A OCDE tornou público há dias o estudo “Risks That Matter” que examina as percepções das pessoas em relação aos riscos sociais e económicos e a forma como os governos têm gerido esses riscos. Este inquérito foi realizado, em 2018, a 22.000 pessoas em 21 países, incluindo Portugal. Segundo os responsáveis da OCDE o principal objetivo do estudo é “ouvir as pessoas”, para melhor se perceberem as suas preocupações e ansiedades, e também captar as suas percepções sobre as políticas sociais no presente e, em especial, antecipar as suas expectativas futuras no que concerne a essas políticas.

De entre os vários factos interessantes que o relatório revela, há dois que destaco, por se tratarem das duas únicas circunstâncias em que Portugal tem a mais elevada proporção de respostas em torno da opção concordo e concordo totalmente. Quando questionados relativamente ao seu grau de acordo com a afirmação “Muitas pessoas recebem benefícios públicos sem os merecerem”, tradução livre do original “Many people receive public benefits without deserving them”, os resultados são globalmente expressivos mas esmagadores no que a Portugal diz respeito. Quase 90% dos inquiridos concorda com a afirmação, o que coloca Portugal como o país onde este valor é mais elevado entre os 21 países analisados. A Estónia é O país onde esta percentagem foi mais baixa com valores pouco abaixo dos 50%.

Já relativamente à questão sobre se o governo deveria aumentar a carga fiscal sobre os ricos de modo a aumentar o apoio aos pobres, tradução livre da questão:  “Should the government tax the rich more than they currently do in order to support the poor”, os resultados são também esmagadores. Cerca de 80% dos portugueses inquiridos concorda com a afirmação e coloca Portugal como o país em que esta proporção é mais elevada entre todos os países analisados. Também relativamente a esta questão o país com a percentagem mais baixa de resposta em torno da opção concordo foi a Estónia com proporção de cerca de 30% de resposta em torno da opção concordo.

No também recentemente publicado ranking da Forbes sobre os mais ricos do mundo, a revista identificou 2.153 multimilionários (bilionaires na versão Forbes) no mundo. Na lista apenas consta um português: trata-se da senhora Maria Fernanda Amorim e Família, no lugar 379, com activos calculados de 4.8 mil milhões de USD. Este facto, demonstra que existe em Portugal um bilionário por cada 10,5 milhões de habitantes.

A Noruega tem 15 bilionários em 5 milhões de habitantes, o que significa que o rácio é de um bilionário por cada 330 mil habitantes. A Dinamarca tem 10bilionários, isto é 1 bilionário por 500.000 habitantes. Na Finlândia o rácio é de 1 por 900.000 habitantes. A Suíça tem 33 (1 por cada 250 mil habitantes. Até a pequena ilha de Guernsey (para onde emigraram alguns portugueses) tem um bilionário para 60 mil habitantes. As capitalistas Alemanha e EUA tem 114 e 614 bilionários respectivamente. Ou 1 por 700 mil habitantes no caso Alemão e 1 por 500 mil nos caso Americano. E a vizinha Espanha? A Espanha tem 29 bilionários. Um por cada 1.7 milhões de habitantes.

Os países mais ricos são ricos porque têm pessoas com riqueza e que trabalham para criar mais riqueza. Ao fazê-lo geram mais fontes e opções de rendimento para as populações e consequentemente permitem aos governos arrecadar mais receitas, que por sua vez, quando bem administrados, permitem melhores serviços públicos e melhor redistribuição, com almofadas sociais mais generosas.

Portugal. Um dos principais problemas de Portugal é esse. Portugal não tem ricos.

Em Portugal a grande obsessão dos políticos e da política não é acabar com os pobres. A obsessão é acabar com os ricos.

Sem ricos e sem riqueza não há fontes de rendimento atractivas para as pessoas nem receitas para o Estado. E as poucas que há, tendem a ser cobradas às classes médias e distribuídas de forma pouco transparente. Por isso não estranhem que no estudo da OCDE, Portugal seja o país em que os cidadãos têm a percepção de enorme injustiça na distribuição de benefícios públicos e considerem que taxar os ricos (que não existem) seja a solução.

Docente do IPAM