Vale a pena ler o livro escrito por Carlos Moedas, “Liderar com as pessoas”. Vale pela história pessoal, contada com uma franqueza pouco comum na sociedade portuguesa. Vale pela clarificação das suas iniciativas, propósitos e ambição para Lisboa. Vale pelo relato dos inevitáveis conflitos, das polémicas, das pedras no caminho, mas também pela ilustração do impacto concreto que a administração autárquica permite. Vale pelo posicionamento político que afirma, simultaneamente equilibrado e firme. Vale a pena ler o livro, não por ser o balanço de uma carreira, nem um retrato onde tudo parece bem resolvido ou fácil, mas exatamente por ser um exercício em movimento e uma reflexão aberta sobre uma certa forma de estar na vida pública.

A parte do percurso pessoal é interessante por que não é óbvia, e tem a graça de não ser laudatória. Carlos Moedas assume-se como um improvável, alguém que sempre teve de trabalhar mais que os outros, ser mais persistente que os outros, arriscar mais que os outros, para conseguir fazer o seu caminho. De Beja ao Instituto Superior Técnico, da engenharia em França ao mundo da gestão em Harvard, da experiência corporativa à política, da troika a Bruxelas, de governante de gabinete a líder autarca eleito: há aqui uma capacidade demonstrada para obter resultados, para evoluir a cada etapa, para criar pontes e construir laços de confiança junto de públicos distintos. Curiosamente, apesar das efetivas realizações, continua a ser por vezes subestimado, uma característica que não o tem impedido de nada, e talvez continue a revelar-se uma vantagem prática.

O núcleo central do livro é, obviamente, sobre a gestão da cidade de Lisboa. A grande vitória política e o enorme desafio que tem em mãos. Aí Carlos Moedas discorre sobre a sua visão, assente num triângulo de prioridades que não se cansa de explicar e detalhar, e que confere sentido à ação executiva: fomento da inovação – apoio aos mais vulneráveis – aposta na cultura.

Cada um dos três eixos tem múltiplas linhas de desenvolvimento. Os temas da tecnologia e ciência têm avançado a alta velocidade, desde a Fábrica dos Unicórnios ao Hub do Mar, contribuindo para um conceito de cidade que acolhe as melhores competências locais e internacionais, e convive bem com a iniciativa e o investimento privado. Mas o foco na inovação não se prende apenas com as áreas do empreendorismo, assenta também no esforço para modernizar a própria administração do município, através da agilização dos processos urbanísticos, da digitalização para combater a burocracia e do reforço dos mecanismos de transparência. O segundo elemento decisivo desta gestão tem sido uma consistente preocupação com os mais desfavorecidos, resultando no desenvolvimento de um verdadeiro Estado social local, com intervenções robustas nas áreas da saúde (Plano 65+), nos transportes públicos (gratuitidade aos mais novos e mais velhos), na concretização de vastos programas de habitação social, nos apoios ao sem-abrigo. E o terceiro vetor é a vontade de colocar a cultura no centro da ação política: valorizando os museus e equipamentos em cada bairro, sublinhando a relevância do talento, da programação artística e das indústrias criativas, apostando na internacionalização das nossas produções, e ainda assumindo o compromisso para com o setor dos conteúdos e média – sublinhando o seu papel decisivo para uma cidade livre, vibrante, plural.

Publicar um livro de prestação de contas e desenvolvimento de visão estratégica é uma prática saudável, aliás seguida por líderes internacionais referidos nesta obra: o enérgico Presidente Macron (autor do prefácio), Pete Buttigieg (ex mayor e atual Secretário de Estado americano das infraestruturas), Rahm Emanuel (ex mayor de Chicago e autor de “The nation city”). Carlos Moedas integra-se nesta linha de políticos dos tempos atuais: ativos na esfera executiva, mas interessados na produção de ideias. E na essência sobressai deste livro o perfil de um fazedor moderado: um governante focado em soluções concretas para as pessoas e empenhado em gerar impacto.

Gonçalo Reis

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