Dança

Marcelino Sambé: “A dança clássica tem-se perdido muito em Portugal”

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Em Londres há sete anos, Marcelino Sambé é um dos 30 jovens mais brilhantes da Europa, segundo a Forbes. Falámos com o bailarino português e recordamos o seu percurso.

Helen Maybanks

Autor
  • Ana Luísa Alves
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Tudo em Marcelino Sambé é dança. Nasceu no dia 29 de abril de 1994, dia Mundial da Dança, e até aos 10 anos esteve num grupo de dança africana, entrou para a Escola de Dança do Conservatório Nacional, em Lisboa, e hoje é bailarino solista no Royal Ballet, em Londres. Tudo em Marcelino Sambé, além da dança, são sonhos — muitos deles já realizados.

Sente que, de algum modo, é um orgulho nacional?
Adoro pensar que sim, e que estou a levar a dança portuguesa a outros patamares. Há muitos bailarinos portugueses que são fantásticos, grande parte contemporâneos, mas eu, enquanto bailarino clássico, fico muito feliz por ter atingido o que já atingi, sobretudo em Inglaterra, que para mim é um dos epicentros da dança clássica.

Marcelino tem apenas 23 anos, há cinco que trabalha como bailarino profissional e há sete que vive em Londres. É primeiro solista no Royal Ballet, onde chegou com apenas 16 anos, depois de ter ganho uma bolsa de estudos com a participação no concurso de dança Prix de Lausanne, onde conseguiu em 2010 o primeiro lugar:

No Royal Ballet as conquistas de Marcelino Sambé sucedem-se também ano após ano: terminou os estudos no ano letivo de 2012/2013, foi promovido a primeiro artista no ano seguinte, tornou-se solista em 2015 e em 2017 atingiu o nível de primeiro solista. Já fez bailados como “O Sonho”, “O Quebra-Nozes”, “Romeu e Julieta” e, um dos mais conhecidos, “A Bela Adormecida”.

A rotina, nos últimos anos, não se alterou muito. Às 10h30 da manhã começam as aulas de dança, mas Marcelino Sambé chega uma hora antes para uma aula de pilates. De tarde há ensaios até as 18h30 se não houver nenhum espetáculo marcado, ou até às 17h30 se houver. Durante a semana os bailarinos podem ter, no máximo, quatro exibições, ao sábado podem ser dois espetáculos e, por norma, ao domingo têm direito a descanso.

Como vê o seu percurso até agora?
Tem sido uma carreira de muito trabalho. Normalmente as pessoas não conhecem muito do que faço durante o ano, porque no início da minha carreira fazia cerca de 200 espetáculos por ano, com papéis mais pequenos e outros maiores. É uma viagem muito difícil e trabalhosa, mas muito feliz, e um percurso que eu queria que tivesse acontecido assim.

Royal Opera House / © Bill Cooper

Além de ser bailarino solista na companhia, Marcelino Sambé foi também eleito um dos melhores e mais novos coreógrafos em 2012 pela Youth Dance England, a organização inglesa que distingue os jovens talentos da dança.

Um dos 30 jovens mais brilhantes da Europa

Sambé conta com uma vasta experiência no mundo da dança, traduzida em vários prémios. Em 2008, com apenas 14 anos, ganhou a medalha de prata na Competição de Ballet Internacional em Moscovo, o primeiro prémio no Youth American Grand Prix em 2009, e ainda a medalha de ouro na Competição Internacional de Ballet nos Estados Unidos em 2010.

Há poucos dias, Marcelino Sambé foi distinguido pela revista Forbes como um dos 30 jovens mais brilhantes da Europa, com menos de 30 anos. Estava de férias no Brasil quando soube da novidade, através de uma amiga que o identificou numa publicação no Facebook.

A distinção de uma revista como a Forbes tem mais ou menos importância que outro prémio?
Esta distinção tem um pouco mais de peso e sinto-me mais responsável. Era algo inesperado para mim, mas espero que nos próximos anos, pelo menos até aos 30, possa continuar a ser considerado um dos mais brilhantes.

Mas esta não é a primeira vez que Marcelino Sambé é distinguido. Em 2015, o jornal inglês The Independent considerou o bailarino como um dos artistas a não perder de vista, nesse ano. Uma distinção que foi sinónimo de “mais motivação para trabalhar”, para se focar na dança e ser ainda mais ambicioso.

Londres, o “epicentro da cultura”

Muitos dos alunos do Conservatório Nacional saem do país e estão hoje em companhias um pouco por todo o mundo. O Ballet Bolshoi, um dos mais cobiçados, é o destino escolhido por grande parte dos bailarinos, mas nem isso demoveu Marcelino do sonho de chegar ao Royal Ballet.

Porquê Londres e não outra companhia noutra cidade qualquer?
Acho que a Royal Opera House é a melhor escola do mundo, temos as maiores produções de bailado. A Rússia não combina com a minha personalidade. Acho que para sermos bons artistas temos de viver confortavelmente num país onde não haja preconceito nem falta de respeito. Gosto de Inglaterra porque sinto que há uma certa etiqueta que já não existe em muitos países. As pessoas tratam-se bem, são respeitadoras e organizadas, e isso faz com que o mundo artístico do ballet funcione melhor.

Royal Opera House / ©Tristram Kenton

Para Marcelino a vida é feita de balanços: o foco na carreira e um grupo de amigos com quem possa partilhar as suas maiores conquistas. Para o foco na carreira, valeu-lhe a “experiência feliz” que teve no Conservatório, em Lisboa, onde contou, desde sempre, com o apoio dos professores, que o mantiveram “de cabeça fria e pés assentes no chão”, mas que também o fizeram sentir-se especial.

Embora reconheça que o ensino da dança em Portugal é bom, e lhe tenha dado boas bases, Marcelino confessa que gostava que o apoio às artes fosse maior. Sempre que vem a casa, aproveita para ver alguns espetáculos de dança e música, mas entre a dança clássica e a contemporânea o bailarino sublinha que as discrepâncias ainda são visíveis.

À distância, como avalia o estado da dança em Portugal?
Infelizmente acho que a dança clássica se tem perdido muito. É muito interessante ouvir, por exemplo na Gulbenkian, grandes concertos de Tchaikovsky, Stravinsky, com boas orquestras e casa cheia, mas parece que quando há produções de dança clássica não há muita aposta, mesmo ao nível dos mecenas. A dança clássica é mais cara, porque há que pagar as sapatilhas de pontas, os fatos, os massagistas, os fisioterapeutas… tem de haver maior aposta, porque a dança clássica é a base de todas as outras.

Para Marcelino Sambé, os palcos portugueses também não ficaram esquecidos, mas a vida com que sempre sonhou é vivida, desde 2012, em Londres. Embora regresse a casa sempre que pode, a última vez que atuou em Portugal foi em 2015, no Teatro São Carlos, para dançar “A Bela Adormecida” e numa breve participação no programa “Achas Que Sabes Dançar?”, da SIC.

Royal Opera House / © Helen Maybanks

Que objetivos tem por concretizar?
Os meus sonhos começaram muito cedo, aos 10 anos. Depois, aos 17, vim para Londres e poder estar no Royal Ballet era outro sonho. Dentro da companhia, o maior objetivo era chegar a bailarino principal, ir de patamar em patamar. Isto para mim é uma luta pessoal e eu quero conseguir chegar cada vez mais longe.

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