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Fogo de Pedrógão Grande

O inferno passa duas vezes por Figueiró

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A tragédia fica associada ao lugar de Pedrógão Grande. Mas, ali ao lado, em Figueiró dos Vinhos, a imagem das chamas terá trazido à memória o "inferno" de há mais de meio século.

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Valeu-lhes o túnel da mina para evitar o flagelo humano. Uns 5o metros terra dentro que abrigaram muitas das pessoas da vila das chamas que avançavam em força sobre Figueiró dos Vinhos. Foi há 56 anos. Meio milhão de árvores queimadas, 2.500 hectares de pinhal transformado num manto negro, 185 desalojados. Dois habitantes morreram — um por asfixia, outro queimado pelas chamas. Foi a 28 de agosto de 1961.

O “inferno”, como descreveu a cena uma das testemunhas do incêndio, foi recordado em 2011 pelo jornal regional “A Comarca”, numa reportagem em que se recupera a luta pela vida de dezenas de habitantes. Estiveram em risco de desaparecer do mapa 14 localidades do concelho e, em Vale do Rio, 35 das 49 casas foram totalmente destruídas. “Se me lembro desse incêndio, ai se me lembro”, contou ao jornal José Simões, 50 anos mais tarde. A frente chegou a ter 15 quilómetros de comprimento — ia da Atalaias a Arega (do concelho de Pedrógão Grande ao de Figueiró dos Vinhos).

Como muitos outros, assim que percebeu a dimensão da tragédia que se anunciava, José Simões pegou na família — a mulher e dois filhos, um de um ano e outro de dois meses de idade — e levou-os para o túnel da mina. Ficaram com um presunto e uma broa. José voltou a sair para repetir os mesmos gestos que os vizinhos. Baldes nas mãos, tentava combater o fogo que tomava conta da terra. “O gado morreu carbonizado dentro dos currais, ainda soltou um porco mas acabou por morrer na fuga, encosta abaixo em direção ao rio”, recorda o repórter, através do relato do octogenário. “Nesse dia, vi pessoas que não se falavam havia anos darem água a beber umas às outras, naquelas horas de aflição”, recordou José Simões. A tragédia tem o dom de enterrar as feridas mais profundas.

O “pânico” tomou a dimensão da vila quando os sinos da igreja dobraram, já passava das 14 horas; o fogo tinha-se mostrado pela primeira vez pouco depois das 11h da manhã. Antes, como agora, os militares vieram juntar números aos bombeiros, que já tinham juntado braços aos braços dos populares; todos eram poucos para fazer frente às chamas que assumiam “proporções dantescas”.

A vila ficou por terra. A reconstrução começou no ano seguinte e só ficou terminada em 1964. O Presidente da República foi a Figueiró dos Vinhos para associar a presença do Estado ao novo despertar da terra. Foi recebido com confetis verdes e vermelhos, coisa nunca vista por aqueles lados — por onde nenhum chefe de Estado tinha passado até então. Porque ardeu Figueiró dos Vinhos nesse agosto de 1961? Essa foi a pergunta que ficou sem resposta.

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