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Amor

Desaparecer é a maneira mais fácil de terminar uma relação?

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O fenómeno não é recente, mas só agora dá que falar. "Ghosting" acontece quando alguém numa relação desaparece do nada, sem deixar rasto, tal como aconteceu com Charlize Theron e Sean Penn.

Foi preciso que o casal de atores se separasse para que a imprensa começasse a discutir o conceito de "ghosting".

Clemens Bilan/Getty Images

A 24 de dezembro, o avô de Susana* saiu de casa para ir à bomba comprar cigarros. Saiu para nunca mais voltar, sem qualquer motivo aparente ou discussão que o pudesse prever. Para trás ficou uma mesa recheada de comida, mas também uma mulher e duas filhas, de 19 e 23 anos, com interrogações várias e um sentimento de incredulidade. Já lá vão 33 anos — mais tarde, a família descobriu que o senhor tinha uma segunda família.

A história de ir “comprar cigarros e não voltar” é do senso comum e remete para uma realidade com a qual é difícil de lidar, quando um membro de uma relação opta por cortar todos os laços com o parceiro/a, o qual é invadido por uma insegurança latente que se cola às perguntas sem resposta. Foi assim que terminou a célebre relação protagonizada pelos atores Charlize Theron e Sean Penn, quando ela deixou de lhe responder às mensagens ou de atender os telefonemas.

E é assim que terminam tantas outras histórias mais ou menos curtas, com o silêncio a fazer de arma de arremesso e uma das pessoas a transformar-se num fantasma que desaparece sem deixar rasto ou justificação. Parece mentira que tal aconteça, mas a verdade é que o fenómeno não é recente, apenas ganhou um novo nome — ghosting (o que em português remete para fantasma), segundo a imprensa norte-americana.

Ghosting: o que é isso?

“Conheço inúmeros casos, mas não conhecia o termo”, começa por dizer Cláudia Morais ao Observador. A psicóloga assegura que o fenómeno sempre existiu, ainda que as redes sociais tenham contribuído para facilitar este tipo de comportamento. Porque, agora, é mais fácil “desamigar” ou bloquear alguém e porque isso permite evitar o confronto de algumas situações menos agradáveis, como terminar com alguém.

Segundo a mesma profissional, as redes sociais acabam também por transmitir a ideia de que há muitas pessoas disponíveis, o que antes não acontecia — “Há uns anos era confrontada com adultos angustiados por não existirem pessoas novas”. É, pois, possível pressupor que a instantaneidade da comunicação veio alterar as nossas vidas amorosas.

A também psicóloga Débora Água-Doce, por seu turno, apressa-se a contar uma história que chegou ao seu consultório: “Recordo-me de uma jovem de 23 anos que tinha conhecido um rapaz pela internet. Começaram a falar e, passados poucos dias, já se encontravam. Estes encontros duraram aproximadamente um mês. Houve um dia em que ele não respondeu à mensagem de bom dia. Nem à de boa tarde, nem aos telefonemas… passaram dias e esta jovem ficou desesperada. Como é que se pode desaparecer assim da vida de alguém?”

Foi mais ou menos isso o que aconteceu a Pedro*. Com apenas 19 anos, o jovem portuense viu-se confrontado com o silêncio do parceiro de alguns meses que, de um momento para o outro, deixou de lhe falar. “Então, gostaste da noite? Está tudo bem contigo?” foi a última mensagem despreocupada que enviou ao companheiro, o qual passou a ignorar todas as formas de comunicação do outro lado. Pedro insistiu via telemóvel, ponderou ir bater à porta de casa do agora ex-namorado e chegou a ligar de um número desconhecido — a chamada foi atendida e, de imediato, desligada.

“Esta pessoa bloqueou o meu contacto em todo lado e em todas as redes sociais. E nem houve uma grande discussão ou desentendimento”, conta Pedro ao Observador. “Nestas alturas sentimos vontade de arranjar mil e uma estratégias para dar de caras com aquela pessoa, para a questionar. É que um dia mostram que gostam, no outro esquecem que existimos.”

Porquê ser-se uma pessoa “fantasma”?

Mas o que leva, então, uma pessoa a afastar-se radicalmente de outra? É João* quem responde a isso, ainda que um pouco hesitante. “No meu caso, não aconteceu numa relação séria. Foram coisas mais temporárias, mais espontâneas, em que uma pessoa se pode permitir a fazer isso”, explica o empreendedor de 24 anos. Os casos de que fala remetem sobretudo para pessoas que conheceu na noite, com quem chegou a estar, no máximo, uma semana.

“Acho que é uma mistura de várias coisas e que depende de caso para caso. Primeiro, isso [o ghosting] acontece porque é mais fácil. Não é o mais correto, mas é mais fácil porque evitas ter de estar a explicar as coisas, sobretudo quando há coisas que não são fáceis de explicar”, conta, dando o exemplo de uma rapariga com quem se cruzou e que acabou por achar insistente. “Não lhe vou dizer ‘olha, és chata’, é um pouco desagradável. Eu acho que, provavelmente, elas preferiam que eu fosse honesto de uma forma diplomata, muito diplomata.”

Além da “facilidade” descrita por João, há outra razão que ajuda a sustentar o silêncio do lado de quem escolhe afastar-se e cortar ligações. E é tudo uma questão de expetativas. “Pode ter que ver com o que uma pessoa espera da relação, podes também não querer uma coisa que dure muito mais e ages conforme a isso. É uma questão de disposição.”

João conta que nunca recebeu, em resposta pelo silêncio, mensagens agressivas ou telefonemas doidos, apenas SMS comedidas. Mas reconhece que, enquanto apostava na voz muda, do outro lado já houve quem, durante alguns dias, tentou meter conversa e fazer convites. “É uma mistura de duas coisas — o achar a pessoa chata e, depois, ter pena. Mas, no geral, evito ter pena das pessoas.”

“Somos eternamente responsáveis por aquilo que cativamos”

Nestes casos, diz Cláudia Morais, não é uma questão de ignorar ou esquecer o outro, uma vez que tal remete, na maior parte das vezes, para relações significativas. Nas histórias em que o ghosting é real, o mais frequente é existir um desequilíbrio de expetativas de parte a parte: “A pessoa que acaba por ser abandonada acaba por estar a investir mais na relação do que a outra. E há uma dificuldade em lidar com essas diferenças.”

Cláudia Morais acrescenta ainda que, muitas vezes, torna-se difícil lidar com o confronto e com a mágoa, ou seja, com a frustração do outro. “Para quem abandona, isto acaba por ser uma saída fácil. E há uma certa piedade: as pessoas nem sempre são capazes de assumir as suas próprias dificuldades e acham que são as outras que não estão preparadas para ouvir.”

“A dificuldade em desiludir o outro e de afirmar a sua decisão são os principais motivos desta ausência”, confirma Débora-Água Doce. “Podem tratar-se de relações onde o ‘parceiro fantasma’ não se envolve emocionalmente nem acede às emoções do outro e age com se se tratasse de um objeto que já não lhe faz falta”, continua.

Ambas as psicólogas defendem que este tipo de comportamento está assente na falta de respeito — para com o outro e tendo em conta a pessoa que corta os laços. A propósito disso, Cláudia Morais relembra uma das célebre frases do livro O Principezinho, de Antoine de Saint-Exupéry, quando a raposa diz para o rapaz: “Somos eternamente responsáveis por aquilo que cativamos.”

Os fantasmas não atacam apenas em casos de uma noite

Mas não são só as relações mais curtas que correm este risco. O ghosting pode acontecer mesmo depois de meses de partilha e de uma história onde haja amigos e família envolvidos. “Há outros casos menos frequentes em que há uma relação emocional e esse corte abrupto acaba por ser uma forma de a pessoa lidar com a sua própria mágoa e sensação de desamparo”, diz Cláudia Morais, referindo-se a pessoas que se fecham sobre si próprias e que optam pelo comummente chamado “tratamento de silêncio”.

Perante esse tipo de sofrimento, esclarece Cláudia Morais, a pessoa deixa de responder porque não quer sofrer. Sente-se forçada a cortar relações e pode mesmo considerar-se uma vítima por se sentir desamparada. A psicóloga recorre à teoria da vinculação para melhor explicar estes cenários: quando uma pessoa se liga de forma menos segura, isto é quando a vinculação é insegura, sente maior dificuldade em mostrar-se vulnerável e acaba por acionar um mecanismo de defesa, como se estivesse a antecipar uma ameaça. As pessoas com vínculos mais seguros são capazes de se mostrar mais vulneráveis e vice-versa.

O caso de Maria*, ao contrário dos do João, remete exatamente para uma relação mais longa e, à partida, mais estável. A estudante universitária de 21 anos estava a namorar há mais de um ano quando, certa noite, o namorado não respondeu à sua mensagem de boa noite. Nem a essa, nem às que se seguiram. Passado uma semana de silêncio atroz, Maria conseguiu que ele lhe atendesse o telemóvel, mas apenas para o ouvir dizer que deveriam falar pessoalmente. Dito isto, o silêncio voltou, até que a jovem teve de se convencer de que era o fim. Enganou-se. Os dois voltaram a envolver-se passados alguns meses, depois de um pedido de desculpas do rapaz. Mas este acabaria por fazer o mesmo em seu devido o tempo, isto é, tornar a perder a voz (e todas as outras formas de comunicação).

“Who you gonna call? Ghostbusters!”

O certo é que as relações são, hoje em dia, cada vez mais substituíveis e até já há aplicações, como o Binder, que ajudam as pessoas a terminá-las. “Hoje, a dúvida do ‘telefonar ou não’ cedeu espaço à dúvida do ‘elimino ou não elimino’, do ‘faço gosto ou não faço gosto’. A ausência de resposta, o silêncio, é apenas uma forma de desistir das relações”, atesta Débora Água-Doce. O ghosting é, nas suas palavras, “a forma de não terminar uma relação, a forma de deixar espaço para a dúvida na outra pessoa e a forma de evitar ‘ver’ a dor do outro e desilusão no seu olhar”. Acima de tudo, é “a forma de as pessoas se desresponsabilizarem de tomar uma decisão”.

Mas há sinais que ajudam a antecipar o ghosting. E passa tudo por uma questão de atenção, uma vez que existem comportamentos que facilmente traduzem a evitação de intimidade, garante Cláudia Morais. Exemplo disso é quando, no início de uma relação, uma das pessoas se recusa a ter conversas sérias ou a falar sobre si própria. Ou até — e isto é mais flagrante — quando não se mostra muito à vontade em enquadrar aquela pessoa no seu grupo de amigos. “Basicamente há ali um muro, uma barreira. E, às vezes, as pessoas acabam por encontrar desculpas para aqueles comportamentos.”

“Dependendo da bagagem emocional e da rede de suporte [amigos e família que prestam apoio], há pessoas que ultrapassam isto com relativa facilidade. Há outras em que os meses vão passando e continuam ligadas e chegam a manifestar vontade em reatar e de ouvir a outra pessoa”, explica Cláudia Morais. Não raras vezes, essa pessoa “precisa” de retomar o contacto e de se voltar a magoar — à partida a comunicação pode ser restabelecida na base da amizade, mas o corte pode voltar a acontecer, quando o “fantasma” perceber que a outra pessoa está de novo a ter expetativas.

Caso esteja a ser vítima de ghosting (ou já tenha sido), não é o fim do mundo. O processo de luto é desejado, uma vez que só vivendo a perda é que se torna possível ultrapassar e aceitar o que aconteceu. “É necessário tempo para acolher a dor de alguém tão próximo. Quando se corta, o que acontece? Dói e tem de se lidar com a fase de cicatrização da ferida”, conclui Água-Doce.

* Nomes fictícios. Estas pessoas não quiseram ser identificadas. 

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