Crítica de Restaurantes

Há muita Itália no Il Mercato, menos na carbonara

Sebastião Carolino costuma dizer que Itália é o melhor país do mundo e um dos motivos é a comida. Foi ao Il Mercato com altas expectativas mas nem toda a massa fresca dá felicidade.

© Tiago Pais / Observador

Autor
  • Sebastião Carolino

Os italianos sabem bem o que é a vida, o resto da humanidade apenas tenta descobrir e na maior parte dos casos não consegue chegar a parte nenhuma. Fazer tudo de forma simples, ligar pouco a horários, regras e outros aborrecimentos do género. E na comida seguiram o mesmo mandamento. Os pratos aparentemente menos ambiciosos podem ser os melhores do mundo. Depois, claro, quem os faz e como os faz pode transformar o resultado final num encanto ou numa desilusão. E é mais ou menos isto que todo o esfomeado quer descobrir quando entra num restaurante italiano: estes tipos sabem trabalhar a matéria ou não?

Era essa a dúvida que tinha quando cheguei ao Il Mercato, um restaurante italiano em Lisboa que logo à entrada tem um espaço que é uma charcutaria/mercearia com produtos importados e que funciona como um bonito primeiro beijo. Ao mesmo tempo, fiquei meio confuso porque o espaço não é lá muito italiano, isto ao nível da decoração. Mas convenhamos, não é preciso seguirmos sempre o mesmo cliché das toalhas aos quadrados e do Dean Martin a cantar “Amore”, pois não?

O Il Mercato é mais uma das casas do chef Tanka Sapkota, o nepalês que namora Itália como poucos e que já era responsável pelos restaurantes Forno D’Oro e Come Prima, também em Lisboa. Ou seja, experiência e currículo não lhe faltam, mas três restaurantes com filosofias tão parecidas, fará sentido? A julgar pela casa cheia numa noite a meio da semana, faz bastante. Então e a comida? A carta é variada, mas quis provar alguns dos pedidos mais habituais de quem procura este tipo de ementa. Foi mais ou menos isto que aconteceu:

Veja aqui mais imagens do Il Mercato

© Tiago Pais / Observador

Focaccia. Chega à mesa antes de tudo o resto, porque ele há tradições que nunca se estragam. É um pão gordo e guloso, mas não é mais que isso. Vai bem com azeite e serve de boa companhia enquanto o resto não chega à mesa. Mas a verdade é que a focaccia pode e deve ser bem mais que um desbloqueador de conversa. E não é difícil encontrar melhor.

Burrata com trufa artesanal. Aqui a coisa já muda de figura. Burrata cremosa por dentro e com a estrutura da mozarella por fora. Como se quer, freskifofa, uma gulodice acompanhada de trufa na medida certa, para dar sabor mas sem querer ficar com o protagonismo todo. Boa ao ponto de ficar a treinar o italiano enquanto repito “burrata, burrata, bu-rra-ta” umas quantas vezes, como se fosse Marlon “Corleone” Brando.

[já agora, o vinho escolhido foi o Santa Cristina Sangiovese tinto e fez o que tinha a fazer com distinção]

Lombo de novilho curado com azeite e aipo. Não há aqui grande ciência, tem é de haver cuidado na qualidade dos ingredientes e na forma como são apresentados. Importa o corte do lombo, como se fosse carpaccio. Importa a acidez do azeite e a quantidade de aipo. E importam aquelas lascas de parmesão que ligam tudo. De repente, só desejo ter uma faca a sério e treinar-me como fatiador profissional, dar show off enquanto abro garrafas de vinho para gente contente e razoavelmente ébria, quero ser a razão da felicidade de alguém, percebem? Depois acalmo-me porque em breve chegam os pratos principais.

[uma empregada prepara a mesa para o que se segue e temos este curto diálogo:]

– Desculpe, queria uma faca.
– Ah, isso não vai poder ser…
– Então?
– O chef não autoriza facas nas mesas, a não ser que sejam usadas para cortar carne. Para comer a massa deve ser usado o garfo com a colher. É a tradição.

[Bom, isso da tradição enfim… e é mais provável encontrar italianos a comer massa apenas com um garfo e mais nada. Mas apresentar os três talheres na mesa e deixar a decisão para o cliente poderá ser uma boa ideia. Não é preciso sermos fundamentalistas com isto, amigos.]

Ravioli de carne e presunto de Parma com molho de tomate e stracciatella. A dose certa de carne para a dose certa de massa, num dos pratos mais divertidos na história da cozinha mundial, vá. Quem é que não gosta de comer estas delícias aos quadrados? Inteiros ou aos pedaços? Esta simples decisão pode ser uma escolha de vida naquele momento e isso é fantástico. Estes ravioli em particular funcionam como surpresas de cada vez que um deles vai à boca. Algo como “hmmmm, isto é uma delícia, vou comer outro… hmmmm, que delícia que isto é, vou comer mais um”, e assim sucessivamente. Como se o meu cérebro quisesse esquecer propositadamente o sabor em causa só para o querer experimentar outra vez. E outra. E mais uma. A que é que isto sabe mesmo?

Esparguete carbonara alla romana. A massa, faceira de porco, parmesão, pecorino e aquela gema de ovo que transforma esta receita simples numa experiência potencialmente inesquecível… a não ser que seja vivida no Il Mercato. Aqui, esta carbonara promete porque parece bonita (apesar do empratamento demasiado esforçado) mas falha porque não tem atitude. É como alguns de nós mas isso dava conversa para um especial e este artigo não se quer assim tão longo. Enrolamos o esparguete no garfo (quero lá saber da colher, pá), provamos o dito, porta-se bem no primeiro grau de paladar, no al dente da massa, mas não chega ao nível que interessa, aquele que ativa o mecanismo da memória. A eterna demanda por carbonaras de referência promete continuar.

[o cuidado dos empregados é tal que não consegui contar bem a quantidade de vezes que me perguntaram “está tudo bem?”, “gostou?”, “falta alguma coisa?”… sabe bem, mas às tantas é esquisito]

Tiramisu. Sim, tiramisu, claro, que mais podia ser. E estava perfeito. Tudo certo, tudo doce e guloso e cremoso. Como assim, não vendem isto às caixas, para fora? A sério, como assim? Só mais uma rápida aula de italiano intensivo: “mascarpone, mascarpone, mas-car-po-ne…”

O serviço do Il Mercato é impecável. De tal maneira que esperar seja pelo que for parece coisa impossível. É tudo rápido, estão todos atentos. Há empregados por toda a parte e convém que assim seja porque a sala é bastante grande (fora a esplanada, quando o tempo está bom a correria deve ser bonita). Tudo vai bem, o preço é justo e a simpatia é generalizada. Não fica na memória e não é um daqueles casos em que basta o nome do restaurante para motivar um salivar pavloviano. Mas às vezes só queremos comer com a certeza que não vamos ao engano. E este Il Mercato cumpre bem a função. Menos quando o assunto é carbonara (desculpem a insistência mas fiquei triste).

+Info:

Il Mercato: Rua da Artilharia 1 nº51, Páteo Bagatela, Lisboa. Almoço: terça a sexta das 12h às 15h; sábados, domingos e feriados das 12h30 às 15h. Jantar: terça a domingo, das 19h às 23h (fecha à segunda-feira).
Telefone: 211 930 94
Preço médio: 25 euros por pessoa, mais ou menos isso.
Ambiente: uma espécie de clássico-moderno, ou quando o gosto duvidoso da decoração não impede que a vontade da gerência seja a da elegância no serviço.
Banda sonora: os clientes, os empregados, os talheres e os pratos. É que não me lembro de ter ouvido uma cantiga uma musiquita que fosse.
Serviço: muito bom, não é preciso esperar por nada e não é preciso fazer sinal a ninguém.

#dicacerta: não gosta de falar ao telefone mas faz questão de reservar as mesas onde come? Pois bem, o Il Mercato é o seu restaurante porque tem um ótimo sistema de reservas online que funciona mesmo.

Rua da Artilharia 1 nº51, Páteo Bagatela

Sebastião Carolino já esteve em Itália algumas vezes. Gostou especialmente de tudo e ficou particularmente fã de uma série de coisas.

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