Lisboa

“Terramotourism”. Lisboa está “no olho do furacão” de um “sismo turístico”

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Um grupo de ativistas urbanos lançou um documentário sobre as transformações que o turismo trouxe a Lisboa. Em entrevista, assumem que querem provocar debate e mudanças na atitude dos cidadãos.

Autor
  • João Pedro Pincha

Estamos na Outra Banda, a olhar para a silhueta de Lisboa. Vê-se a estátua de D. José no meio da Praça do Comércio, que daqui parece pequena. Ao lado o Torreão Nascente, a rematar o grande edifício amarelo do Ministério das Finanças. Pouco mais acima, as torres da Sé; no topo da colina, as muralhas do castelo; além o Mosteiro de São Vicente de Fora e o casario de Alfama espalhado até ao rio.

De repente, o inesperado. Um vulto branco surge do lado direito a cruzar o Tejo. Primeiro a proa, depois o resto: pelo menos nove andares de pequenos varandins, salas de comandos, torres de comunicações, chaminés. O mosteiro desaparece da paisagem, a Sé também, rapidamente já não se vê cidade. A mensagem evidente é reforçada, pouco depois, quando aparece o título. Terramotourism é um documentário abertamente crítico das mudanças por que Lisboa está a passar devido à explosão do turismo. Não é um filme contra turistas, esclarecem os autores, mas que quer que os lisboetas “recuperem a capacidade de intervenção sobre a sua própria cidade”.

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Sem narração e sem entrevistas, Terramotourism é um conjunto de imagens propositadamente amadoras sobre muito do que se vê na capital por estes dias. Os elétricos cheios, dezenas de tuk tuks, grupos organizados de turistas, prédios em obras, segways, autocarros de dois andares, estaleiros de obra, navios de cruzeiro, filas para comprar bilhetes nas estações de metro e comboios. Tudo acompanhado por música experimental e entrelaçado com gravuras e comentários sobre o terramoto de 1755, excertos de filmes e depoimentos de lisboetas.

“Lisboa hoje treme novamente, abalada por um sismo turístico que transforma a cidade a velocidade de cruzeiro. O seu impacto desloca o morador do centro da cidade. Que novos absolutismos encontrarão aqui o seu álibi?”, questionam os membros do coletivo Left Hand Rotation, autores do documentário, que foi lançado na internet na semana passada.

“Gentrificação” é uma das palavras-chave. Consiste na “valorização imobiliária de uma zona urbana, geralmente acompanhada da deslocação dos residentes com menor poder económico para outro local e da entrada de residentes com maior poder económico”, segundo o dicionário Priberam da Língua Portuguesa. “Em 2012 fizemos o nosso workshop sobre gentrificação em Lisboa e muitas pessoas ainda diziam que isso não podia acontecer cá”, explica um dos membros do Left Hand Rotation em entrevista ao Observador. Os ativistas deste grupo, criado em Espanha e com projetos em várias cidades europeias, latino-americanas e africanas, optam por manter-se no anonimato — alegam que querem dar destaque ao coletivo e não a uma pessoa concreta.

Quando começaram a filmar, em novembro de 2012, falava-se destes problemas?
Muito menos do que agora. Agora todas as semanas há encontros, debates e palestras sobre gentrificação e o que está a acontecer com o turismo. Este não é um documentário contra os turistas, todos somos turistas. O problema é a gestão da cidade pensada só para o visitante.

O documentário assume um ponto de vista muito crítico. Quando começaram, já sabiam o que iam filmar?
É crítico porque há muitas situações críticas na cidade agora mesmo, neste momento. Há muitas pessoas deslocadas do centro.

A realidade que encontraram era ainda pior do que esperavam?
Sim, agora sim. Em Lisboa aconteceu tudo muito rápido, nos últimos 5 anos. Sempre foi uma cidade visitada, mas a crise está a legitimar que a cidade seja vendida. Nas feiras imobiliárias europeias, também deram facilidades a reformados franceses para comprar casa em Lisboa, etc. O turismo é um motor económico muito importante, mas também é uma faca de dois gumes, como está a acontecer em Lisboa.

Conhecemos outros casos, como Barcelona. O modelo Barcelona é um fracasso. O segundo problema que mais preocupa os barceloneses é justamente o turismo. Em Barcelona há manifestações contra o turismo. Isto não é a solução, porque o turista não é culpado, mas indica como estão as coisas lá. Há pouco tempo apareceu nos jornais o presidente dos hoteleiros de Lisboa a dizer que “Lisboa é a nova Barcelona”, mas se conhecermos em profundidade o que acontece em Barcelona, veremos que pode ser um problema.

O documentário foi filmado entre 2012 e 2016. O que mudou nestes anos?
Como digo, Lisboa sempre foi visitada. Mas agora há um excesso de hotéis na Baixa. Sempre vimos o problema dos prédios abandonados (cerca de cinco mil), mas agora são reabilitados para fazer mais e mais hotéis. A Baixa está a ficar como uma decoração para o visitante que só vem uns dias à cidade. E, ainda por cima, os comércios antigos estão a fechar, Afama tem 56 % das casas convertidas em apartamentos turísticos e houve uma subida muito grande nas rendas nos últimos quatro anos.

Acham que a atitude dos lisboetas mudou nestes anos? Estão mais agressivos, mais deprimidos, mais atentos?
É muito complicado. O turismo traz empregos, embora na maioria sejam precários. O turismo e a gentrificação têm isto: primeiro podem ser percebidos como algo bom, como uma renovação, mais segurança, tudo mais limpo, mas no fim não é assim. No último debate sobre turismo em Alfama, que se pode ver no documentário, a atitude dos vizinhos foi muito agressiva. Alguns foram desalojados e no debate houve muitos protestos, claro. As pessoas com quem falamos estão irritadas.

O que é que o cidadão comum pode fazer?
O cidadão comum pode fazer tudo, tudo depende dele. E a primeira coisa é decidir o modelo de cidade em que quer viver: inclusivo ou exclusivo. Recuperar a capacidade de intervenção sobre a sua própria cidade é um processo lento.

Quais são os passos desse processo? Debates, palestras,…?
Não há uma fórmula, acho. Cada grupo e cada cidade vai ter de encontrar os seus próprios mecanismos… O debate é um bem necessário, mas não pode ficar só nessa fase.

Lisboa está a saber responder?
É difícil avaliar isso, porque estamos agora no olho do furacão. Mas uma coisa é certa: Lisboa está a sofrer uma privatização alarmante do património municipal e isso vai ser difícil de recuperar. Obviamente que debates como o “Quem vai poder morar em Lisboa” ou os debates no bairro de Alfama ajudam muito a levar informação crítica às pessoas.

Qual é o próximo passo? Estava a dizer há pouco que as manifestações não são solução.
Dizia isso por que há muita gente em Barcelona que está contra o turista e o turista não é culpado. A questão é que o Governo não quer ver muitos destes problemas, está a ver o turismo só como parte da solução à crise. Em Barcelona estão a regularizar o Airbnb, mas é um paradoxo, porque muita gente tem mais rendimentos quando aluga a sua casa a estrangeiros. O problema é quando grandes compradores compram prédios inteiros e ruas inteiras para especular.

Estão contentes com o resultado final do documentário?
Estamos sobretudo com vontade de escutar a opinião das pessoas, mas o documentário cumpre com o que tínhamos pensado, sim. O mais importante é as pessoas perceberem que não é um filme contra o turista. Gostamos do debate que estamos a provocar nas redes sociais.

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