501, as calças de ganga com quase 150 anos de história

06 Abril 2017740

As primeiras 501 da Levi’s nasceram em 1873. Passaram-se quase 150 anos e as calças continuam na moda, com direito a arquivo e a um novo documentário. História de um ícone, dos cowboys a Steve Jobs.

Se estiver a usar calças de ganga – e há uma grande probabilidade que esteja, já que segundo a historiadora da Levi’s cerca de “50 por cento das pessoas no mundo vestem calças de ganga diariamente” – pode agora olhar para os cantos dos seus bolsos e fixar um pormenor que tende a passar despercebido: as pequenas peças de metal presas nos cantos das costuras. Chamam-se rivets e, apesar de pequenas, foram elas que definiram o sucesso da Levi’s, primeiro, e, logo depois, a forma como até hoje se usam calças de ganga.

“Aquilo que nós definimos como o nascimento das blue jeans aconteceu com o registo desta patente a 20 de maio de 1873 pela Levi Strauss & Company e Jacob Davis, e era mesmo só esta pequena inovação: pequenas peças de metal nos bolsos e outras costuras principais que as tornam muito mais resistentes e que surgiram com o primeiro modelo 501”, explica Tracey Panek, historiadora da Levi’s, responsável pelo vasto arquivo que a marca mantém na sede de São Francisco, e que falou com o Observador em Barcelona, onde foi apresentar a nova versão do documentário “The 501 Jeans: Stories of an Original” (As Calças 501: Histórias de um Original) durante o Moritz Feed Dog Festival.

A primeira patente, de 20 de Maio de 1873.

Foi a partir da invenção das pequenas peças de metal, ainda no século XIX, que as 501 se afirmaram, e é por isso que em 2017 ainda é possível fazer documentários sobre a sua história e o seu papel na evolução da cultura ocidental, como este work in progress de recolha de histórias conduzido pela Levi’s, que se apresentou no festival com um novo episódio: o quarto, sobre o revivalismo de modelos Levi’s antigos que se tornou moda no Japão.

Cada episódio do filme, realizado por Harry Israelson e com dezenas de entrevistados, traz novas histórias para juntar ao imaginário da marca norte-americana. Desde os trabalhadores da fábrica de tecidos que firmou contrato com Levi Strauss há mais de um século através de um aperto de mão (a Cone Mills), aos filmes de cowboys e estrelas de Hollywood que juntaram glamour às calças utilitárias, passando pelas tribos urbanas que as adaptaram ao seu estilo de vida, fica no ar a ideia de que outros episódios estarão a caminho.

Calças à prova de cowboys

“Os nossos primeiros clientes foram os homens trabalhadores, cowboys, mineiros, construtores dos caminhos-de-ferro. Não era um artigo de luxo, eram calças que tinham de ser resistentes, adaptáveis”, diz Tracey Panek. Prova disso é um dos artigos mais antigos do arquivo da Levi’s, que Tracey Panek trouxe para expor no festival: as “Spur Bites” (os arquivos gostam de batizar as peças que vão encontrando), de 1890, que pertenceram a um cowboy.

As provas estão nas próprias calças – os rasgões na parte de baixo feitos pelas esporas, os remendos na zona do rabo, o desgaste natural da ganga. “Acredito que é essa capacidade de adaptação das calças de ganga que as torna intemporais. Toda a gente tem uma história com umas Levi’s. E não se usam só uma vez. Usam-se muitas vezes. Vão-se adaptando a nós e registando coisas sobre a nossa vida.”

Publicidade dos anos 40, ainda com referência aos cowboys.

Também estão lá as provas de serem umas 501 do século XIX: as rivets, claro, mas também a ausência do segundo bolso de trás (acrescentado apenas em 1901), botões na cintura em vez de presilhas para o cinto (surgiram em 1922), o logo já gravado num bolso interior, o padrão de costura em forma de onda a meio do bolso (patenteado e uniformizado mais tarde), e o tamanho extra grande que justificava o nome “overall” – calças que se vestiam por cima de tudo, se fosse preciso.

“A patente esteve protegida até esta altura, ao longo de cerca de 20 anos, e foi só a partir deste modelo que começámos a ter de acrescentar outros elementos identificadores, porque começou a surgir concorrência a usar rivets também”, diz Tracey. Em anos seguintes, o símbolo dos dois cavalos passou para o bocado de cabedal que sempre existiu na costura, e em 1936 surgiu também a pequena etiqueta vermelha que identifica as Levi’s.

Um arquivo climatizado e com roupa de Steve Jobs e Einstein

Quando viaja e tem de levar artigos do arquivo, Tracey Panek leva tudo numa mochila da qual não se separa. Além disso, para manusear as calças antigas usa sempre luvas. Nos arquivos, em São Francisco, há salas climatizadas, e há também cofres anti-fogo – uma lição que a Levi’s aprendeu da pior maneira, com o incêndio de 1906, em São Francisco, que destruiu completamente a sede (e terá mesmo feito desaparecer a origem da escolha do número 501 para batizar o modelo mais antigo da marca).

Peça a peça, num trabalho que foi iniciado em 1989, a marca tem apostado na recuperação e preservação do seu património de quase 150 anos. “O arquivo foi uma ideia de Robert Hass, CEO e último descendente vivo de Levi Strauss. Acho que é tataraneto-sobrinho, é difícil quantificar. Queria preservar o legado. E mesmo agora, que está reformado, continua a aparecer no escritório.”

A historiadora Tracey Panek é diretora dos arquivos da marca e usa sempre luvas para manusear calças antigas.

Foi assim que, para além das “Spur Bites”, sobreviveram na coleção as “Commodore”, umas calças de 1944 que foram encontradas perto de uma mina e mostram como a Levi’s cumpriu a promessa, feita ao governo, de usar menos peças de metal para contribuir para o esforço de guerra durante a II Guerra Mundial. Ou um biquíni de ganga feito por Love Melody, uma designer que construía todas as suas peças a partir de Levi’s desfeitas nos anos 60, que teve encomendas de Elvis Presley e Lauren Bacall, e que representa os anos em que a marca acompanhou o verão do amor e a contra-cultura para, logo a seguir, nos anos 70, chegarmos a um modelo impregnado pela cultura surfista, que o dono usou para ir registando etiquetas com todas as suas viagens.

“Temos doações de privados, de públicos, muitas pessoas ligam a dizer que viram alguma coisa interessante, mas também vamos muito a leilões”, diz a diretora do arquivo. Uma das últimas peças compradas em leilão era de Steve Jobs, nos anos 80, quando ele ainda usava suspensórios: “Coseu botões na cintura para as adaptar às suas necessidades. Além disso, vê-se que tem um dos bolsos muito gastos – devia ser para a carteira, porque na altura ainda não havia iPhone.” Num dos leilões, Tracy comprou também um casaco Levi Strauss que era de Einstein, e que aparece na imagem de capa da revista Time quando o elegeu como homem do século XX. Mas há um artigo que lhe continua a escapar – umas calças de ganga usadas por Marilyn Monroe, das quais os privados que as detêm ainda não se quiseram desfazer.

“Quando estudei para ser historiadora, não pensava que ia acabar a trabalhar com roupa. Mas adoro esta vertente das histórias associadas às peças. A metodologia de trabalho é a mesma, mas há este lado muito interessante, que também se associa a momentos importantes da nossa história coletiva.” É por isso que Tracey recorda com carinho uma das aquisições mais recentes, que encontrou na sequência de um telefonema sobre umas Levi’s antigas encontradas num celeiro: “Fui até ao centro da Califórnia, numa zona de vinhas, e lá estavam umas calças de criança, que tinham um atacador que tinha sido posto para ajudar a apertar. Quase consigo imaginar a criança que as usou. Já é uma das minhas peças preferidas.”

Do roupeiro para o museu

Ainda este ano, vai ser possível ver uma exposição sobre ícones de moda no MOMA — o Museu de Arte Moderna de Nova Iorque. “É invulgar que os museus de arte contemplem moda, mas faz sentido. E vamos ceder umas 501 do arquivo, que estarão em destaque.”

A avaliar pelo arquivo e pelas histórias do documentário, há várias ligações entre o modelo 501 e marcos culturais e artísticos que se podem fazer. Em primeiro lugar, Hollywood, que mostrou um dos seus primeiros cowboys com calças Levi’s – John Wayne, no filme Stagecoah, de 1939 – e depois definiu com umas 501 a imagem de marca da rebeldia: Marlon Brando em The Wild One, já nos anos 50, que fez com que a marca fosse banida em algumas escolas, histórias que o documentário contempla.

Desde os tempos em que a Levi’s era uma imagem de marca de rodeos, com o sucesso de marketing a ser avaliado pela contagem de 501 entre a audiência e os cowboys, até ao dia em que começaram a surgir imagens de jovens a usar 501 em Woodstock ou sentados em cima do muro de Berlim, há muito para contar nos arquivos de São Francisco.

“A minha história preferida é a de Barbara, uma mulher que tem agora 90 anos mas que na adolescência encontrou uma pilha de Levi’s antigas e tirou umas que começou a usar. Nessa altura, as mulheres nem usavam calças, quanto mais calças de ganga. Foi ela que nos cedeu um dos nossos modelos mais antigos, quando percebeu que eram mais velhos do que pensava. Usou calças de homem, não se preocupou com isso, e acho que resume bem o espírito daquilo que estamos a falar.”

“São tão simples como um copo de água”, diz um dos antigos trabalhadores da fábrica de tecidos Cone Mills, a mais antiga parceira da Levi’s, no documentário. Muitos estão lá há mais de 20 anos, e continuam a usar calças de ganga. E é nessa intemporalidade, versatilidade e simplicidade que a marca aposta ao manter a história a par da moda. “Daqui a sete anos as 501 vão fazer 150 anos de vida. Apesar das pequenas alterações que fomos encontrando de modelo para modelo, continuam mais ou menos na mesma. Isso significa que nunca se deixou prender por tendências, e é isso que faz um ícone.”

O Observador viajou para Barcelona a convite da Levi’s.

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