Museu Nacional De Arte Antiga

Visitante derruba escultura do Museu de Arte Antiga

1.452

Visitante derrubou uma escultura do séc. XVIII no Museu de Arte Antiga. Ministério da Cultura emitiu comunicado a estancar a polémica da falta de vigilância porque estava um segurança na sala.

Imagem retirada de um utilizador do Facebook com o perfil público

Autores
  • Bruno Horta
  • Hugo Tavares da Silva

Uma escultura de madeira do século XVIII de São Miguel Arcanjo foi este domingo derrubada por um visitante no Museu de Arte Antiga, que tem entrada livre nos primeiros domingos de cada mês. Segundo uma fonte oficial do museu, o turista estava a tirar uma fotografia e, ao caminhar para trás, derrubou a figura de São Miguel Arcanjo. Este incidente reacende uma discussão com menos de dois meses.

O Ministério da Cultura enviou um comunicado às 21h45 a esclarecer as circunstâncias sem que se deu o “acidente”, que dão conta da presença de um vigilante, ou seja, esvaziando assim a polémica de que poderia haver falta de pessoal na segurança:

O acidente correu quando o visitante, estando a fotografar uma outra obra, recuou sem olhar, não parou apesar dos alertas do vigilante, e foi contra a peça que se encontrava em cima de um plinto”.

Nos próximos dias, avança o comunicado, “a Direção Geral do Património Cultural avaliará em detalhe os danos e a necessidade de alterar a musealização da exposição, que foi inaugurada este verão, por forma a prevenir acidentes”.

As primeiras informações, disponibilizadas pelo museu, indicavam que tinha sido “um turista brasileiro que, a tirar uma fotografia, andou de costas e bateu na escultura”, que estava no piso 3. A sala foi encerrada. Ninguém se magoou. “Os técnicos de restauro já foram avisados e já estão em cima do acontecimento”, disse ao Observador uma fonte oficial do museu.

Uma fonte oficial do Ministério da Cultura, liderado por Luís Filipe Castro Mendes — com quem o diretor do museu teve uma polémica recente por causa das necessidades de vigilância — disse entretanto ao Observador que receberá um relatório em breve: “O que aconteceu, de acordo com os relatos que temos, foi um acidente, como tal difícil de prevenir. Aguardamos o relatório da ocorrência, que chegará nos próximos dias”.

A polémica da falta de vigilantes

O diretor do Museu de Arte Antiga, António Filipe Pimentel, afirmou no início de setembro, na Escola de Quadros do CDS, em Peniche, que se andava a “brincar ao património” e que “de certeza absoluta que um destes dias há uma calamidade no museu”. Pimentel queixava-se que havia apenas 64 pessoas, que englobavam técnicos superiores, conservadores, investigação, biblioteca, gestão, comunicação e vigilantes, para 82 salas. Era pouco. Havia pouca vigilância, dizia — o museu conta com 20 vigilantes e seriam necessários 50, segundo o diretor.

As nossas necessidades de vigilância são focadas essencialmente nas áreas mais nevrálgicas e vamos abrindo e fechando [salas] durante todo o verão”, disse o diretor do Museu de Arte Antiga ao Público. “O museu não abrandou o seu nível de segurança mas a oferta pública vai reduzindo cada vez mais. Se temos 20 vigilantes como operacionais para 82 salas, o que se pode esperar?”

As declarações não caíram bem junto do ministro da Cultura, que se disse “perplexo”. “Qualquer ocorrência concreta que possa ter provocado este sinal de alarme que perpassa nas declarações proferidas esta quinta-feira pelo diretor do MNAA, pelo que caberá ao Dr. António Filipe Pimentel contextualizar e concretizar as suas afirmações”, disse Luís Filipe Castro Mendes, aqui citado pelo Expresso.

Incidente no Museu de Arte Antiga foi publicado nas redes sociais por Nuno Miguel Rodrigues, que tem perfil público no Facebook

António Filipe Pimentel enviou depois uma carta a pedir desculpas ao ministro, pelos acontecimentos “infelizes”, contou o Diário de Notícias. O diretor do museu desculpou-se dizendo que as declarações foram proferidas “num contexto de aula”, no qual os professores falam “academicamente de casos práticos”, contou o Público. Castro Mendes confirmou a receção da carta e não teceu quaisquer comentários.

Acidente no mesmo piso da Adoração dos Magos, de Domingos Sequeira

A escultura agora destruída estava no terceiro piso do museu, renovado entre janeiro e julho deste ano. É o mesmo piso onde se encontra A Adoração dos Magos, de Domingos Sequeira, a pintura adquirida através de um peditório público de grande repercussão.

A localização sugere que a escultura foi restaurada há pouco tempo. Todas as cerca de 200 novas obras de pintura e escultura que estão no terceiro piso desde julho estavam guardadas há anos no depósito do museu e foram intervencionadas antes de expostas.

O facto de a escultura ser em madeira fez com que danos não tivessem sido maiores. A madeira absorveu o choque, o que não aconteceria com a porcelana ou outros materiais mais delicados, explicou este domingo à noite ao Observador um especialista em conservação e restauro que conhece bem o Museu Nacional de Arte Antiga e que pediu para não ser identificado.

O presumível acidente, diz o mesmo especialista, pode ser uma oportunidade para se estudar melhor a obra em causa. As lascas que ficaram no chão e até mesmo os elementos que se separaram do corpo central podem agora vir a ser estudados pelo laboratório de conservação que funciona junto do museu e que tem ao serviço técnicos residentes.

Para já, explica a mesma fonte, a recuperação desta imagem de São Miguel Arcanjo deverá começar por um estudo de uma equipa multidisciplinar de marceneiros, conservadores de escultura, entalhadores, químicos e outros especialistas.

Caberá à direcção do MNAA decidir se o trabalho é entregue ao próprio laboratório do museu ou ao Laboratório José de Figueiredo, que pertence à Direção-Geral do Património Cultural.

“Não se trata de uma tela, é uma escultura, por isso vai ser preciso fazer uma análise bidimensional, o que implica desde logo perceber a dimensão do estrago. A análise de fotografias da peça, que certamente se encontram no arquivo do museu, facilita esse reconhecimento”, diz o especialista contactado pelo Observador.

“Depois será preciso um restauro por dentro, para recuperar a estrutura, e ainda um trabalho de recuperação cromática”, acrescenta.

Não é de esperar que a escultura volte a ser exibida antes de 2018, segundo a mesma fonte, que dá o exemplo de tapeçarias danificadas, cuja recuperação chega a demorar cerca de um ano com um ritmo de trabalho diário.

Partilhe
Comente
Sugira
Proponha uma correção, sugira uma pista: observador@observador.pt
Livros

Livros para o Natal (II)

João Carlos Espada

A confiança na civilização europeia e ocidental supõe o reconhecimento do sentimento nacional.

Só mais um passo

Ligue-se agora via

Facebook Google

Não publicamos nada no seu perfil sem a sua autorização. Ao registar-se está a aceitar os Termos e Condições e a Política de Privacidade.

E tenha acesso a

  • Comentários - Dê a sua opinião e participe nos debates
  • Alertas - Siga os tópicos, autores e programas que quer acompanhar
  • Guardados - Guarde os artigos para ler mais tarde, sincronizado com a app
  • Histórico - Lista cronológica dos artigos que leu unificada entre app e site