Crónica

Na sala ao lado

Autor

Quem ficará para ouvir a melodia defunta do que acrescentámos aos nossos bairros, aos nossos quintais e à vida dos outros?

1.

Uma vez conheci um casal que ofereceu um pinheiro ao jardim da freguesia onde morava, em Lisboa. Enquanto viveram perto, costumavam conversar com o jardineiro sobre o pinheiro, que ia crescendo aos seus cuidados, protegido das temíveis senhoras de óculos escuros que, segundo o jardineiro, roubavam plantas do jardim. O pequeno pinheiro, que servira ao casal de árvore de Natal, era a planta mais descabelada do jardim, onde o jardineiro a plantou no centro de um canteiro vazio. O jardineiro era todo cuidados.

Um dia, o casal mudou de cidade, abandonando o bairro, deixando para trás o pinheiro. De tempos a tempos, voltavam ao bairro em visita, abrandando o carro ao pé do jardim para avistarem o pinheiro. Diziam, “ainda lá está”, encontrando o pinheiro sempre maior. Estavam mais velhos. Um dia em que por ali passaram a pé meteram conversa com o jardineiro, que era ainda o mesmo, mas já não os conhecia. O pinheiro era o orgulho do homem, cansado de jacarandás. E depois nunca mais voltaram ao bairro, o jardineiro aposentou-se, e passou muito tempo.

2.

Lurdes e Mário plantaram um limoeiro por cima da vala onde enterraram a cadela com que viveram quase duas décadas. A Suzie foi enterrada no quintal de uma senhora amiga, a escassos quilómetros da casa onde viviam. O limoeiro, plantado já moço, herdou da Suzie a mesma maneira bem-disposta de fazer apenas o que era esperado que fizesse. Durante muitos anos, a família comeu os limões da Suzie. De vez em quando, lá iam aos limões com um caixote, olhando sempre para os frutos com uma mistura de nostalgia com consolo. Com os limões se fizeram limonadas e biscoitos, coisas amargas e coisas doces. Um dia, para lhes conseguirem dar vazão, aprenderam até a fazer tarte de limão merengada, que ficava sempre frouxa. Quando eram mesmo muitos, os frutos eram distribuídos pelos amigos e pela família, que era pequena. Depois vieram outros cães e outras pessoas e outras doenças. E os anos passaram e o casal envelheceu e os limões ou serviram a outros, ou não serviram a ninguém. Um dia, a dona da Suzie morreu. Os limões da Suzie duraram enquanto duraram e depois a dona do quintal onde estava plantado o limoeiro morreu, a casa foi vendida pelos filhos, e nunca mais houve limões da Suzie.

3.

Alguém vê How green was my valley (1941), de John Ford. De onde estou, na sala ao lado, ouço cantorias, risos estridentes, gritinhos. São jovens mineiros chegados a casa cobertos de fuligem a quem mulheres trazem água quente para que tomem banho depois de um dia de trabalho, e que depois se sentam à mesa, de camisa lavada, à volta de um assado e de fatias de pão em que ninguém se atreve antes do pai de família. É um menino a caminho de uma loja para comprar um caramelo, e depois descendo uma colina com o pai de olhos no vale verdejante onde vivem, filmado a preto e branco.

Na sala ao lado, porém, do filme, cantam a uma só voz uma canção apenas lúgubre. Pouca coisa é tão certa como estarem quase todos mortos: os mineiros a fingir, as actrizes suas mulheres, a gente que os filmou no seu vale de faz de conta.

Quem ficará para ouvir a melodia defunta do que acrescentámos aos nossos bairros, aos nossos quintais e à vida dos outros? Será que, na sala ao lado, soaremos fatalmente a cana rachada?

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