Igualdade de Género

Sobre a liberdade de ser menina (ou menino)

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O problema não está na ditadura do politicamente correcto. Está na incapacidade de ter políticas que promovam a igualdade. Falar, criticar, perseguir ou censurar é fácil mas apenas agrava os problemas

“Porque pensa que devemos contratar uma mulher?” “Desculpe mas não lhe podemos alugar nenhum quarto [a si com essa cor, ficava subentendido] ”. Isto acontecia (acontece?) quando a democracia portuguesa tinha poucos anos de vida. Ninguém deseja viver num país assim. Mas também ninguém consegue viver em liberdade quando temos de ter um cuidado constante com as ideias e as palavras, com medo de sermos acusados de sexistas ou racistas.

A crise financeira desembocou numa crise económica de onde nasceu a crise social que desestabilizou politicamente os países e parece estar a virar-nos do avesso, numa intolerância mortal para a liberdade, a criatividade e a ciência. É a na igualdade de oportunidades e é na liberdade de escolha que está uma sociedade desenvolvida e rica pela sua diversidade.

Vem tudo isto a propósito dos episódios que têm marcado este Verão demasiado quente. O último foi a “recomendação” do Governo para que fossem retirados do mercado livros pré-escolares para meninos e para meninas. A editora aceitou a “recomendação” do Governo e retirou os livros. Independentemente da opinião que tenhamos, sobre a iniciativa da editora, a questão que se coloca é: porque é que um Governo se mete num assunto destes? Os livros, que se saiba, não são (ou eram?) manuais escolares indicados pelo Estado.

Aquela pergunta suscita uma outra: até onde vai a liberdade de cada um, incluindo das crianças? A igualdade de género tem por objectivo impedir que se obrigue “as meninas a brincarem com bonecas e os meninos a brincarem com carrinhos”. A igualdade de género não é nem pode ser obrigar as meninas a brincarem com carrinhos e os meninos com bonecas. Têm é de ser livres para brincarem com o que muito bem lhes apetecer. Têm é de crescer num ambiente que lhes permita serem aquilo que mais querem ser, sejam donas ou donos de casa, sejam cientistas. O que parece estarmos a fazer é a substituir uma discriminação por outra discriminação – a menina tinha de ajudar a mãe e agora está proibida de o fazer ou o menino gosta é de brincar com carrinhos mas tem de brincar também com bonecas.

O que é preocupante na iniciativa da Porto Editora é perceber que ainda existe mercado para livros só para meninas e só para meninos. Essa é a pergunta que temos de fazer: porque é que ainda é rentável? Porque é que as meninas (ou só as meninas) ainda querem resolver um labirinto que tem como objectivo chegar a uma coroa de princesa? Porque é que há pais e educadores que ainda consideram livros assim úteis e educativos?

A desigualdade de género – como as outras – é infelizmente uma realidade e parte da educação que se tem em casa. Para corrigir isso pouco ou nada se fez. Muito menos se resolve censurando livros. A iniciativa do Governo apenas impede que se conheça a realidade. E sem conhecer a sociedade nada se corrige.

A desigualdade de género é de uma cristalina clareza no mundo do trabalho, há anos. Uma realidade que a crise económica agravou. Quando a crise aperta são as mulheres que perdem primeiro o emprego. Um problema que não vai ser resolvido com as quotas. Há muitas mulheres que não querem ter lugares de chefia porque não conseguem conciliar todos os objectivos que têm para a sua vida. E o Estado em nada as ajudou a conciliar esses objectivos, nem através da educação nem por via de uma sociedade mais organizada e amiga da vida familiar.

Não é o politicamente correcto que incomoda, até porque temos todas as razões para acreditar que os portugueses são hoje menos racistas, menos machistas e mais abertos às escolhas sexuais de cada um, do que eram no passado – independentemente de se poder considerar que a secretária de Estado da Modernização Administrativa Graça Fonseca conseguiu notoriedade por ter revelado ser homossexual, seria impensável que o fizesse em finais do século XX. E é de elogiar a sua coragem e, especialmente, o contributo que deu para o exercício da liberdade de escolha de muitas outras mulheres e homens.

O que incomoda é ficarmo-nos pelo politicamente correcto associado à perseguição de quem pensa de forma diferente. Temos de fazer, e não ser apenas politicamente correctos perseguindo ou censurando quem é diferente de nós, fazendo aos outros o que os outros nos faziam. E fazer é conseguir que não exista mercado para livros dedicados só a meninas ou só a meninos. Nunca censurar. A censura mascarada de “recomendação” é a arma dos fracos e incapazes de construírem políticas que mudam a sociedade.

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