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Marcelino Freire, ossos de um escritor marginal

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"Não me interessa gente bem sucedida, não escrevo livros empresariais", diz o brasileiro, vencedor do Prémio Jabuti. Em entrevista, diz que prefere os gigolôs, as ruas, os travestis. O submundo.

Se as histórias de amor, as cenas de sexo com outros homens, as vivência no submundo são reais, o autor não confirma. Mas também não desmente.

© D.R.

Quem o viu na quinta-feira, ao lado de Valter Hugo Mãe, numa das conversas inseridas no Festival Literário da Madeira, diz que não o vai esquecer. O momento mais alto foi quando o autor brasileiro declamou um dos seus textos, pela forma viva, de ator, como o fez. Antes, já duas professoras na Madeira o tinham contactado, ao saberem que estaria na ilha. Quiseram dizer-lhe que usam o seu audiolivro nas aulas, para que os alunos vejam como se pode vocalizar as palavras.

“Entre os tantos autores brasileiros de sua geração, Marcelino é mestre”, escreve Valter Hugo Mãe, que assina o prefácio do seu primeiro e único romance, Nossos Ossos. Publicado no Brasil em 2013, conta o percurso do dramaturgo Heleno de Gusmão desde que ele sabe que um amor antigo, um gigolô, jaz abandonado em São Paulo, sem ninguém que o vele, sem ninguém que o queira. Enquanto se prepara para a missão de resgatar o cadáver e levá-lo para a sua cidade natal, relembra a sua história de vida. Foi distinguido com o Prémio Machado de Assis da Fundação Biblioteca Nacional, e foi finalista do prestigiado Prémio Jabuti, que o autor sertanejo já tinha vencido em 2006, com Contos Negreiros.

“Famoso agitador do mundo do livro, publicando raro e quase apenas narrativas breves, este é um escritor de maravilha, na esteira dos maiores do seu país, na esteira dos maiores da língua portuguesa“, continua Valter Hugo Mãe. Finalmente, Marcelino chegou a Portugal. Em carne e osso, mas também nos livros, graças à edição de Nossos Ossos pela editora Nova Delphi.

Nossos Ossos é “sobre um uso algo desencantado mas também grato do sexo e do coração”, resume Mãe. Muito do que está naquelas páginas é autobiográfico: também Marcelino nasceu em Pernambuco, também ele se mudou para São Paulo em 1991. Se os romances, as cenas de sexo com outros homens, as vivência no submundo são reais, o autor não confirma. Mas também não desmente. Só diz que, ao contrário do protagonista do livro, que foi atrás de um amor que correu mal, o de Marcelino “correu muito mal”, confessa-nos.

Da entrevista, concedida ao Observador no Funchal, resultou o texto que se segue:

Capa da edição portuguesa, da autoria de Alex Gozblau.

“Quando escrevi Nossos Ossos, eu queria escrever um livro solidário, que pensa no outro. Heleno de Gusmão, um pernambucano que foi morar em São Paulo, é informado da morte do garoto de programa com o qual ele saía. Então, ele começa a se preocupar, não com o corpo vivo, mas sim com o corpo morto. Se ninguém tirar o corpo do Instituto de Medicina Legal, ele vai ficar ali, e Heleno quer depositar o corpo em solo mais sagrado. Ele trava essa luta para devolver o corpo do garoto ao nordeste do Brasil, de onde ele também é.

Foi difícil demais fazer esse primeiro romance. Eu sou conhecido no Brasil pelos meus contos, mas queria alongar o meu fôlego, que é muito curto. Eu fiz um roteirinho, uma história prévia, e a partir dela vou tirar o que é o livro. Mas eu chegava no romance gritando. Os meus contos são gritos, em duas páginas eles fazem um escândalo, dão vexames líricos. Quando eu chegava na página 70 eu estava cansado de gritar, já não sabia para onde eu ia mais. E quem grita não é ouvido. Tinha de encontrar um outro grito. Costumo dizer que quem escreveu os meus contos foi a minha mãe: ela gritava. Para escrever o romance, eu tive de me aproximar do silêncio do meu pai. Diminuí o tom e fui construindo a história nesse tom, nesse sub-grito. Nossos Ossos é dedicado a ele, a meu pai.

Eu sempre trago personagens à margem para o centro do que escrevo. Pego em tudo o que está à deriva. Agora vivo na Vila Madalena, mas eu morei no centro de São Paulo algum tempo e esses personagens do contra me interessam muito. Conheço-os bem. Acho que um escritor que nasceu onde eu nasci, numa família de nove filhos, sertaneja, já nasceu à margem. Só agora chegou água potável à cidade de onde eu venho. Até aqui as pessoas tinham de andar léguas para pegar água. Se eu tivesse continuado lá, eu vou fazer 50 anos de idade na semana que vem e teria ficado 50 anos esperando água.

O nordeste é a margem do Brasil. E dizer que faço literatura no Brasil também é estar à margem. Quando eu quis ser poeta, logo me falaram que isso não traz salvação financeira para uma família que precisava de dinheiro. Estou bem localizado quando escolho esses personagens. Não me interessa gente bem sucedida, não escrevo livros empresariais [risos]. Mas eu vou descobrindo personagens a partir de frases que eu escrevo: é um travesti que esta falando, é um velho, um gigolô. A palavra é o meu personagem.

Nem meu pai nem minha mãe leram o romance. Na verdade, eles eram praticamente analfabetos. E já faleceram. Do que a minha família gosta é do evento. Eu estou aqui na ilha da Madeira, por exemplo, e meus sobrinhos e irmãos estão todos orgulhosos, compartilhando as notícias porque o tio está lançando o romance dele em Portugal. No ano passado, eu estava na China e meu tio estava todo orgulhoso. Eles vão a todos os meus eventos, chamam os professores, eles fazem uma festa. Mas não leem. Eu não vou exigir que eles leiam o livro, mas sei que eles sabem…

Eles vão a palestras, a adaptações do teatro dos meus contos, então indiretamente conhecem a minha história. Como era meu primeiro romance, eu tinha medo de o perder, como perdi outros no caminho. Para que isso não acontecesse, eu peguei na minha historia, de como eu fui para São Paulo por causa de um grande amor, tal como Heleno. É autobiográfico, mas eu exagero para construir o personagem. O dele deu errado. No meu caso o meu amor deu muito errado [risos]. A vida é feita de amores possíveis e de amores impossíveis.

Nossos Ossos foi adaptado para o teatro e eu fui assistir com a minha família. quando os personagens ganharam realidade, as pessoas chegaram para mim no fim: “Mas você ajudou no enterro de um garoto de programa?” Eu digo: “Que eu saiba todos os que conheci estão vivos”. Mas isso é piada [risos]. Ele não sou eu, mas é a partir de mim. Eu não tenho pudor nenhum em pegar emprestado tudo o que eu puder da minha história. O livro também está adaptado para o cinema, este roteiro ganhou um prémio no festival de Sundance. Agora ele vai ser trabalhado no festival e vai ser discutido entre uma equipa de criação, e daí sai com tradução para várias línguas e pode ser que vire filme.

Marcelino Freire declamou um dos seus textos no Festival Literário da Madeira. © Carolina Rodrigues / Nova Delphi

Eu queria fazer do livro, enquanto linguagem, um livro arqueológico. Você vai montando as partes da história, os títulos do capítulo são de ossos do corpo humano, que você vai montando para contar a história. O texto só tem vírgulas porque a vírgula dá a pulsação do texto. E ela significa uma reza. Na reza também não há ponto, só no fim. Já houve pessoas que me disseram que, no final, fica a sensação que acabam a história com a voz do livro no juízo, porque rezaram o livro inteiro. Rezaram por quem? Pelo corpo do garoto. Sou sertanejo e pernambucano, trabalhamos muito com o ritmo, com a voz. Eu escrevo improvisando, uma palavra vai-me dando outra palavra, por isso tem esse ritmo meio cantado, cordelizado. Você conhece a literatura de cordel? Eu não sei improvisar na viola, mas sinto que esse registo vem do facto de eu ser sertanejo.

Agora estou envolvido no meu novo romance. Vai sair esse ano, chama-se Decomposição. Eu dificilmente releio os meus livros. Quando termino, entrego para o meu leitor. Mas quando saiu a edição portuguesa fui reler, e aparece um capítulo que termina com a palavra “decomposição”. Já estava lá! Eu trouxe a cópia do romance aqui para a ilha, para dar uma relida, estou pensando em mudar algumas coisas. O novo romance continua numa trajetória de teatro. É a história de um ator com 80 e poucos anos na noite do seu suicídio. Ele se mata, muito tranquilamente, mas aí me perguntei: o que acontece com alguém que tinha tanta certeza que queria morrer? Ocorre uma suspeita de que ele foi assassinado, então a morte dele vira um questão e o livro vai-se decompondo aos poucos na estrutura.

Nessa vez não há elementos autobiográficos, não. Mas a pulsação do texto também e outra, embora se encontre lá também elementos sonoros. Está dividido por cenas, cada cena é um parágrafo único. Não tem muitas burocracias, eu detesto uma linguagem muito burocrática, não tem ” ela disse, ele disse, ele respondeu, ela respondeu”. As pessoas elogiam muito Saramago. Ele tira a pontuação de tudo, fica difícil de ler, mas o que ele fez foi a sua pulsação do texto. E quando um texto pulsa, você pode fazer uma confusãozinha.”

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