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Quando os Estados Unidos entraram em colapso, a culpa foi de Trump. Quando foi a vez do Brasil, a culpa foi de Bolsonaro. Quando o Reino Unido colapsou, apontaram armas a Boris Johnson. Por cá, o colapso é cada vez mais evidente, mas a culpa é dos portugueses.

Tenho lido textos bonitos sobre a culpa ser nossa. Temos, todos, também culpa. Mas a culpa não é  “nossa”, porque é mais de uns do que de outros, assim dita a democracia. Se em crise não se procuram culpados, em tempos de guerra não se limpam armas. A questão é que estamos em guerra, e vamos estar, e já não temos armas. E por isso há que encontrar culpados. Não para, infantilmente, procurar estrelatos, sensacionalismo, bodes expiatórios ou, na loucura, (legítimas) mudanças de Governo. Mas porque precisamos de liderança. Os portugueses têm culpa? Têm, a sua parte. Mas os portugueses elegeram e legitimaram um grupo de pessoas para os guiar. E se estamos à deriva, é por ausência de bússola.

Já andei por África, foi lá que vi pela primeira vez morrerem pessoas por falta de oxigénio. Na altura, chocava-me que no hospital onde estudava, o oxigénio saísse ilimitadamente na parede e em Bissau tivéssemos que gerir botijas que só recebíamos ao domingo. Foi, até então, a mais dura experiência de terreno.

Anos mais tarde, a vida associativa levou-me à OMS, em Genebra, e à ONU, em Nova Iorque. Fiquei a conhecer os meandros da política em saúde, o backstage das negociações em saúde pública. Na altura, o mundo batia-se contra o ébola. Foi, até então, a mais dura experiência atrás das cortinas do terreno.

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Já médico, acabei em Ovar, desdobrando-me entre a dureza do terreno e a dureza do por trás das cortinas. Aquele pequeno município, a meia hora de casa, e no início da epidemia, foi o primeiro a bater-se à séria com a dureza que se avizinhava para todos. Um post do Presidente da Câmara a pedir voluntários (e o meu hospital ter-me dispensado de funções, veja-se lá) fez-me pegar na pasta e descer a A1. Só voltei dois meses depois, e de lá, mais do que de um hospital de campanha a ventilar ou transfundir doentes onde semanas antes se jogava basquete, voltei com saudade de um grupo que, sem obrigação (política) alguma, arregaçou mangas e fez tudo o que pode, com o pouco que se sabia e o nada que se tinha, em prol de quem sofria.

Quem me conhece sabe que fui estudante de Medicina a “ter a faculdade como última prioridade, mas a coisa mais importante de todas”. Num misto de ingenuidade e infantilidade, a verdade é que o que me movia era dar-me a pessoas, não a livros.

Mas 10 anos depois de entrar na faculdade, fui destacado para uma enfermaria Covid num hospital distrital do Porto, onde estou a fazer um internato que pouco deveria ter de semelhante com o que é a minha realidade diária. E se descrevo o meu percurso até aqui, é para deixar claro uma coisa muito simples: como médico tenho a quarta classe. Não sou internista, não sou anestesiologista, não sou intensivista.

Mas no próximo turno nocturno que fizer, serei apenas eu e um especialista de residência para 140 doentes Covid no meu hospital. Não me lembro do último dia sem óbitos. Recebo doentes vindos da central de Lisboa, que dizem que lhes deram mantas que nem aos cães dariam. Não faço um turno sem que alguém seja transferido para intensivos.

Na rua, vejo um confinamento desconfinado. Vejo um Governo que espera duas semanas para anunciar medidas. Vejo hospitais privados que não são chamados. Vejo hospitais de campanha que não abrem. Vejo vacinas que não chegam. Vejo um milhão e 600 mil alunos a terem aulas presenciais (com os transportes públicos a reduzirem carreiras). Vejo os cafés todos a servirem com uma mesa a porta (com dezenas amontados à porta). Vejo os hipermercados abertos (com o pequeno comércio fechado). Vejo as marginais e os parques cheios (com os corpos policiais sem saberem como intervir). Vejo trânsito de manhã (com regras de viagem diferentes a cada dia). Vejo eleições presidenciais agendadas (com uma taxa de transmissão que dita 200 mil infectados entre o último debate e o dia de votação). Vejo um ministro dizer que esta vaga foi preparada (com os hospitais num estado que não consigo descrever). Vejo um Presidente assumir culpas (com uma ausência de moral que não consigo descrever).

Também estou cansado. Também tenho a cara marcada. Também choro. E nem a quarta classe tenho. Imaginem os doutores do Terreiro do Paço.

Criou-se este conceito de que alguns estão “na linha da frente”. Mas se todos estamos cansados, se todos desesperamos, se todos perdemos, se todos sofremos, todos estamos na linha da frente! Porque controlar isto depende de todos e de cada um de nós.

Se publico uma andorinha, sinal de esperança, e não uma selfie depois de ver doentes, sinal de exaustão, é porque a palavra de ordem é essa: esperança! Mas uma esperança comprometida em acção: “Sejam pacientes para não se tornarem no paciente”. É mesmo isto.

Covid é a palavra mais unificadora e conflituosa do ano. Oscar Wilde dizia-nos, “quando chover, procura o arco-íris; e quando estiver escuro, procura as estrelas”. Quero recordar a capacidade de esforço comum do povo português com a crise de 2008, o euro de 2016, os incêndios de 2017… e, pasmem, o confinamento de 2020! Quero recordar, que sempre que foi preciso, soubemos levar a melhor sem precisar que a lei nos ditasse o bom senso! E quero esquecer a capacidade de desinformação e mentira, de negação, de desunião, de desresponsabilização,… afinal de contas, temos mil anos de História!

Também eu, no início, fui céptico. Cheguei a escrever e a dizer muitos disparates sobre isto. A ignorância e a liberdade juntas têm este risco, de disseminar disparates. Não só têm tempo de antena nas redes sociais (e nos media), como são elegíveis para a Presidência nos tempos que correm.

Mas a humildade permite-nos reconhecer o erro e tentar fazer melhor.

As últimas semanas foram um erro e podemos fazer melhor. Tirei um dia para escrever estas palavras: quase 11 mil pessoas foram infectadas e mais de 150 morreram no entretanto. Como assim, não conseguimos fazer melhor?

Alguém dizia “nothing in life is to be feared, it is only to be understood. Now is the time to understand more, so that we may fear less.” Leiam, estudem, perguntem, debatam… e ajam. Só assim controlaremos o medo.

Amanhã, às 8, eu e tantos heróis, estaremos no hospital. A si só lhe peço: faça a sua parte, seja ela qual for!