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Literatura Infantil

Os melhores livros infantis do ano

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2016 foi rico em histórias para crianças bem ilustradas, de abecedários carregados de humor a livros que tentam fazer o mesmo que Di Caprio: defender o ambiente. Estes são os nossos 20 favoritos.

Era uma Vez um Alfabeto

De Oliver Jeffers (Orfeu Negro). 22,50€

Vinte e seis letras, 26 histórias. Oliver Jeffers, um dos mais talentosos autores de livros de crianças da atualidade, resolveu transformar o abecedário numa coleção de pequenos argumentos cheios de imaginação. “Se das palavras se fazem histórias, e das letras se fazem palavras, então as histórias são feitas de letras”, escreve o também ilustrador na introdução de Era uma Vez um Alfabeto, completando: “Neste conjunto temos histórias feitas de palavras para todas as letras.” De a a z, ou melhor, de astronauta a zepelim, as ditas histórias são mirabolantes e deliciosamente absurdas, com o sentido de humor e o traço descontraído a que o irlandês radicado em Nova Iorque já nos habitou em obras como Este Alce é Meu ou O Incrível Rapaz que Comia Livros. Há uma caneca em cacos que está farta de estar no escuro do armário, um guarda que guarda um glaciar (e que anteriormente guardava um gorila) ou um enigma com elefantes. E embora algumas aliterações se percam inevitavelmente na tradução, a leitura é sempre lúdica, com inesperadas ligações entre histórias, piscadelas de olho a outros títulos de Jeffers e uma certeza: estão aqui ideias tão boas que, em última análise, dariam 26 livros.

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Mana

De Joana Estrela (Planeta Tangerina). 12,50€

Quem tem irmãos sabe como eles podem ser o melhor e o pior do mundo, ao mesmo tempo. Mana, o livro que marcou a bela estreia de Joana Estrela no catálogo da Planeta Tangerina (e que venceu o I Prémio Internacional de Serpa para Álbum Ilustrado) mostra essa ambiguidade com um relato dirigido a uma irmã mais nova, e que aparece riscado aqui e ali porque não escapou às mãozinhas da pirralha. “Querida irmã, não sei bem de onde vieste, mas de certeza que és extraterrestre”, é só o primeiro mimo desta carta de amor onde se partilha tudo, até a varicela.

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A Baleia

De Benji Davies (Orfeu Negro). 13,50€

As amizades improváveis têm dado grandes livros para crianças, e em 2016 deram um do tamanho de uma Baleia. Na sua estreia em Portugal, pelas mãos da cada vez mais bela coleção Orfeu Mini, o ilustrador e realizador de animação Benji Davies escolhe um rapaz e uma baleia para protagonizar o estranho par, numa história passada à beira-mar e pintada em tons de azul. Noé vive com o pai e seis gatos — que é uma delícia procurar na ilustração inicial —, mas o pai é pescador e passa o dia embarcado. Quase sempre sozinho, um dia o menino descobre uma inesperada companhia ao passear na praia, e leva-a para casa. Uma bela homenagem à amizade e a todo o universo náutico.

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Todos Eles Viram um Gato

De Brendan Wenzel (Edicare). 14,95€

Há quem tenha aprendido a importância da perspetiva com Leonardo Da Vinci, quem o tenha feito com a famosa cena da sala de aula no filme Clube dos Poetas Mortos. Depois de 2016, uma nova geração pode também fazê-lo com o livro Todos Eles Viram um Gato, do ilustrador Brendan Wenzel. A premissa é simples: um felino deambula pelo mundo “com os seus bigodes, orelhas e patas”. Uma criança vê-o, um cão, uma raposa, um peixe, um rato, uma abelha, um pássaro e até uma pulga. Todos veem o mesmo gato, mas nas páginas em que ele vai aparecendo, não podia ser mais diferente. Porquê? É tudo uma questão de ponto de vista, num livro que pode despertar a curiosidade dos mais pequenos até em relação ao que pensavam que conheciam.

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Um Dia de Loucos

De Walter Benjamin (Bruáa). 15€

Poucos saberão, mas para além de ser um intelectual, adepto da Teoria Crítica e um dos principais nomes da Escola de Frankfurt, Walter Benjamin escreveu e apresentou cerca de 90 programas de rádio para crianças. Um Dia de Loucos: Trinta Ossos Duros de Roer é um desses programas estreados entre 1927 e 1933 na rádio alemã e agora ilustrado por Marta Monteiro, numa edição da Bruáa. No centro da história está um narrador chamado Bruno que vai contando, na primeira pessoa, o dia de loucos que está a ter para conseguir responder a uma adivinha. Mas como se percebe logo pela introdução, todo o livro é ele próprio uma charada, com 15 erros que o leitor é desafiado a encontrar e 15 perguntas — assinaladas por um “gong” — para responder depois de pôr a cabeça a funcionar. Os tais 30 ossos duros de roer que, quem sabe, potenciarão novos pensadores tão brilhantes como o filósofo judeu (não vale espreitar as soluções no final).

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O Sr. Tigre Torna-se Selvagem

De Peter Brown (Orfeu Negro). 14€

Quem quiser pode ler apenas a história de um tigre, mas é provável que todos os pais que roubem este livro aos filhos leiam uma história sobre todos nós. Ora vejamos: o Sr. Tigre é um tigre que anda sempre engravatado e é sempre sério e educado. Mas um dia a gravata começa a ficar demasiado apertada e ele decide que quer estar à vontade e divertir-se, ou seja: quer ser selvagem e livre. As implicações para esta mudança de vida são várias, sobretudo quando à sua volta todos são sérios e engravatados. Já a ironia é deliciosa, confirmando Peter Brown, autor e ilustrador do também elogiado A Minha Professora é um Monstro!, como um nome a ter debaixo de olho.

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Os Figos São Para Quem Passa

De João Gomes de Abreu e Bernardo P. Carvalho (Planeta Tangerina). 12,90€

Com um urso e uma figueira escreve-se uma história de fortes, fracos, chicos-espertos e persistentes. Num tempo em que “tudo era de todos, ninguém pertencia a nada” e “nada pertencia a ninguém”, um urso decide plantar-se à espera que um figo — o seu fruto preferido — fique maduro. O problema é que ele não consegue guardá-lo 24 horas, e as peripécias que lhe vão acontecendo levantam uma série de questões mais profundas do que as raízes das árvores: afinal os figos são para quem passa? Ou para quem espera por eles? E quais sabem melhor? João Gomes de Abreu responde e Bernardo P. Carvalho pinta tudo com os seus verdes e laranjas.

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O Dia em que os Lápis Voltaram a Casa

De Drew Daywalt e Oliver Jeffers (Orfeu Negro). 14,50€

Em 2014 houve uma revolta inesperada: os lápis de cera fartaram-se. Uns por serem demasiado usados, outros por ficarem sempre na caixa, todos resolveram escrever ao seu dono com as respetivas exigências (e uma ameaça de greve), tornando-se os inesperados protagonistas de uma história infantil com contornos reivindicativos. Pois bem, entretanto o tempo passou e em 2016 os lápis de cera voltaram a casa. Ou seja, voltaram ao ataque, com mais reclamações endereçadas ao “quarto do Duarte”. Uma sequela onde tudo o que interessa está na mesma — argumento de Drew Daywalt cheio de humor e ilustrações de Oliver Jeffers, desta vez rabiscadas sobre postais vintage –, só mudam as queixas. E as cores.

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Mão Verde

De Capicua e Pedro Geraldes (Valentim de Carvalho). 14,99€

É um livro-disco e não mistura apenas formatos mas temas, do hip-hop à agricultura, dos animais às hortaliças. Capicua e Pedro Geraldes juntaram-se para acenar com uma Mão Verde na rentrée de 2016 e mostraram o que acontece quando letras pedagógicas se colam ao ouvido, à maneira das lengalengas. Como deixa adivinhar o título e as ilustrações da espanhola Maria Herreros, essa pedagogia está sobretudo relacionada com o ambientalismo e a ecologia, da preocupação com o aquecimento global à alegria de ver crescer as ervas aromáticas. Pelo meio também se vibra com os animais (com nome de gente, numa das muitas brincadeiras com palavras presentes na obra), os legumes da horta e as rosas.capa mão verde

Na Floresta das Máscaras

De Laurent Moreau (Gatafunho). 15,90€

Um caçador chega a uma floresta, deixando todos os animais num alvoroço. Da raposa à coruja, passando pelo tigre e o coelho, todos tentam fugir da espingarda ameaçadora por entre as árvores que conhecem tão bem. A história está nas páginas do livro e nas belas ilustrações de Laurent Moreau (que em Portugal já conhecíamos do título para colorir Dias Felizes), e de repente já está também no quarto de brincar e na rua. Tudo porque este livro não tem apenas palavras e imagens — tem também nove máscaras de papel para destacar e vestir a pele dos animais que mostram quem manda na floresta. Um dos melhores lançamentos na categoria dos chamados livros-jogo.

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A Árvore da Escola

De Antonio Sandoval e Emilio Urberuaga (Kalandraka). 12,50€

No início é apenas uma árvore tímida, ou melhor, um conjunto de ramos finos e quatro folhas secas penduradas. Está ali, no pátio da escola, sem ninguém lhe ligar, até ao dia em que o Pedro resolve acariciar-lhe o tronco e a árvore começa a crescer. Sempre com o mesmo cenário de fundo, até ao fim vemo-la mudar nas páginas da direita do livro, numa história simples que junta o ornitólogo Antonio Sandoval e o ilustrador Emilo Urberuaga, e que deixa uma grande semente: a do contacto direto e interessado com a natureza. A chamada educação ambiental.

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Tão Tão Grande

De Catarina Sobral (Orfeu Negro). 13,50€

Catarina Sobral voltou a fazer das suas e escreveu aquilo que se pode chamar “A Metamorfose de Kafka para crianças”. No seu mais recente livro ilustrado, e depois de obras premiadas como O Meu Avô e Achimpa, a autora volta a piscar o olho aos autores contemporâneos com um protagonista que não acorda igual a uma barata, mas a um hipopótamo gigante. Sem sair do quarto, e com ilustrações a lápis de cera, Tão Tão Grande acompanha toda a perplexidade do seu protagonista quando percebe que tem um focinho que não cabe no espelho, patas que não cabem nas pantufas e até um bigode. Já o final não podia ser mais inesperado.

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Histórias Assim

De Rudyard Kipling e Sebastien Pelon (Bertrand/Círculo dos Leitores). 15,50€

Quase a fechar o ano, e a piscar o olho ao Natal, o grupo Bertrand Círculo juntou 12 fábulas de Rudyard Kipling em livro, numa nova edição de Histórias Assim. Publicado originalmente em 1902 (cinco anos antes de o autor de O Livro da Selva ganhar o Prémio Nobel da Literatura), o volume reúne uma dúzia de contos que Kipling escreveu para a filha Josephine. São, por isso, contos para ler em voz alta, muitas vezes dirigidos à sua “Mais-que-tudo”, e onde o escritor imagina razões mirabolantes para factos que sempre conhecemos. Três exemplos: como o camelo arranjou a sua bossa, como o elefante ficou com uma tromba tão grande ou como se escreveu a primeira carta. Um clássico de qualquer biblioteca infantil, aqui com o bónus das ilustrações do francês Sebastien Pelon.

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Travalengas a Dobrar

De José Dias Pires e Yara Kono (Booksmile). 13,99€

Às tradicionais lengalengas, tão associadas à literatura infantil, José Dias Pires tem respondido com “travalengas”, numa brincadeira de palavras com os trava-línguas que põem quase sempre miúdos e crescidos a rir. Depois de um primeiro volume, o professor lançou em 2016 Travalengas a Dobrar, desta vez com ilustrações de Yara Kono e onde há muito mais armadilhas para a língua do que o tradicional “rato que roeu a rolha da garrafa de rum do rei da Rússia”. Em rima, com trocadilhos e personagens simpáticas como uma minhoca dorminhoca, uma osga pitosga ou um oculista morcego, a palavra é a protagonista principal deste livro, “um feitiço que começa na cabeça e escorrega na garganta até cair no coração”.

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Baltasar, o Grande

De Kirsten Sims (Orfeu Negro). 13,50€

Baltasar é grande em tamanho e em talento. Como se lê logo à primeira página, é o melhor urso violinista do mundo. O problema é que o seu mundo é uma jaula do circo, e ele está sempre sozinho. Na estreia mundial de livros para crianças, a sul-africana Kirsten Sims escolhe um tema ativista — os animais em cativeiro — mas troca os moralismos pela ternura. Quase sem palavras e com paisagens ilustradas a aguarela, guache e tinta-da-china, a também designer constrói um universo próprio e mostra o que acontece quando Baltasar parte à procura do seu lugar no mundo.

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A Grande Viagem do Pequeno Mi

De Sandro William Junqueira e Rachel Caiano (Caminho). 10,90€

Depois de A Cantora Deitada, Sandro William Junqueira volta ao formato do livro horizontal para contar A Grande Viagem do Pequeno Mi. Pela forma, os silêncios e as ilustrações de Rachel Caiano, em que cada dupla página começa como terminou a anterior, há algo de cinematográfico nesta aventura. “Mi deu-se conta de que perdera algo”, lê-lo logo ao início. Primeiro procura-o em casa, depois sai para a rua, onde encontra coisas tão ou mais extraordinárias do que aquilo que perdeu, da rã que ensina a bater palmas em silêncio ao búfalo que gosta de se lambuzar com esparguete. Um livro que só é pequeno em tamanho e nome, porque abre muitas portas, sobretudo na cabeça.

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O Que Estás a Fazer?

De Olivia Cosneau e Bernard Duisit (Edicare). 12,50€

Quem gosta de livros gosta de papel, e quem gosta de papel vai abrir a boca com esta obra, por muitos anos que tenha em cima dos três do seu público-alvo. Podiam ser apenas oito pássaros, mas graças a uma engenharia de papel e a pequenas tiras fáceis de manipular, são pássaros a fazerem coisas, sendo que nenhuma delas é voar.

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Onde Está a Lua?

De Jordi Amenós e Albert Arrayás (Pequena Fragmenta). 13,90€

Inês Castel-Branco continua o bom trabalho à frente da sua editora independente Pequena Fragmenta, e Onde Está a Lua? é apenas um dos exemplos que comprova a sua missão de promover o diálogo entre pais e filhos e ajudar os mais pequenos a pensar. Assinado por Jordi Amenós e Albert Arrayás, o livro transforma uma questão de astronomia — as diferentes fases da lua — num pretexto para puxar pela imaginação, a partir do momento em que um menino chamado Paulo, intrigado com o desaparecimento do satélite natural da Terra, resolve perguntar aos seus amigos o que é que aconteceu à lua. Cada uma das respostas é mais rica do que a anterior — o cão do rapaz, por exemplo, sugere que “talvez a lua seja uma bola gigante de gelado de baunilha e sempre que passa uma estrela-cadente dá-lhe uma lambidela e leva-lhe um bocado”, pelo que “enquanto não chegarem os extraterrestres e voltarem a enchê-la de gelado não a veremos grande e brilhante” — e no final há ainda um guia de leitura para seguir em família onde pais e filhos são desafiados a inventarem novas teorias ou a descrever uma viagem pelo espaço, vista da janela de um foguetão.

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Ké Iz Tuk?

De Carson Ellis (Orfeu Negro). 14,90€

À primeira vista parece que alguém se sentou no teclado antes de imprimir o livro: “Ké iz tuk”? “Mei nazê”, lê-se logo às primeiras páginas. Percebe-se entretanto que entrámos no universo dos insetos, com direito a uma linguagem imaginária cujo sentido se vai tirando através da semelhança com a nossa e, sobretudo, das ilustrações da premiada Carson Ellis. “O que é isto?”, “eu não sei”, é o diálogo que surge quando duas das personagens veem um misterioso caule brotar da terra. Entre a surpresa, a alegria, o medo e a tristeza, o livro vai decorrendo sempre no mesmo cenário: o caule cresce, transforma-se, apodrece, num belo testemunho sobre a transformação da natureza, a mudança constante, a beleza e o seu reverso. Em quatro palavras: o ciclo da vida.

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A Rainha das Cores

De Jutta Bauer (O Bichinho de Conto). 13,90€

Vencedora do Prémio Hans Christian Andersen em 2010, um dos mais importantes da literatura de crianças, a alemã Jutta Bauer veio a Portugal participar no Fólio — Festival Internacional de Óbidos, com esta Rainha das Cores. Aí contou que os seus livros começam quase sempre com um storyboard a preto e branco, um hábito que lhe ficou dos anos a trabalhar em cinema de animação, e a verdade é que também este título começa assim, até Maldiva, a rainha, começar a chamar os seus súbditos: o Azul, o Vermelho e o Amarelo. À medida que o livro se pinta, e que a desordem torna tudo cinzento (através da sobreposição dos vários tons), chegam também as diferentes emoções para descobrir através das cores. Um clássico contemporâneo que tinha tido uma edição portuguesa em 2002 e que este ano voltou, merecidamente, às livrarias.

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