Caso Vistos Gold

Um voto para 2019

Autor
  • Rita Fontoura
141

No nosso País um canalha cuja intenção não se possa provar é uma vítima do Ministério Público e do julgamento público e, coitado, deixa de poder fazer canalhices no lugar que ocupava

Começamos o ano com a notícia do julgamento do caso Vistos Gold em que um ex-ministro e outros senhores com cargos importantes estavam envolvidos. Estou de facto saturada de ouvir a mesma notícia, dita da mesma maneira, seja qual for o meio de comunicação social que escolha. Neste caso, em tudo o que li e ouvi a relevância foi dada à absolvição do ex-ministro, ao falhanço do Ministério Público (MP) e à adjectivação de “canalhices” usada pelo ilustre político acusado, para classificar o que lhe aconteceu.

Do meu ponto de vista, para além da notícia, que deve ser relatada como um facto que ocorreu, tudo o que já não é facto e que remete para o domínio da opinião, revela a pobreza de valores com que hoje se tratam as situações da vida do nosso País.

Os principais julgados que foram absolvidos total ou parcialmente, na opinião do Juiz, agiram de forma incorrecta do ponto de vista moral. Usando a linguagem de um deles, posso concluir que foram “canalhas” mas não se conseguiu provar que tivessem intenção de ser canalhas. No nosso País um canalha cuja intenção não se possa provar é uma vítima do MP e do julgamento público e, coitado, deixa de poder fazer canalhices no lugar que ocupava ficando apenas com o domínio da actividade privada para as suas canalhices.

Este modelo de procedimento é ainda mais grave quando não existem tribunais envolvidos porque nesses casos nem o lugar que ocupam é posto em causa. Por exemplo um deputado que faz a canalhice de receber subsídios duplicados a que não devia ter direito, mantém a confiança do seu partido e o seu lugar no parlamento. O que muda é a forma como se passará a atribuir subsídios para que seja talvez mais difícil ser-se canalha no parlamento.

Outro exemplo (há tantos que o difícil é escolher) é a canalhice de fingir que se vai ao Parlamento para ganhar o valor da presença. Para esta acção são precisos dois canalhas: o que falta e o que regista a presença. Nos casos já conhecidos ambos mantém a confiança dos seus partidos e portanto continuam a exercer as suas funções. A consequência deste procedimento será uma eventual maior fiscalização do registo dos deputados que custará mais dinheiro público e que servirá apenas para pôr as mesmas pessoas a pensar na maneira de ludibriar o novo método e assim manter a canalhice.

Quando os princípios e a ética deixam de ser critério, as actividades nas esferas do poder enchem-se de canalhas. São eles que fazem as leis, que escolhem os decisores, que aplicam ideologias perversas, que afastam quem faz o bem, que se impõem sobre a livre iniciativa.

Normalmente nestes casos o percurso é progressivo até chegar à fase do descaramento. Pelo caminho fica a apatia de um povo. Aumenta o afastamento da política, o desânimo, e alastra a canalhice a toda a sociedade. É assim que vai o nosso Portugal.

Que 2019 possa ser o ano em que saibamos abrir os olhos e lutar por uma sociedade onde a honra, a seriedade, a procura do bem comum e a verdade voltem a ser padrões que nos guiem. Ainda vamos a tempo.

Agora que entramos em 2019...

...é bom ter presente o importante que este ano pode ser. E quando vivemos tempos novos e confusos sentimos mais a importância de uma informação que marca a diferença – uma diferença que o Observador tem vindo a fazer há quase cinco anos. Maio de 2014 foi ainda ontem, mas já parece imenso tempo, como todos os dias nos fazem sentir todos os que já são parte da nossa imensa comunidade de leitores. Não fazemos jornalismo para sermos apenas mais um órgão de informação. Não valeria a pena. Fazemos para informar com sentido crítico, relatar mas também explicar, ser útil mas também ser incómodo, ser os primeiros a noticiar mas sobretudo ser os mais exigentes a escrutinar todos os poderes, sem excepção e sem medo. Este jornalismo só é sustentável se contarmos com o apoio dos nossos leitores, pois tem um preço, que é também o preço da liberdade – a sua liberdade de se informar de forma plural e de poder pensar pela sua cabeça.

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