Super Bock Super Rock

SBSR: o melhor do resto foi português

Neste terceiro e último dia Kendrick Lamar foi rei e senhor, mas do melhor que ouvimos este sábado foi português. É altura para balanço.

Se há um momento do Super Bock Super Rock (SBSR) 2016 que vai ficar na memória de muito boa gente, é o espetáculo de Kendrick Lamar, neste terceiro e último dia. Outro, que talvez perdure: as três tardes de suor e noites de manga curta, uma grande sorte, porque tornou ainda melhor o que já era bom – o cérebro tem truques e os extremos ajudam a fixar ideias.

Espaço mais bem organizado, melhor som no MEO Arena, mais oferta na restauração, nova zona Chill Out. O SBSR voltou à cidade no ano passado e está a ganhar músculo e raízes, haja mais ideias para atrair espetáculo. Luíz Montez (da promotora Música no Coração) fez-nos o balanço desta 22ª edição e deixou uma pista:

O resto é música e a melhor foi quase toda made in Portugal, neste último dia.

Orelha Negra

Quem já ouviu os trabalhos anteriores dos Orelha Negra sabe bem o que eles fazem: um hip hop de fusão futurista, feito à base de samples, beats, mesas de mistura mas também guitarras, baixo e teclas. Misturar tudo isto (música tocada e música “manipulada” através das máquinas) e criar um produto coerente, orgânico, inovador mas que agrada ao ouvido, é tudo menos fácil.

Nos últimos tempos, a banda de Sam the Kid, Cruzfader, Francisco Rebelo, Fred Ferreira e João Gomes tem preparado um novo álbum (que ainda não tem data de edição mas que deve sair ainda este ano). Levaram-no ao CCB em janeiro e as reações foram do melhor que se pode imaginar. Esta noite, no MEO Arena, os Orelha Negra justificaram a aposta da organização, que os escolheu para o palco principal do festival (foram os únicos portugueses que ali tocaram este ano). Não só foram muito competentes, como chamaram muita gente ao palco principal (na parte final do concerto, a plateia já estava praticamente cheia, mesmo que os balcões ainda tivessem pouca gente).

O espetáculo começou (tal como no CCB) com um lençol colocado entre a banda e o público, deixando antever apenas as sombras dos cinco músicos. Problema: ao contrário do que aconteceu em janeiro, a iluminação rapidamente levou a que o público facilmente os visse através do dito véu, antes de este ser retirado e a banda se mostrar sem proteções.

Durante o concerto, tocaram alguns temas mais antigos (“Throwback”, por exemplo), misturaram e “jogaram” com temas de outros músicos (o sample de “Hotline Bling” de Drake levou o público à loucura) e mostraram uma força que os coloca entre as bandas portuguesas de referência da atualidade.

Se os concertos e os trabalhos anteriores ainda não chegam para justificar esse estatuto, dificilmente isso não acontecerá com o novo álbum. Porque, a soar (pelo menos) tão bem quanto o que ouvimos esta noite, vem aí um daqueles discos para guardar nas prateleiras durante bons anos e dizer aos netos: “eu vi estes tipos a tocar ao vivo, no MEO Arena”. Não é coisa de somenos. [GC]

“A Purple Experience” por Moulinex

“Could you be the most beautiful girl in the world”. Haverá canção mais bonita para abrir qualquer concerto? A voz não era a de Prince, nem sequer se esforçava para ser, já que foi interpretada por Moulinex em auto-tune. Ainda assim, uma canção como esta sobrevive a tudo. Estava lançado o mote para uma noite bonita.

“A Purple Experience” por Moulinex juntou Da Chick, Selma Uamusse, Samuel Úria, Marta Ren e Best Youth para prestar homenagem a Prince Roger Nelson.

Num espetáculo destes, que junta tanta gente para cantar canções que não são as suas, é natural que haja alguns problemas de logística, que se notaram nos “pregos” iniciais quando Da Chick cantou “I wanna be your lover” e Úria assumiu a “tarefa ingrata” de interpretar “uma versão folk de uma canção pouco conhecida de Prince” [“Kiss”]. Passadas as primeiras músicas, tudo se afinou melhor e os problemas técnicos dissiparam-se.

Úria foi do folk ao rock bem esgalhado com uma agilidade que só pode indicar que estamos perante um grande músico (como o Gonçalo Correia já tinha notado). No mesmo campeonato joga também Selma Uamusse, que arrepia qualquer um mal abre a boca. A cantora trouxe-nos “I feel 4 U”, uma das suas preferidas e “Musicality”, que pôs toda a gente a dançar, incluindo a própria que disse estar manca (mas pouco se notou).

Em atuações competentes, mas noutro patamar, estiveram Best Youth, que interpretaram “Little Red Corvette” e Marta Ren, que nos trouxe “Sexy MF” e “When Doves Cry”.

O momento alto da noite chegou quase no fim, quando as vozes femininas se juntaram para cantar “Purple Rain”. O espetáculo terminou como qualquer homenagem a Prince deve terminar: em festa. Todos os convidados subiram ao palco para “1999” e “I would die 4 U”.

O público, que foi abanando ao som das baladas e também dançou à séria quando era caso disso, não parecia reagir de maneira calorosa de cada vez que se mencionava o homenageado. Talvez demasiadas referências tenham cansado as palmas, ou talvez fossem poucos os que ali estavam para prestar tributo e mais os que lá foram parar por falta (?!) de alternativa. Ou seja, estiveram lá pela música, não pela memória do artista. [ILD]

sbsr 2016, moullinex

Marta Ren em “A Purple Experience”

GNR

Enquanto os De La Soul tocavam no MEO Arena, os históricos GNR subiam ao Palco EDP para um evento especial: um concerto onde interpretaram o álbum Psicopátria, saído há 30 anos. O grupo de Rui Reininho (que esteve muito bem disposto, falando em português, inglês — “I love you” — e francês) e companhia já anda nisto há muitos anos e até tocou na primeira edição do festival (em 1995).

Em palco, a banda mostrou que o disco — um dos álbuns rock mais influentes e importantes da música portuguesa (leve e dançável, mas sofisticado e inteligente, nas letras e arranjos) — é como o vinho do Porto: envelhece bem. Ouviram-se temas como “Efectivamente” e “Pós-modernos”, por exemplo. Melhor: estes clássicos foram tocados com grande competência técnica, como se os anos não passassem pela banda – ou, vendo a coisa ao contrário, são agora mais sábios e estão mais treinados.

Ainda houve tempo para um encore com temas que fugiram ao disco (Rui Reininho brincou, dizendo que os GNR eram uma banda nova e não tinham mais canções). Destacou-se a magnífica “Vídeo Maria”, tema que só veria a luz do dia dois anos mais tarde (em 1998). Mas estamos em 2016, Psicopátria continua vivo e admirado e os GNR deram um belo concerto. É um bom indicador, certo? [GC]

sbsr 2016, gnr

De La Soul

O MEO Arena tinha a lotação a metade para receber o histórico trio nova-iorquino. Posdnuos, Dave e Maseo entraram no palco completamente despido e começaram por explicar ao que vinham: saudar e celebrar a música [hip] pop. E agradeceram a todos aqueles que os seguem desde 3 Feet High and Rising, o álbum de estreia publicado há 27 anos que é, ainda hoje, considerado uma referência.

Uma mesa de mistura e microfones, foi o que bastou para fazer a festa que começou com conversa, muita conversa (e muitas pausas). A experiência na manipulação do beat e das rimas é evidente mas não encheu as medidas. Cantem e brinquem o que quiserem, é precisamente com 3 Feet High and Rising que mais fazem vibrar, mesmo aqueles que ainda não eram nascidos em 1989. Estranhamente, nem os sucessos “Me, Myself & I” (mal cantado, aqueles agudos são difíceis) ou “Ring Ring Ring” (de De La Soul Is Dead, 1991) salvaram a noite.

Porque é impossível separar as emoções da música, porque as expectativas têm quase sempre o condão da traição, o sabor que ficou no final foi o de um quase nada. Hip hop tecnicamente experiente, é certo, mas com uma postura aborrecida, quase chata (pior quando comparado com o que se seguiu – Lamar). Menos conversa e brincadeira com o público e talvez pudéssemos ter ouvido mais qualquer coisa para picar a memória. Talvez para a próxima, se tiverem outro fôlego. [PE]

Fidlar

Faltava à edição deste ano do Super Bock Super Rock um concerto como o dos Fidlar: caótico, abrasivo, suficientemente punk (ou garage) para que causasse incómodo aos ouvidos que lidam pior com o volume no máximo.

Os californianos, que lançaram o segundo álbum de estúdio no ano passado, vieram (como habitual, pelo que sabemos dos seus concertos) com o diabo no corpo. Guitarras ao alto, riffs loucos e demoníacos e uma fúria incontrolável em palco.

Tiveram algum público (no Palco Antena 3 estava Mike El Nite) mas, mais importante do que isso: quem ficou aderiu totalmente ao concerto dos Fidlar. Moche, crowdsurfing constante na plateia e gente a cantar os refrãos das canções como se não houvesse amanhã — “40oz. On repeat”, por exemplo, um dos singles mais recentes do grupo norte-americano, que soou menos adocicado ao vivo (felizmente). Soube mesmo bem. Soube a Super Rock. [GC]

Ao longo do dia estivemos de novo em liveblog, onde registámos muitos outros momentos, de música e ambiente. Para o ano há mais, dias 13, 14 e 15 de julho de 2017, no Parque das Nações, em Lisboa.

Texto de Gonçalo Correia, Inês Linhares Dias e Pedro Esteves, fotografia de Hugo Amaral.
Partilhe
Comente
Sugira
Proponha uma correção, sugira uma pista: observador@observador.pt
Sociedade

Um raríssimo Portugal

Paulo de Almeida Sande

Somos o povo acomodado, que exprime a angústia latente da bondade resignada, convencido de estar destinado à subalternidade, um povo submisso, que emula o estrangeiro e desdenha o nacional. 

Só mais um passo

Ligue-se agora via

Facebook Google

Não publicamos nada no seu perfil sem a sua autorização. Ao registar-se está a aceitar os Termos e Condições e a Política de Privacidade.

E tenha acesso a

  • Comentários - Dê a sua opinião e participe nos debates
  • Alertas - Siga os tópicos, autores e programas que quer acompanhar
  • Guardados - Guarde os artigos para ler mais tarde, sincronizado com a app
  • Histórico - Lista cronológica dos artigos que leu unificada entre app e site