Offshores

Entretanto é Carnaval

Autor
1.923

E nesta dimensão cabe o que calha, de um PM literalmente indescritível a um PR viciado em palminhas, passando por um parlamento sequestrado por gangues e presidido pelo molde de onde saem os laparotos

E a notícia do “Público” sobre os 10 mil milhões em “offshores”? Uma ignomínia (cito uma pessoa preocupada)? Uma bomba (cito duas pessoas preocupadas)? Ou apenas a reprodução quase exacta da notícia do “Público” em Abril de 2016, agora ressuscitada para desviar as atenções da CGD, que pelos vistos não vale a pena investigar, para as transferências de capitais, que pelos vistos devem ser investigadas até às últimas consequências?

Em qualquer das hipóteses, há vantagens. Uma é que, em princípio (em princípio), a investigação é redundante: as autoridades, incluindo as actuais, sabem por definição quem acautelou o seu dinheiro em paraísos fiscais para, na medida do possível, evitar o inferno indígena. Outra vantagem é que, dada a presuntiva legalidade e a evidente moralidade do exercício, as consequências serão em princípio (em princípio) nulas, excepto pelo pretexto que o episódio fornece a gente desprovida de vergonha na cara para inventar um “caso”.

Nem de propósito, entram em cena a extrema-esquerda, subitamente munida das interrogações e da indignação que lhe faltaram acerca da CGD, e o dr. Costa. O dr. Costa, o tipo de espécime que compromete a utilidade dos polígrafos e do decoro, considera “absolutamente escandaloso que um governo que não hesitou em acabar com a penhora da casa de morada de família por qualquer dívida tenha tido a incapacidade de verificar o que aconteceu com 10 mil milhões de euros que fugiram do país”. Quarenta e oito horas depois, perante a disponibilidade da “direita” para ajudar ao esclarecimento do “escândalo”, o PS recua e acha “precipitado” bulir no dito, imprudência que talvez precipitasse revelações desagradáveis. Uma coisa é a tradicional demagogia, com os rotineiros pozinhos de corrupção, um travo de mentira e a incompetência da praxe: isto, porém, já pertence a uma dimensão inexplorada.

E nesta dimensão cabe o que calha, de um PM literalmente indescritível a um PR viciado em palminhas, passando por um parlamento sequestrado por gangues e presidido pelo molde de onde saem os laparotos. Pode-se descer mais? Pode, se adicionarmos ao caldo a maioria dos “media”, hoje empenhada em ignorar os factos que prejudicam a “corte” e em difundir os delírios que lhe amparam o descaramento. Entre parêntesis, aproveito para avisar os editorialistas que começaram por se atirar prestimosos aos “offshores”: aparentemente, a história é para esquecer.

Contas feitas, fica a impressão esquisita de que se chegou a um ponto sem retorno, de que já se está por tudo, e de que nada – incluindo recorrer a truques infantis para ocultar a pândega da “Caixa”, enviar o evangélico Louçã para o Banco de Portugal, depositar em juiz amigo o futuro do eng. Sócrates ou prometer 700 euros mensais a “jovens” (até aos 30 anos, que a juventude é um estado de espírito) que não estudam e não trabalham – é demasiado grotesco. Enquanto isso, sempre que não se encontra na televisão a louvar os respectivos donos, o país oficioso dedica-se a declarar intoleráveis o sr. Trump e o livro de Cavaco Silva.

Nem todos os regimes caem mediante revoluções abruptas. Às vezes terminam assim, com o sumiço gradual e festivo do que restava da legitimidade e da razão. Um dia acorda-se e a democracia que bem ou mal reconhecíamos foi-se, para surpresa de muitos e deleite de alguns. A merecida desilusão dos primeiros não nos compensará pela impunidade dos segundos. Entretanto é Carnaval, mas ninguém nota a diferença.

Notas de rodapé:

O assunto é grave. A cada sete séculos, há mil e quatrocentas condenações por discriminação racial em Portugal. Ou, citando os números de uma Comissão para a Igualdade, 20 condenações entre 2005 e 2015. Ou duas por ano. Consternado pela epidemia, o Conselho de Ministros alterou a lei alusiva e enfiou-lhe os conceitos de “multidiscriminação” (exemplo fornecido: alguém é discriminado por ser mulher e negra) e de “discriminação por associação” (exemplo fornecido: um jovem mal atendido num serviço público por andar com dois ciganos). Além disso, o governo sugere multas para actos racistas ou xenófobos: até 4210 euros, se o crime for cometido por indivíduos; até 8420, se cometido por pessoas colectivas. A tentativa de discriminar pagará metade.

À primeira vista, o propósito é louvável. À segunda, levanta inúmeras questões. Como se percebe que a senhora se viu discriminada por causa do género e da etnia em simultâneo? Os agressores mandaram-na para uma cozinha africana? Presumir que é uma senhora, e não um hipotético transsexual ou similar, não é em si discriminatório? E de que modo se apura a culpa se quem discrimina orar voltado para Meca? E quanto ao tal jovem, é garantido que foi enxovalhado graças à companhia de ciganos, ou terão sido os ciganos vítimas da companhia do jovem? Há que presumir que o jovem é branco e heterossexual? E se acumular com o estatuto de simpatizante do PSD? E se frequentar a missa ao domingo? E se o antipático funcionário público for esquimó, gay, animista e manco? Pode-se considerar antipático um gay? E se o serviço público acabar – o diabo seja cego, surdo e mudo – privatizado?

Ainda vamos em dois exemplos e as dúvidas não têm fim. Se metermos as multas ao barulho, o caos aumenta exponencialmente. O que define a tentativa de discriminar (ou a meia multa), resmungar impropérios em voz baixa? Trocar os sapos na entrada das lojas por outros batráquios? E a xenofobia, só se aplica a originários de países exóticos? Continuaremos livres de insultar americanos, israelitas, espanhóis e alemães, independentemente da raça? Uma agremiação de “skinheads” é “indivíduo” ou “pessoa colectiva”? Multa-se os sujeitos que espancam gays na festa do “Avante!” ou o PCP em peso? É admissível castigar comunistas? E socialistas ociosos, pagos pelo contribuinte para pensar o vazio?

Partilhe
Comente
Sugira
Proponha uma correção, sugira uma pista: observador@observador.pt
Música

Quatro notas soltas

Alberto Gonçalves
2.186

O que “Tony” Carreira fez foi adoptar uma vetusta e digníssima tradição nacional: ir buscar entulho lá fora, temperá-lo ao jeito indígena e servir o prato requentado ao público dito alvo.

Autárquicas 2017

As eleições de André Ventura

Rui Ramos

Não há no que André Ventura afirmou qualquer vestígio de “racismo” ou “xenofobia”. Mas este Verão, a nossa oligarquia política precisava de inventar um Trump de palha, desse por onde desse.  

Só mais um passo

Ligue-se agora via

Facebook Google

Não publicamos nada no seu perfil sem a sua autorização. Ao registar-se está a aceitar os Termos e Condições e a Política de Privacidade.

E tenha acesso a

  • Comentários - Dê a sua opinião e participe nos debates
  • Alertas - Siga os tópicos, autores e programas que quer acompanhar
  • Guardados - Guarde os artigos para ler mais tarde, sincronizado com a app
  • Histórico - Lista cronológica dos artigos que leu unificada entre app e site