Crítica de Restaurantes

N’O Watt só as vieiras fizeram curto-circuito

O restaurante do chef Kiko (perdão, Francisco) foi visitado por Sebastião Carolino. Tudo correu bem menos uma momentânea falta de energia num certo prato. A conta parece a da luz quando há acertos.

Que bem ficavam aquelas mesas e cadeiras lá em casa

© Francisco Rivotti

Autor
  • Sebastião Carolino

Quantas vezes já foi jantar ou almoçar à sede de uma empresa? Não, a sua não conta. Falo de ir voluntariamente a um espaço empresarial que não tem nada a ver consigo ou com a sua profissão. Poucas vezes, não é? Certamente será unânime que até à abertura d’O Watt, o novo restaurante do chef Francisco Martins (tratá-lo-ei assim em vez de “Kiko”, diminutivos não é comigo) que fica no edifício ribeirinho da EDP, em Lisboa, um cenário deste género nunca terá acontecido.

Nunca tinha havido um restaurante pensado, com pés e cabeça, para fazer parte de uma realidade destas. Em vez disso, sempre existiram aqueles “tascos” a que chamamos de cantina ou cafetaria onde é sempre possível pedir um folhado misto a saber a sonasol ou um croquete com recheio de gravilha. Um sítio destes parece-lhe a escolha certa para um primeiro encontro, um jantar de aniversário ou uma refeição com os sogros? A minha opinião tende para o “não” e creio que a maioria pensará da mesma maneira. Daí este O Watt (irritantes, estes artigos definidos nos nomes dos restaurantes do chef Francisco) ser uma surpresa muitíssimo agradável.

Subtileza e uma elegância que quase intimida: é só isto que se vê quando chegamos à porta do restaurante, que fica no piso térreo do magnífico edifício da energética nacional. Tudo escuro, em vidro, e só se vê o néon branco que indica o nome do espaço. À entrada, depois de atravessarmos umas cortinas espessas, chegamos ao bar. “Uau!” — não há como evitar a interjeição. “Aceitam o cocktail da casa, o Ampere?”, pergunta-nos uma simpática jovem. “Claro que sim!”, respondo. Afinal, como se poderia recusar uma bebida com um nome que não só tem pinta como é bastante inteligente? Assim foi. Sentei-me numa zona meio lounge, junto ao bar, enquanto a mixórdia verde clara (a bebida tem como base gin, coentros e gengibre) ia escorregando garganta abaixo. Doce, refrescante e muito bem equilibrado — onde raio andou este cocktail durante o calor do verão/outono que já acabou?

O viciante Ampere. © Francisco Rivotti

Ah, a importância das primeiras impressões. Sobre isto, as dúvidas foram-se dissipando ao longo do corredor que une o bar com a gigantesca zona de refeições. Fomos acompanhados pelo simpático chefe de sala que me deixou, a mim e à minha companhia, sozinhos, mal acabou de ajeitar as cadeiras onde nos sentámos. Bolas, isto é um espaço mesmo bonito. Os pratos, os talheres, a decoração, as cadeiras… se pudesse levava tudo para casa. A juntar a isto, há também o espírito de “formalismo descontraído” que dá uma grande sensação de “aqui está-se muito bem”, especialmente tendo em conta que não gosto de salas de refeição selvagens, seja por culpa da música ambiente demasiado alta ou da convivência com comensais demasiado excitados. Aqui não há nada disso, é tudo muito cool.

Já sentados, depois de nos servirem o couvert, que é composto por dois tipos de flat bread (um simples e outro de alfarroba) e dois molhos, um tzatziki (o pepino estava ligeiramente grande demais) e um romesco, chega a carta. Vamos a ela.

O couvert: flat bread com tatziki (à esq.) e o molho romesco (à dir.). © Francisco Rivotti

“No Watt não usamos açúcares refinados nem frituras”, avisaram logo de início. Tudo certo, parece-me bem que existam estas preocupações, por muito que acabem por ser sempre confundidas com manobras de marketing. A ementa é simples, existem apenas cinco entradas, seis pratos principais e quatro sobremesas, manobra que demonstra alguma inteligência na construção de menus (sempre que forem a um restaurante cuja carta pareça uma lista telefónica, suspeitem: como se consegue garantir a frescura de tanto alimento diferente?). Contudo, é um bocado piroso atirar lá pelo meio alguns pratos dos outros restaurantes do chef Martins. Percebe-se o porquê, mas pode ser confundido com preguiça de criar coisas novas.

Enfim… este foi o pedido:

Tomate Bio com Burrata. “A sério? Vais mesmo pedir isso?”, perguntaram-me. Sim, claro. É nas coisas mais simples que se percebe a qualidade ou a falta dela. Mesmo assim, achar que este prato é simples é um bocado enganador. Tomates pequenos, de diferentes variedades, são descascados e marinados antes de serem servidos envoltos num suave naco de burrata, esse maravilhoso queijo italiano. Tudo isto (ah! há também uma espécie de telha crocante de tomate) é polvilhado com umas esferificações de vinagre balsâmico. Comia facilmente, pelo menos, mais duas doses disto. Delicioso, molto benne!

O tomate bio com burrata. © Francisco Rivotti

Borrego Médio Oriente. Ora aqui está um tipo de carne que adoro, desde os tempos em que via a minha avó a fazê-lo no forno, comigo a tentar enfiar o dedo na massa de pimentão. Este é servido com grão de bico, espargos e iogurte com za’atar (especiaria do Médio Oriente) e pistachio. É um prato que tem tanto de lindo como delicioso: carne cozinhada na perfeição e um equilíbrio de sabores (que podia ser tramado de achar, dada a pujança do za’atar). Avó, o teu borrego continua a ser o melhor, mas põe-te a pau.

Vieiras Mexicanas. Todos já devem ter visto aqueles vídeos “engraçados” que vão circulando pelos nossos feeds facebookianos. Há uns tempos vi um em que um ciclista estava quase a chegar à meta, começa a celebrar, mas depois é ultrapassado à última hora. Este episódio faz-me lembrar o que aconteceu com as vieiras que me calharam. Tudo corria às mil maravilhas até chegar este prato. Das seis vieiras servidas (dose bem generosa, diga-se) pelo menos quatro vinham mal cozinhadas, meio encruadas. A polenta que as acompanha também é excessiva — um paralelepípedo preto (da tinta de choco) demasiado grande e pesado. Entende-se que não querem que passemos fome, mas a coisa podia ser um pouco melhor equilibrada. O picante do prato, por sua vez, foi muito interessante e arrojado.

As vieiras mexicanas. Estas estão todas no ponto, as minhas nem por isso. © Francisco Rivotti

Abacaxi, iogurte e pinhão. A pièce de résistance, a sobremesa que fechou a experiência. Num prato muito bem parecido, chegou-nos à mesa com abacaxi grelhado e a espessura de uma folha de papel, acompanhado de uma quenelle de gelado de iogurte e um bolo (o miolo do bolo, vá) de pinhão. Sabor agradável mas pouco desafiante, muito inócuo, de certa forma. No geral foi OK, mas precisava de algo mais a nível da textura.

De barriga cheia, e ligeiramente menos contente do que estava à chegada, segui para a saída a caminho de receber a dolorosa. E que dor foi. Tudo isto somado deu em 94€, quantia elevada mas de certa forma compreensível (éramos dois, não sei se já falei deste detalhe). Contudo, se olharmos para preços de outros restaurantes em Lisboa de patamar mais elevado, conseguimos encontrar preços semelhantes. Ou seja, pode-se comer ainda melhor e por um preço não muito superior. Vale o que vale. Não deixa de ser uma experiência, no geral, muito agradável — mas guardem-na para ocasiões especiais, caso contrário arriscam-se a não conseguir pagar a conta da luz.

+Info:
O Watt: Edifício Sede EDP, Avenida 24 de Julho, 12, Lisboa; aberto todos os dias, das 12h às 17h e das 19h às 24h; telefone: 308 802 539
Preço médio: 40 euros por pessoa
Ambiente: Aquela onda vintage cool que tantas vezes é maltratada, aqui encaixa como uma luva. Um dos espaços mais bonitos da cidade. Há muitas mesas, mas não é por isso que se torna confuso ou barulhento.
Banda sonora: Igualmente fixe, muito virada para o r&b e o hip-hop.
Serviço: Cinco estrelas. Absolutamente nada a apontar.

#dicacerta: se estiver com um orçamento mais reduzido, resista à tentação de aceitar o cocktail de boas vindas (o tal Ampere) que lhe vão propor logo à entrada: o bolso vai agradecer. Caso possa esbanjar, beba os que quiser, vai valer a pena.

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