Estrangeiros e Fronteiras e Segurança Social. Esperei oito horas por uma reunião de dez minutos para conseguir o meu NIF (número de identificação fiscal). O meu processo com o SEF durou meses, e enquanto esperava a documentação oficial, foi-me dito que não podia sair do país, o que causou vários problemas quanto a viagens profissionais que precisava de fazer na Europa. Passadas várias semanas, consegui finalmente uma reunião em Évora para a minha autorização de residência (eu moro em Lisboa). Feliz por terminar este processo burocrático, viajei até Évora, e fiquei em choque quando recebi uma chamada ao final da tarde, já o meu comboio tinha partido da estação de Évora em direção a Lisboa. O funcionário do SEF explicou-me que a máquina não tinha gravado a minha assinatura e que teria de regressar a Évora para completar o processo. Regressei a Évora uma semana depois, para uma assinatura que demorou menos de 30 segundos. Incrível.

A minha experiência mais chocante foi na Loja do Cidadão, onde descobri que a fila de espera chega a 200 metros ainda antes do edifício abrir às 8h30. Testemunhei um empreendedor oportunista aguardar pelo fim da fila para imprimir as restantes senhas e vendê-las a cinco euros cada uma no exterior do edifício! Em contraste, penso que os australianos criariam um motim se tivessem de esperar mais de sete horas para qualquer reunião, odiamos esperar. Aliás, ouvi até a história de um empresário australiano que, após uma espera mais longa num banco, decidiu começar a cobrar o seu tempo ao banco. Não toleramos esperas.

Entre a minha autorização de residência e a luta do alojamento, esta experiência abateu-me verdadeiramente. Considero-a uma enorme barreira a atrair talento para Portugal, que é cada vez mais necessário tendo em conta os objetivos empreendedores do país e a luta com o desemprego jovem. Atrair empreendedores para Portugal para construírem as suas empresas e criarem emprego qualificado para os jovens portugueses é uma oportunidade. Se o processo de chegada é tão difícil, complexo e ineficiente, que mensagem manda a um empreendedor que quer abrir o seu negócio em Portugal? Todos os processos por que passei, com exceção da recolha das impressões digitais, poderiam ter sido feitos online. Esta transformação tem de acontecer o quanto antes.

Aprendi bastante com esta experiência, para além de descobrir os limites da minha paciência. Enquanto esperava, tive intensas discussões com cidadãos portugueses. Aprendi muito sobre as vossas descobertas, o vosso domínio mundial e a dor dessa perda. Descobri os prós e contras de Salazar, os efeitos do comunismo e a guerra com as antigas colónias. Compreendi os impactos da crise financeira, a raiva que desenvolveram e como a maioria da minha geração saiu do país para desenvolver a sua carreira internacionalmente, deixando um vazio para a liderança. Aprendi que estão entusiasmados com a importância gradual da meritocracia em detrimento do nepotismo nos círculos de liderança portugueses. Descobri como são um país pequeno, mas com grandes sonhos e algo a provar. Acima de tudo, aprendi que, tal como a Austrália, Portugal é um país de oportunidades.

Passado este ano, recomendo mudanças em três grandes áreas. Em primeiro lugar, desafio os Portugueses a tornarem-se “piratas de ideias”. Como nação, têm uma vantagem-chave por terem viajado ou terem uma rede familiar alargada no estrangeiro. Esta exposição a ideias que extravasam as fronteiras significa uma capacidade de as “roubar” e adaptar localmente, alavancando incentivos de negócio e programas de startups que Portugal está a desenvolver. Da Vinci disse que a “arte é roubo”, ou seja, que grandes artistas roubam ideias e tornam-nas suas. Portugal tem uma grande vantagem de estar exposto a inúmeras ideias através das antigas colónias e da sua rede histórica – um ativo valioso. Usem-no: falem com os vossos amigos, com a vossa família se precisarem de uma ideia de negócio.

E não precisam de ser ideias relacionadas à última tecnologia. Por exemplo, eu roubaria uma ideia simples australiana de reutilização de materiais de construção. Portugal abunda com nova construção, no entanto toneladas de materiais de construção usados são simplesmente reciclados em vez de serem reutilizados. Sendo a reciclagem já um ótimo passo versus o abandono, a reutilização dos materiais tem uma menor pegada ecológica, materiais que podem ser comprados a preços baratos e vendidos com lucro para construções futuras. Este é apenas um exemplo de empreendedorismo social para Portugal, fruto de uma ideia “roubada”.

No entanto, temos de estar conscientes que transformar uma ideia num negócio de sucesso leva tempo e uma quantidade incrível de energia. Não necessita de conversas e discussões infindáveis – requer ação! Portugal: são um país esperto, talentoso e trabalhador, mas não conseguirão grandes feitos com discussões eternas. E, como dizia o meu colega Global Shaper, Miguel Santo Amaro, no seu artigo, Portugal tem de se tornar menos avesso ao risco e tentar, falhar, tentar outra vez, falhar outra vez, ou perdem todas as oportunidades em que nunca arriscaram.

Em segundo lugar, Portugal precisa de melhorar os meios de transporte. Melhorias são necessárias em todo o país, mas a maior necessidade que testemunhei até agora é na ligação Lisboa-Almada. Tendo em conta o elevado tráfego automóvel entre as zonas, tenho dificuldade em compreender a falta de boas opções ao nível dos transportes públicos. O ferry entre Cacilhas e o Cais do Sodré funciona bem, rápida e regularmente, transportando milhares de pessoas todos os dias. Em contraste, a ligação Belém-Trafaria chega a ter intervalos de uma hora entre viagens, mostrando claro espaço de melhoria. A ligação sub-ótima entre Almada e Lisboa leva a que a maioria dos residentes viaje de carro, acrescentando trânsito, custando a Portugal milhares de horas em produtividade perdida e aumentando a poluição ambiental. Vejo claras soluções em melhorar ligações de transporte para bicicletas, ou alterar as leis de transporte para que pescadores possam oferecer serviços de táxi aquático, acrescentando ainda charme adicional à cidade.

Finalmente, vejo uma enorme oportunidade em alavancar a infraestrutura e conhecimento marítimos de Portugal. Atualmente, existe uma mudança na perceção do potencial dos oceanos, com a identificação da “economia e crescimento azul” de que o meu colega Global Shaper, Rui Esteves, falava no artigo da semana passada. Setores de elevado potencial incluem aquacultura, turismo, biotecnologia marinha, energia dos oceanos e mineração de fundos marinhos. Existe uma clara oportunidade, sendo no entanto necessário seguir cuidadosamente os impactos ambientais para evitar maior nível de ameaça. O oceano não só faz parte do sangue português, como define o país. No entanto, os tempos mudaram e grande parte da indústria marinha de Portugal externalizou-se e a maioria da infraestrutura portuária está subutilizada ou não é utilizada de todo.

Trabalhando diretamente no setor de energia marinha e tendo falado com empresas associadas à economia azul em fase de arranque a operar em Portugal, acreditamos que Portugal está muito bem posicionado para ser um líder europeu no setor da economia e crescimento azul, caso assim escolha. No entanto, os concorrentes não têm estado inertes, e outros países têm avançado rapidamente, como o País de Gales que investiu recentemente 100 milhões de euros em energias renováveis no mar.

Portugal tem todos os ingredientes certos para se tornar um líder: várias instituições de renome de investigação marinha como a WavEC e o IST; um Ministério do Mar dedicado; e vontade governamental para apoiar estas atividades. É essencial criar um espaço ambiental estabelecido para fácil experimentação de equipamentos. Tendo em conta que a indústria é incipiente, necessidades e custos ainda são baixos. Tal como o Homebrew Computer Club nos anos 70 em Silicon Valley estabeleceu as bases para a Microsoft e a Apple, o setor precisa de um espaço simples com as ferramentas e suporte necessários para desenhar, criar e iterar. Portugal está posicionado perfeitamente para oferecer este espaço.

Em conclusão, sinto que Portugal está mais uma vez num ponto de viragem. Um país de liderança em desenvolvimento, fortalecido e determinado por um passado problemático. Uma capital conquistada em tempos pelos Romanos e pelos Mouros, agora dominada por tuk-tuks e turistas e onde florescem oportunidades para uma juventude com vontade. Estando em Lisboa há um ano, sinto que a cidade está a crescer e a mudar ao mesmo ritmo louco que eu. No entanto, vejo uma necessidade clara de que a liderança aborde problemas de uma maneira diferente, focando e encorajando a discussão rápida de ideias focadas em ação – e não retórica. Portugal é uma terra de oportunidades emergentes e os líderes do país devem ser proativos em plantar sementes de oportunidade para a sua juventude, ou melhor, em capacitar os seus jovens para lançar as velas e navegar na nação em movimento de Portugal.

James McCarthy-Price tem 29 anos e trabalha para a empresa australiana de energia renovável marinha Bombora Wave Power, que planeia desenvolver uma fábrica de ondas em Peniche, seguindo um protótipo no País de Gales. O objetivo de vida do James é contribuir para resolver os problemas críticos do meio ambiente no mundo. Fora do trabalho, James é um windsurfer de competição e é voluntário em organizações ambientais. James está a investigar o potencial de criar uma área partilhada de trabalho relacionada com inovação marinha de modo a atrair e apoiar empreendedorismo neste setor em Portugal. É um dos membros mais recentes do Global Shapers Lisbon hub.

O Observador associa-se aos Global Shapers Lisbon, comunidade do Fórum Económico Mundial para, semanalmente, discutir um tópico relevante da política nacional visto pelos olhos de um destes jovens líderes da sociedade portuguesa. Ao longo dos últimos meses, partilharam com os leitores a visão para o futuro do país, com base nas respetivas áreas de especialidade, como aconteceu com este artigo sobre inovação – e regressam em setembro com novos autores, temas e artigos. O artigo representa a opinião pessoal do autor enquadrada nos valores da comunidade dos Global Shapers.