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Inovação

Web Summit e provincianismo: a inovação da vizinha é melhor que a minha

Autor
  • Fernando Pinto Santos
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Porque é a investigação académica tão desconsiderada em Portugal? Talvez porque moldes ou toalhas não sejam tão glamorosos como uma app com um nome estrangeiro numa conferência com o nome de Summit.

Temos assistido recentemente a um empenho inexcedível em garantir a realização da Web Summit em Lisboa. Para além dos 110 milhões de euros de dinheiro público, que prontamente foram garantidos aos organizadores do evento, há também um tratamento de exceção com o secretismo à volta do acordo estabelecido com a Câmara de Lisboa. Mais, o Presidente da Câmara anda numa roda viva para garantir que a Web Summit terá o espaço acordado para o evento, algo que implica gastar uns bons milhões no alargamento da FIL. Afinal de contas, sem a Web Summit como é que algum dia iríamos criar inovação?

A ideia de que a inovação é sobretudo criada por startups e que são as empresas que, arrojadamente, desenvolvem novas tecnologias é por vezes apresentada como uma verdade quase indiscutível. O iPhone, por exemplo, com certeza o epítoma do progresso tecnológico moderno, é considerado como uma das mais brilhantes criações da Apple. Contudo, convém não esquecer que a tecnologia base dos iPhones não foi criada pela empresa, mas sim por investigação desenvolvida em universidades e centros de pesquisa: touch screens, GPS, processadores extra pequenos, baterias de lítio, chips de memória, são apenas alguns exemplos.

A tecnologia das baterias da Tesla? Criada por investigação financiada pelo Departamento de Energia dos Estados Unidos. O algoritmo do motor de pesquisa da Google? Criado a partir de investigação desenvolvida na Universidade de Stanford. A lista de exemplos é quase interminável.

A ascensão dos Estados Unidos como uma potência tecnológica deu-se após a II guerra mundial, com a aposta em investigação académica, que está frequentemente na origem de inovações tecnológicas. O sucesso de Silicon Valley, por exemplo, explica-se em parte pela investigação desenvolvida em universidades da região, que têm como uma das suas missões transferir tecnologia para a indústria local.

Felizmente, a ligação entre universidades e empresas não é nada de novo em Portugal. O que é de lamentar é que o apoio à investigação e a esta ligação continue, aparentemente, sem ser estratégico para os nossos governantes. Deixo aqui só um par de exemplos de sucesso na transferência de conhecimento académico. A Mundotêxtil, de Caldas de Vizela, desenvolveu recentemente uma toalha superabsorvente em parceria com a Universidade do Minho. Esta toalha seca muito rapidamente porque o tecido absorve a água do corpo, enquanto também repele a água da toalha. A empresa exporta 98% da sua produção e faturou 40 milhões de euros no último ano. A Famolde, empresa da Marinha Grande, desenvolveu em parceria com a Universidade de Coimbra, tecnologia que permite melhorar a produção de componentes metálicos, criando uma vantagem competitiva no sector dos moldes. A Universidade de Aveiro tem sido também muito ativa na contribuição para este sector. Curiosamente, Portugal é o 3º produtor de moldes da Europa.

Claro que moldes ou toalhas não serão tão glamorosos como uma app com um nome estrangeiro numa conferência com o nome de Summit. Por isso, às vezes fica a sensação de que existe um certo provincianismo associado a um deslumbramento com o que vem de fora, mas um esquecimento relativo a tudo o que está a ser bem feito cá dentro.

Porque é a investigação académica tão desconsiderada em Portugal? Existem 11 milhões de euros por ano, nos próximos 10 anos, para oferecer à Web Summit, mas não existem os 7 milhões de euros necessários para finalmente organizar a carreira de investigação científica em Portugal? Os investigadores nacionais só estão à espera disto desde 1999… Parece que a inovação dos outros (encapsulada em algumas startups, apps e summits) é melhor que a nossa (nas universidades e centros de pesquisa nacionais) mas a verdade é que só parece ser melhor tratada pelos responsáveis políticos.  Na realidade, precisamos tanto de um ecossistema empresarial dinâmico, que cria valor e arrisca com uma ambição global, como precisamos de investigação de qualidade, que crie novo conhecimento e os alicerces de inovações, e de vantagens competitivas.

Haja dinheiro para Web Summits e outros eventos relacionados com o empreendedorismo. Não poderia estar mais de acordo. Mas seria fundamental, pelo menos um bocadinho de empenho dos nossos governantes no apoio à investigação desenvolvida nas universidades. Só assim conseguiremos ser inovadores, a longo prazo, e de uma forma sustentada.

Docente do IPAM e membro da letsthink.global 

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