Tem acesso livre a todos os artigos do Observador por ser nosso assinante.

Os últimos dias foram ricos em notícias sobre futebol. Não tanto nas quatro linhas, mas fora delas. Aliás, já nos vamos habituando a compensar alguma mediocridade nos últimos anos das nossas equipas nacionais – as recentes performances nas competições europeias são prova disso – com as polémicas que tanto gostamos e que alimentam os órgãos de comunicação social. Comecemos pelas insinuações de Frederico Varandas após o jogo Sporting – FC Porto, onde o árbitro reverteu a marcação de um penálti a favor do clube de Alvalade, após consulta do VAR. Segundo o presidente leonino, o mesmo lance nunca seria revertido no Dragão ou na Luz.

Coloquemos as palavras no sítio certo: o futebol português é um cancro. Porquê? Porque Varandas poderá ter alguma razão de queixa do Benfica e do FC Porto, como o Vitória de Guimarães terá queixas do Sporting, e o Rio Ave, ou o Portimonense, se queixarão do SC Braga ou de qualquer um dos “grandes”. As arbitragens – e não só, infelizmente – em Portugal revelam uma parcialidade atroz. No entanto, numa perspetiva mais abrangente, o Sporting terá poucas razões para se lamentar, tal como qualquer um dos outros “grandes”. Entre benefícios e prejuízos, o saldo será sempre positivo para os três maiores clubes nacionais.

A tendência das arbitragens acompanha o poder dos clubes. Existe uma pressão constante, tanto ensurdecedora como em surdina – esta última, ainda mais preocupante. Esta pressão manifesta-se nas capas dos jornais, nos programas desportivos, na promiscuidade entre os poderes políticos e o futebol, na tolerância manifestada pela população em geral perante evidentes casos de conflitos de interesses. Toleramos porque, quando o tema é futebol, manifestamos o mais mesquinho e deplorável que a sociedade tem. Remetemo-nos a um país do terceiro mundo onde a liberdade e a transparência ainda são meras utopias e onde os poderes estão instalados e são dificilmente quebráveis.

Patrocinamos, admiramos e até bajulamos agentes desportivos com fortes suspeitas – tive o cuidado de manter a palavra “suspeitas” – de corrupção e largos tentáculos nas instituições relevantes. “Um bandido será sempre um bandido” fez capa dos jornais, enquanto um presidente indiciado por vários crimes foi reconduzido no cargo com mais de 60% dos votos. A permanência de determinados dirigentes no poder alimenta o sistema atual que corrói o que resta de credibilidade do futebol português e deturpa qualquer desejo de meritocracia e de transparência.

PUB • CONTINUE A LER A SEGUIR

Somos complacentes com esta podridão, desde que o nosso clube seja mais beneficiado do que os outros, ou que vença mais. Por muito profissionais que sejam alguns árbitros, colocando de parte os menos competentes e casos de justiça, inconscientemente tornam-se vulneráveis perante o poderio de um “grande” clube, as ameaças constantes, uma pressão desmesurada. Até ver, não são robôs, pelo que é impossível que sejam sempre imunes a um contexto tão agressivo e evasivo. Os dirigentes sabem disso, pelo que o objetivo de cada um é claro: pressionar mais, de forma mais insistente e consistente, do que os outros dirigentes. Deste modo, este cancro alastra-se por todos os clubes e agentes desportivos, como meio de sobrevivência.

A minha solidariedade vai, portanto, para quem ainda tenta “jogar limpo”, sobretudo clubes pequenos, aqueles que não têm tempo de antena, aqueles que são irrelevantes para a comunicação social, aqueles que são atropelados diariamente sem sequer perceberem de onde. Aqueles que, por muito bem que trabalhem, dificilmente chegarão à Primeira Liga ou próximo de um dos grandes. Aqueles que, quando perdem as suas últimas forças de tanto lutar contra o sistema, optam por uma de duas vias: desistem, mantendo a sua dignidade, ou conformam-se, são cúmplices e, por vezes, até adotam uma postura semelhante, procurando chegar ao topo. Para estes, o campo estará sempre inclinado. Assim se alimentam – e nós alimentamos – as células deste cancro.