Porquê é que em 2009, na freguesia de Castro Daire apenas 5,27% dos eleitores votou para o Parlamento Europeu, o valor mais baixo em todo o país? E porque é que desta vez não se vai repetir?

A estatística é surpreendente e as razões ficaram perdidas no tempo. A PORDATA só compila os dados, não os explica. António Pessoa, membro da Guarda Nacional Republicana, destacado em Castro Daire, distrito de Viseu, afirma que “não existem festas [populares] nesta época [do ano]. Nem aqui, nem nas redondezas.” Esforça-se por lembrar o motivo que pode ter causado tamanha abstenção, mas não lhe ocorre nada. Nada que justifique uma apatia tão grande para com a política europeia. Nem mesmo “as chatices com o Governo” podem justificar uma taxa de abstenção tão elevada, diz o militar. No concelho com o mesmo nome, Castro Daire, a taxa de abstenção foi de 75,9%.

Como é costume, as urnas de voto estão localizadas nas escolas primárias, “no centro das freguesias”, conta. “São locais de fácil acesso”, diz.

A vila de Castro Daire terá uma geografia adversa: subidas a pique, descidas custosas. Mas nada explica uma taxa de abstenção 75,9%, num município com 15.339 habitantes, de acordo com os censos de 2011, e de 94,73% numa das freguesias do centro da vila. Será que os cidadãos de Castro Daire são os portugueses mais eurocéticos? Não, não é por aí.

Rita Oliveira, habitante da vila, não se mostrou surpresa com a taxa de abstenção nas últimas europeias. “Tivemos um boicote às urnas”, diz a rir-se. Conversa com os colegas à sua volta e parece estar a recordar uma situação demasiado cómica para dar atenção ao jornalista.

Em 2009, a maioria dos habitantes do município de Castro Daire estava descontente com o impacto que o mau estado da Estrada Nacional 225 estava a causar na localidade. Os problemas de acessos que criou. As vozes populares uniram-se e decidiram que deviam boicotar a ida às urnas que iam ocorrer para o Parlamento Europeu.

Na freguesia de Cabril, com 414 habitantes segundo os censos de 2011, o descontentamento foi levado um passo mais à frente. “Meteram uns enxames de abelhas” no local de voto da freguesia de Cabril, diz Rita a rir-se. Noutras freguesias, os cidadãos simplesmente não foram votar. O riso é geral à volta de Rita. “Isto é uma terra de trabalho, ninguém liga à política”, diz alguém no fundo. “Se fosse para as autárquicas já se importavam”, diz outra voz, também a rir-se.

Em 2014, o cenário perspetiva-se melhor: não está convocado nenhum boicote. Mas, para Rita, a recente reorganização das freguesias que ocorreu a nível nacional poderá contribuir para a abstenção: as urnas de voto ficaram mais distanciadas da população. Um factor importante num município em que 4.166 habitantes têm mais de 65 anos.