O coração humano é um órgão intrigante e magnífico. Considerado durante séculos como a sede dos sentimentos e emoções, cabe-lhe a missão colossal de garantir o fornecimento de sangue, que transporta oxigénio e nutrientes, para todos os órgãos do corpo. De facto, o coração saudável é incansável e a maioria das pessoas provavelmente nunca tomou consciência de que este órgão central da nossa existência se contrai cerca de cem mil vezes por dia, quarenta e dois milhões de vezes por ano e mais três mil e trezentos milhões ao longo de oitenta anos de vida.

Não é por isso surpreendente que seja uma estrutura complexa, com uma regulação fina e sensível que lhe permite adaptar-se às exigências e variações constantes das necessidades do organismo.

No que respeita à estrutura, o coração é uma bomba muscular que, alternadamente, se contrai para ejetar sangue através da artéria aorta para os vários órgãos do organismo e se relaxa de modo a permitir o enchimento das cavidades cardíacas com o sangue necessário para a contração seguinte.

Para manter esta atividade, o coração é, ele próprio, alimentado por sangue que lhe chega através das artérias coronárias. O coração tem quatro cavidades separadas entre si por paredes e por quatro válvulas que são responsáveis por garantir que o sangue circula no sentido correto. Para uma válvula funcionar adequadamente deverá abrir livremente para deixar passar o sangue e fechar eficazmente para evitar que o sangue recue e circule em sentido contrário ao habitual.

Qualquer uma das estruturas do coração ou dos vasos sanguíneos a ele associados pode ter alterações e provocar doenças. São disso exemplo, as doenças das artérias coronárias – como é o caso da aterosclerose – que são responsáveis pela angina de peito, uma dor em aperto que pode irradiar para o braço esquerdo, pescoço ou estômago, quando existe um estreitamento de uma ou mais dessas artérias, ou pelo enfarte do miocárdio, vulgarmente conhecido por ataque cardíaco, quando uma dessas artérias fica totalmente bloqueada.

Outro exemplo, são as doenças das válvulas cardíacas, que podem estar alteradas por aperto (estenose) ou encerramento deficiente (insuficiência), sendo que, entre estas, as mais frequentes são a estenose da válvula aórtica, a insuficiência da válvula mitral e a insuficiência da válvula aórtica.

No que respeita à artéria aorta, a dilatação (aneurisma) e a rotura (disseção) são as doenças que mais frequentemente a afetam.

Relativamente às doenças do músculo cardíaco, estas incluem, além da cardiomiopatia hipertrófica – crescimento e espessamento exagerado das paredes do coração – e da cardiomiopatia dilatada, todas as patologias que ao agredirem o coração possam levar a insuficiência cardíaca.

Embora graves, grande parte destas doenças têm hoje felizmente tratamento, que passa muitas vezes pela realização de uma cirurgia. Apesar das cirurgias cardíacas serem intervenções complexas, realizam-se presentemente com grande segurança e, na grande maioria dos casos, com risco reduzido para o doente. São disso exemplo as cirurgias de bypass coronário, a reparação ou a substituição de válvulas cardíacas, a correção de aneurismas da aorta e a remoção de tumores cardíacos, entre outros.

De facto, a evolução tecnológica e o aperfeiçoamento das técnicas cirúrgicas levaram, para benefício do doente, a uma evolução muito significativa da cirurgia cardíaca, que permite, nos dias de hoje, a sua realização através de procedimentos menos invasivos, muito seguros e alicerçados em instalações e equipamentos sofisticados e tecnologicamente avançados.

Esta evolução incrível garante uma grande segurança, riscos controlados e recuperação muito mais rápida do doente. Efetivamente, a grande maioria dos doentes permanece no hospital menos de uma semana após a cirurgia e retorna à vida ativa sem restrições pouco mais de um mês após a alta hospitalar.

Os dados existentes demonstram que a cirurgia é uma das modalidades terapêuticas mais seguras e que mais garantias fornece de retorno a um estilo e a uma qualidade de vida totalmente normais, para além de uma restituição de longevidade também normal. Tal é verdade, mesmo em doentes com 80 a 90 anos, que constituem atualmente cerca de 1/3 dos doentes operados.

Caso tenha uma doença cardíaca passível de tratamento cirúrgico é fundamental procurar uma equipa diferenciada capaz de discutir e decidir a melhor intervenção para cada caso.

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