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Rui Rio é um “corredor de fundo”. Mas daqui até março “já só são 1500 metros”

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Para falar de autarquias em Leiria, nem uma palavra sobre o Porto. Rui Rio foi velocista mas com a idade tornou-se corredor de fundo. Ao Observador admite que faltam 1500m para uma disputa do PSD.

JOSÉ COELHO/LUSA

Corrida de meio-fundo e fundo são modalidades do atletismo que correspondem, respetivamente, às distâncias de 800 a 3.000 metros, e de 5.000 metros à maratona. Fundistas são aqueles atletas que são especialistas nas distâncias acima de 5.000 metros, e meio-fundistas nas distâncias inferiores a 3.000 metros. As provas de meio-fundo exigem um pouco mais de velocidade e agilidade do que as de fundo. As corridas de fundo que constituem os grandes eventos de atletismo são os 5.000, 10.000 metros e a maratona (42.195 metros).

Basta uma pesquisa rápida no Google para que quem não conheça a gíria do atletismo possa ficar por dentro dos termos. É que foi assim, como corredor de fundo, que o ex-autarca do Porto e eventual candidato à liderança do PSD, Rui Rio, foi apresentado esta tarde pelo deputado Feliciano Barreiras Duarte, que moderava o painel dedicado ao papel da gestão na política autárquica. “Licenciado em Economia pela Universidade do Porto, fez parte da associação de estudantes e foi atleta federado em atletismo como corredor de fundo (…)”. Estavam feitas as apresentações, ainda que Rui Rio seja uma “pessoa que quase dispensa apresentações”, ainda para mais numa plateia de autarcas e dirigentes social-democratas do distrito de Leiria.

Mas quando subiu ao palanque para tomar a palavra, o ex-presidente da câmara do Porto começou logo por fazer uma correção: “O Feliciano disse que eu era um corredor de fundo mas eu quando praticava atletismo corria os 100 metros, corria em velocidade. Só que nessa altura tinha 20 anos. E a idade é assim mesmo, vamos fazendo as coisas mais devagar, mais à la longue, disse, suscitando risos na plateia, fazendo associações óbvias com a hipótese de Rui Rio vir a ser o adversário de Pedro Passos Coelho na corrida à presidência do partido no próximo congresso do PSD.

Ou seja, Rui Rio passou de velocista a corredor de fundo. Mas quer isto dizer que daqui até fevereiro ou março, altura em que, já fechado o ciclo das autárquicas, terá de haver diretas no PSD para eleger (ou reeleger) o líder, a corrida ainda vai ser de fundo ou já vai ser em velocidade? Ao Observador, Rui Rio arriscou o tamanho da pista: 1500 metros. Esta distância, nos conceitos do atletismo, já não entra nos parâmetros da corrida de fundo.

Eu era bom nos 50 metros, mas isso seria já junho, e até junho só mesmo a vinda do Papa. Daqui até março são 10 meses, o que é mais ou menos o equivalente a 1500 metros. Já não é bem uma corrida de fundo, corrida de fundo são os 5 mil metros”, disse, quando questionado sobre se daqui ao congresso do PSD de fevereiro ou março (data previsível segundo o calendário ordinário) a corrida ainda era de fundo ou se já era em velocidade.

A verdade é que Rui Rio é apontado há muito como potencial candidato à liderança do PSD, mas nunca chegou a avançar. Em novembro, contudo, numa entrevista ao Diário de Notícias, deu mostras de querer avançar. “Se PSD não descolar, é expectável que apareça uma alternativa em 2018”, disse, apresentando depois uma série de “ses” para essa alternativa vir a ser ele próprio.

“Perceber se os apoios que eu possa ter são convictos e se acreditam mesmo em mim. Se as outras alternativas são suficientemente credíveis e robustas para servirem o PSD e o país. Se há espaço para implementar o fundamental das minhas ideias e da minha maneira de ser, que como sabe tendem a ser um pouco disruptivas relativamente à política na sua forma mais tradicional. Se sinto condições para gerar uma dinâmica de mudança e de desenvolvimento em Portugal. E, até, se tenho os inimigos políticos corretos”, disse na altura.

Este sábado, Rio foi um dos convidados da distrital de Leiria para ser um dos oradores da II convenção dos autarcas do PSD do distrito, que se realiza em Pombal, a poucos metros de onde se vai realizar, esta noite, o jantar de aniversário do PSD, com a presença do presidente Pedro Passos Coelho. Uma escolha de local que não passou indiferente ao deputado e presidente da mesa da assembleia distrital do PSD de Leiria, Feliciano Barreiras Duarte que, num artigo de opinião publicado este sábado no jornal Sol, notou que o PSD vai celebrar o seu 43º aniversário “num território laranja inspirador, porquanto verdadeiramente e coerentemente social-democrata, que nunca foi permeável a derivas liberais exageradas”. E num tempo em que o país “já não é o mesmo do que deu vitória eleitoral ao PSD/CDS em outubro de 2015”. Tudo recados para Pedro Passos Coelho.

Um sentimento de mudança e de encerrar de um ciclo que foi também manifestado, ao Observador, pelo líder da distrital social-democrata de Leiria, Rui Rocha, que admite haver um pré e um pós autárquicas para o partido. Primeiro estão as autárquicas, e até lá é preciso união, depois, e independentemente do resultado, logo se vê. “Há tempo para tudo, primeiro estão as eleições autárquicas, depois, a partir de outubro, poderá abrir-se o debate sobre a direção nacional. É natural que, com a proximidade do congresso, que será em fevereiro ou março, apareçam outros candidatos”, diz ao Observador.

“Quem deu cabo das finanças públicas não foram as autarquias”

Dando o exemplo dos seus 12 anos de gestão autárquica no Porto, Rui Rio falou perante uma plateia pouco cheia de autarcas e dirigentes do PSD do distrito de Leiria para explicar como se gere uma autarquia: fundamentalmente como uma empresa privada, em que os acionistas são os contribuintes. As “contas à moda do Porto” não passaram ao lado da sua intervenção, com Rui Rio a congratular-se por ter tido superávit em todos os orçamentos camarários, à exceção daqueles que incidiram sobre as obras para o euro 2004. “Só com uma receita superior à despesa é que eu consigo pagar dívida”, constatou.

Para Rui Rio, a verdade é que os problemas das contas públicas não passam tanto pela má gestão do poder local, mas sobretudo pela má gestão da administração central. “Quem deu cabo das finanças públicas não foram as autarquias, foi a administração central. Claro que há câmaras mal geridas, e outras assim-assim, há de tudo, mas no global não há má gestão do poder local”, disse, assumindo-se regionalista convicto e defendendo um debate “sério e sensato” sobre a regionalização. “Porque é fácil de perceber que quanto mais perto estamos dos problemas menos erramos, e conseguimos fazer mais com menos recursos e menos dinheiro”, disse, afirmando que a regionalização pode mesmo ser o caminho para a redução da despesa pública.

Mas as lições foram várias e não se ficaram pela gestão das finanças públicas de uma autarquia. Passaram também pela gestão da política aplicada às autárquicas, porque “o presidente da câmara é sempre um cargo político e não podemos esquecer a vertente da gestão na política“. Sobre isso, também Rui Rio tem conselhos a dar: primeiro, antes de uma pessoa avançar para a candidatura, tem de “ser capaz de identificar quais são os principais estrangulamentos que estão a impedir o desenvolvimento do concelho”. Depois, com isso, o já candidato tem de “estabelecer as prioridades políticas e fazer o programa de candidatura”. E então depois, se ganhar as eleições, tem de perceber se aquelas prioridades que estão inscritas no programa são mesmo os estrangulamentos principais que é preciso resolver, e, se forem, então tem de ter uma “convicção de ferro para os resolver”. “Porque os obstáculos vão ser muitos”, disse.

Convicção e coerência, foram os principais conselhos que Rui Rio deu aos autarcas e futuros autarcas presentes na sala. Conselhos que, de resto, servem para a gestão autárquica como para a gestão central. “Temos de ser coerentes em torno daquilo que estamos a fazer. No fim podemos ganhar ou perder as eleições, e podemos depois fazer ajustamentos, mas no essencial não podemos fugir às nossas convicções”, sublinhou.

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