Rádio Observador

Crónica

Sete dias na selva /premium

Autor
2.031

“Os Maias” são demasiado explícitos na chacota do pardieiro em que vivemos, o que aborrece os donos do pardieiro e os leva a preferir “humanistas” como Alegre ou as senhoras da colecção “Uma Aventura"

1º dia

Em Coimbra, um par de homossexuais foi espancado por um grupo aos gritos de “paneleiros” e “pedófilos”. Quando meio mundo se preparava para execrar o crime de ódio, escrever panfletos inflamados, organizar vigílias e exigir adendas à lei, descobriu-se nas entrelinhas da notícia que os agressores eram uma família de ciganos. O assunto, pelo menos na perspectiva inicial, morreu ali. E, com o cheiro a travões ainda no ar, as boas consciências transferiram a indignação face à homofobia para a indignação face ao racismo. De repente, o problema deixou de ser os dois infelizes agredidos e tornou-se o destaque, naturalmente desajustado, que os “media” deram à “etnia” dos agressores. Sou testemunha: em mais do que um jornal, a palavra “cigano” irrompia, abusiva e zombeteira, nos fundilhos do texto, prova cabal de que o incidente apenas serviu de pretexto à calúnia de uma “comunidade” a que tanto devemos. Não é mau jornalismo, é péssimo. Claro que a identificação só se justificava se se conhecesse, na longa, nobre e progressista tradição cigana, algum vestígio de intolerância para com os gays ou, já agora, qualquer forma de vida “alternativa”. Evidentemente, não é o caso. Com a eventual excepção dos militantes do Hamas, não existe cultura tão permissiva à liberdade sexual. O povo roma (assim é que é), modelo de abertura, não discrimina nada nem ninguém. Então porque é que a tal família bateu nos tais rapazes? Porque os ciganos batem democrática e impunemente em toda a gente, ora essa.

2º dia

O ministro da Defesa afirmou não saber que parte do material roubado em Tancos ainda não foi recuperado. Revelada em todos os momentos do processo, a coerência do homem impressiona. Começou por não saber a dimensão do roubo, prosseguiu a não saber se existira roubo e agora não sabe se o produto do roubo apareceu ou não. De caminho, é provável que também não saiba o que é Tancos, a função que ele próprio desempenha no governo e o nome de baptismo. O facto de o dr. Azeredo regressar a casa todos os dias sem se perder é, no mínimo, um milagre.

3º dia

A presidente do Infarmed garantiu que a “deslocalização” (sic) da instituição é uma ameaça à saúde pública em Portugal e no mundo. Talvez haja aqui exagero, mas no que toca à saúde mental na cidade do Porto os riscos são óbvios.

4º dia

Rebentou um pequeno escândalo porque “Os Maias” deixaram de ser leitura obrigatória no liceu. Meia dúzia de pontos. Primeiro, parece que a obra é facultativa desde 2002, prova de que a indignação, embora implacável, foi decidida com vagar. Segundo, é absurdo interromper a atenção das crianças em volta das novas tecnologias (publicar fotos no Instagram e assim) para maçá-las com formas de comunicação anacrónicas. Terceiro, ao que se vê por aí, a antiga obrigatoriedade de Eça não convenceu várias gerações de portugueses a escrever bom português, ou sequer a escrever português de todo. Quarto, se a criança for normalzinha, a conotação de um livro com a escola é suficiente para dedicar-lhe o tipo de afeição que se dedica à sarna, pelo que o currículo oficial deveria limitar-se a produtos oficiais, género Mia Couto e os novíssimos romancistas caseiros. Quinto, “Os Maias” são demasiado explícitos na chacota do pardieiro em que vivemos, o que naturalmente aborrece os donos do pardieiro e os leva a preferir autores “humanistas” como Manuel Alegre, as senhoras da colecção “Uma Aventura” e aquele mãe com minúscula. Sexto, a demonstração de que o liberalismo nacional vai longe está no facto de mesmo os liberais acharem que compete ao Estado escolher as leituras, os interesses e provavelmente os sapatos dos filhos. Sétimo, os indignados que vão chatear o Camões, fingindo que o lêem.

5º dia

Se descontar o assassínio de inocentes, as simpatias estalinistas, os surtos de anti-semitismo e a facilidade com que caipiras o elevaram a santo, consigo simpatizar com Nelson Mandela. A verdade é que, no poder, podia ter aberto a temporada de vingança e decretado o puro genocídio. Não só não o fez como, salvo percalços, ajudou a manter a harmonia possível em condições impossíveis. Dito isto, não percebo a que título se enxovalha a memória do homem através de um festival comemorativo dos 100 anos do seu nascimento. A coisa, parcialmente paga pela autarquia com dinheiro subtraído ao contribuinte, decorre em Matosinhos, literalmente a dois passos de minha casa, e pretendia ser um evento musical. Por azar, apenas arranjaram o moço dos Aerosmith, o sr. Geldof (juro) e mais uns nomes que desconheço. Não preciso conhecer: aqui na sala soa tudo ao mesmo, uma vibração maligna que se propaga pelas paredes e termina nos meus tímpanos. Pelo meio, deixa-me os cães em alvoroço. O estranho é que, apesar de tamanho suplício, não fiquei a detestar Nelson Mandela. Pelo contrário, passei a compreendê-lo melhor, sobretudo a parte em justifica o terrorismo com as situações extremas, e desumanas, que o fomentam.

6º dia

Como dizia o Ricardo Araújo Pereira, meter-se na droga é de homem. Infelizmente, em Portugal nem isso. Um festival de variedades a realizar em Idanha-a-Nova vai beneficiar de um serviço de controlo dos estupefacientes que os choninhas tencionam consumir. O serviço, gratuito, estará a cargo do Estado e o festival diz-se “alternativo”. Alternativo a quê?

7º dia

Enquanto se descobria que os donativos às vítimas de Pedrógão Grande terminaram em casas de borlistas, o governo ofereceu à Suécia ajuda para combater os incêndios locais. Fez bem: no meio da tragédia, os suecos precisavam de um alívio cómico.

Não queremos ser todos iguais, pois não?

Maio de 2014, nasceu o Observador. Junho de 2019, nasceu a Rádio Observador.

Há cinco anos poucos acreditavam que era possível criar um novo jornal de qualidade em Portugal, ainda por cima só online. Foi possível. Agora chegou a vez da rádio, de novo construída em moldes que rompem com as rotinas e os hábitos estabelecidos.

Nestes anos o caminho do Observador foi feito sem compromissos. Nunca sacrificámos a procura do máximo rigor no nosso jornalismo, tal como nunca abdicámos de uma feroz independência, sem concessões. Ao mesmo tempo não fomos na onda – o Observador quis ser diferente dos outros órgãos de informação, porque não queremos ser todos iguais, nem pensar todos da mesma maneira, pois não?

Fizemos este caminho passo a passo, contando com os nossos leitores, que todos os meses são mais. E, desde há pouco mais de um ano, com os leitores que são também nossos assinantes. Cada novo passo que damos depende deles, pelo que não temos outra forma de o dizer – se é leitor do Observador, se gosta do Observador, se sente falta do Observador, se acha que o Observador é necessário para que mais ar fresco circule no espaço público da nossa democracia, então dê o pequeno passo de fazer uma assinatura.

Não custa nada – ou custa muito pouco. É só escolher a modalidade de assinaturas Premium que mais lhe convier.

Partilhe
Comente
Sugira
Proponha uma correção, sugira uma pista: observador@observador.pt
Eleições

A evaporação da democracia /premium

Alberto Gonçalves
1.472

Cantando e rindo, os portugueses marcham para o abismo e só darão por ele quando se esbardalharem lá em baixo. Ou, palpita-me, nem aí. Não seria a primeira vez.  

Crónica

Museológica da batata /premium

Tiago Dores

Somos um povo com inclinação para a filosofia, com dotes de abstracção tão bons, tão bons, que acabamos por ser mais fortes a discorrer sobre museus imaginários do que a visitar museus reais.

Crónica

O Verão /premium

Maria João Avillez

Quando as coisas “impossíveis” acontecem é como um certificado: sabemos que podem acontecer e por isso, voltar a acontecer. O desconsolo é maior que o consolo.

Política

A rentrée dos artistas /premium

Luís Reis
651

O PS oferece-nos os piores serviços públicos de sempre a troco de um crescimento anémico e da maior carga fiscal de todos os tempos. E proclama que este é o melhor dos mundos e assim devemos continuar

Crónica

Onde é que há gente no mundo? /premium

Paulo Tunhas

Abre-se um jornal ou vê-se uma televisão e só nos deparamos com doses cavalares de virtude a crédito que clama por integral satisfação e danação eterna dos que escapam à sua jurisdição.

Crónica

I love Portugal /premium

Alberto Gonçalves
2.410

Os portugueses lúcidos, coitados, padecem da esperança de que os portugueses restantes acordem para as delícias da liberdade. Sucede que para os simplórios a liberdade não é deliciosa: é uma ameaça.

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

Confirme a sua conta

Para completar o seu registo, confirme a sua conta clicando no link do email que acabámos de lhe enviar. (Pode fechar esta janela.)