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Há um par de semanas, fomos ver Os Mínimos. Na compra dos bilhetes, deram-nos umas fitas para pôr no pulso.

Um dos nossos deveres mais solenes, como mães, é aproveitar todas as oportunidades para embaraçar os nosso filhos adolescentes. É a nossa melhor dádiva para eles, depois de coisas como os abraços e o amor incondicional. Por isso, peguei numa das fitas e atei-a ao pulso, perfeitamente consciente de iria horrorizar as minhas filhas.

Depois de uns quantos dias com esta coisa feia atada ao pulso, esqueci-me dela. Enterrada em trabalho, a fazer uma proposta para um projecto que exige muita concentração, não tinha tempo para me lembrar das coisas atadas ao corpo. A fita dos Mínimos tornou-se uma parte de mim.

Até há uns dias atrás, quando fui tentei ver se as chaves da casa estavam na mala, e a fita ficou presa num fecho qualquer, sem meio de me desembaraçar. Naquele momento, dei-me conta de que não só tinha uma fita atada ao pulso, mas que a minha mala grande e sempre cheia de tralhas estava também, por meio da fita, inextricavelmente ligada ao meu braço esquerdo.

Tentei arrancá-la, parti-la, mas a fibra de nylon, ou seja o que for o material que usam para as fitas dos Mínimos hoje em dia, era demasiado forte para uma mera mão humana, e o nó estava já apertado demais para o desatar. Estava assim a hesitar entre voltar a casa para ir buscar uma tesoura ou passar o resto da minha vida com uma mala ligada permanentemente ao meu corpo, quando apareceu a minha filha. Ela ajudou-me a desenganchar a fita do fecho da mala, enquanto me lembrava que não devemos cortar fitas, porque dá azar. Temos de esperar até que apodreçam e caiam por si.

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Meu deus, tinha-me esquecido da superstição das fitas! É o nosso dever mais solene, como seres humanos, lutar contra superstição, e não ceder ao medo que nos causam. Deem-me uma escada, e farei questão de passar por debaixo dela. Deem-me um guarda-chuva, e hei-de abri-lo dentro de casa. Deem-me mãos para cumprimentar ou copos para fazer saúdes, e estar-me-ei nas tintas se por acaso cruzar a mão ou o copo com outras mãos ou outros copos (toda a gente se irrita muito comigo quando faço isso). Digam-me “se Deus quiser” como resposta a um simples “até amanhã”, e fico logo tentada a dar-vos uma palestra sobre a estupidez de tudo isso.

Gozo muito com uma amiga (em todas as outras coisas, inteligente e sabida) quando ela levanta a minha mala do chão e a coloca numa cadeira, para que “o dinheiro não caia da mala” (metafisicamente falando). Faço sempre questão de agarrar na mala e de a devolver diretamente ao chão, só para a chatear. Ela também tem uma fita no pulso há mais de um ano, e que não se arrisca a cortar.

Irrito-me quando alguém me diz seriamente “ah, mas não faça isso, dá azar!” Porque o facto é que não dá azar nenhum. O universo tem muito mais com que se preocupar do que dar-me azar só porque um gato preto passou ou não passou (dependente do sítio geográfico) em frente de mim.

É tudo uma loucura, com que arranjamos mais um bicho-papão, quando o mundo real, mesmo sem superstições, já tem coisas suficientes para nos meter medo.

Ao chegar a casa nesse dia, fui logo procurar uma tesoura para cortar a fita dos Mínimos, mas, de repente, lembrei-me que no dia anterior tinha ganho a proposta para o tal projecto, e que mais umas quantas coisas boas me tinham acontecido desde que uso a fita, aliás já muito descolorida.

Cedi ao bicho-papão. A fita permanece no meu pulso esquerdo. E provavelmente ainda lá estará daqui a um ano, se Deus quiser.

(texto traduzido do original inglês pela autora)

Superstitious, moi?

We went to see the Minions film a few weeks ago. On buying the tickets, the cashier handed my kid a handful of little Minions ribbons to put on our wrists.

It is our most solemn duty as mothers to be embarrassing to our teenagers at all times. It is the greatest gift we can give them, apart from the cuddles and unconditional love stuff. I took a ribbon and put it on my wrist, knowing that the girls would be horrified.

I went round for a few days with the horrible nylon thing tied to my wrist until I started to forget about it. I’ve been buried in some work, pitching for a project, the kind that requires a lot of concentration and make you forget that you have things tied to you. The Minion ribbon became part of my furniture, and I forgot it was there.

Until the other day when I reached into my handbag to make sure I had my keys as I left the front door, and the ribbon got caught on a zip on the inside of my bag and there was no shifting it. Now, not only did I have a ribbon tied to me, but my ridiculously and permanently heavy handbag full of rubbish and gadgets was inextricably connected to my left arm.

I tried to just pull it off, to break it, but nylon fibre, or whatever Minions ribbons are made of these days, is, of course, too strong to be broken by mere human hand, and the knot was untiable. I was weighing up whether to go back up the stairs to find some scissors or to just spend the rest of my life with a handbag appendage, when my kid appeared and helped me to unhook the ribbon as she reminded me that you mustn’t cut ribbons off, it’s bad luck, you have to wait until they rot away.

Oh god, I’d forgotten about that. Superstition. It is our most solemn duty as human beings to stand up to superstitions and not give in to the fear they instil in us. Give me a ladder and I will walk under it. Give me an umbrella and I will open it indoors. Give me hands to shake or glasses to clink and I will not care one jot if we cross paths with other people. People get really upset about that one. Say “god willing” to me as a response to an innocently given “see you tomorrow” and I will be tempted to give you a lecture on how silly you are.

I laugh at my otherwise clever and wise friend every time she grabs my handbag from the floor and puts it on a chair so that the “money doesn’t fall out” (metaphysically, that is). I then put my bag straight back on the floor, just to wind her up. She also has a little ribbon on her wrist, that has been there for over a year and she just cannot bring herself to take it off.

I get antsy if anyone says to me, in all seriousness, “oh, you mustn’t do that, it’ll give you bad luck.” Because it won’t. The universe has plenty of other stuff to be worrying about other than giving me bad luck because a black cat did or didn’t walk in front of me (depending on geographical location).

It’s all madness, giving ourselves another bogeyman to worry about when there are enough real things in the real world to screw with us.

When I got home later that day, I went to find a pair of scissors to cut the Minions ribbon off, but just as I was about to cut it, I remembered that, the day before, I had won that pitch for the big project I desperately wanted, and a few other good things that have happened while I have been wearing the now grubby ribbon.

And I gave in to the bogeyman. The ribbon is still there, on my left wrist. And it will probably still be there in a year’s time, god willing.