“Há uma razão pessoal, quase diria íntima, que me levou a candidatar-me a estas eleições”, dizia António Marinho e Pinto num tempo de antena do MPT durante a campanha para as europeias. “Sou filho de emigrantes. Embarquei para o Brasil com meio ano de idade”, contava, revelando que, certa vez, perguntou ao pai porque não regressavam a Portugal “e ele respondeu que Portugal não tinha futuro”. Era o final dos anos 1950. Em 2011, a filha de Marinho e Pinto também emigrou. “E a resposta que ela me deu foi a mesma: em Portugal não há futuro. Recebi um murro no estômago.”

O murro no estômago de Marinho e Pinto foi sentido, de uma forma ou de outra, por 234.516 portugueses que o elegeram este domingo para o Parlamento Europeu, pelas listas do MPT. Para o partido, é “um resultado histórico”, disse José Inácio Faria, dirigente do MPT, que ainda tem uma hipótese de se juntar a Marinho e Pinto em Estrasburgo.

O Partido da Terra foi fundado em 1993 por Gonçalo Ribeiro Telles, arquiteto paisagista responsável, entre muitas outras obras, pelo desenho dos jardins da Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa. O partido “assume-se antes de mais como partido ecologista, tendo por base o humanismo e a solidariedade”, lê-se na página oficial do MPT no Facebook. Marinho e Pinto, na noite eleitoral, reiterou essa ideia. “Iremos reforçar a família ambientalista”, disse à agência Lusa. Mas pouco se conhece ao advogado de ideias ambientais. Aliás, as afinidades entre as ideias do MPT e as de Marinho e Pinto também não são claras.

empresas, juros altos, concorrência

No manifesto eleitoral do partido, um dos primeiros pontos defende que “é urgente acabar a partidarização”, uma vez que “a pura e dura lógica partidária conduziu a que os interesses do povo português tenham sido relegados pelos partidos políticos para segundo plano em detrimento das lógicas partidárias e das suas clientelas”, pode ler-se. É uma ideia que Marinho e Pinto já há muito vem defendendo e que foi uma das bandeiras da sua campanha. “Grande parte dos subsídios [comunitários] perde-se em coisas balofas, sem conteúdo, em projetos que são mais para os jornais e para as televisões do que para finalidades produtivas, quando não acabam no bolso de corruptos”, dizia no arranque da campanha, na sua terra natal, Amarante.

Aí, o ex-Bastonário visitou uma empresa metalomecânica dirigida por António Cardoso, empresário local, que o candidato considerava ser mais credível do que as associações empresariais. “Os nossos políticos deviam dar menos ouvidos às associações empresariais e mais ouvidos aos empresários que estão efetivamente a dirigir as suas empresas. Estas verdades têm sido sistematicamente ocultadas. Ouçam o sr. Cardoso”, apelou, atacando em seguida aquilo a que chamou “embuste”. “Não podemos ter países na UE que pagam o crédito a 1% de juro e outros que pagam 6% de juro, ter países que pagam a energia mais cara 20 e 30% do que outros. Que concorrência é esta?”, perguntava.

A corrupção

O manifesto do MPT para as europeias foi o que serviu de base ao discurso de Marinho e Pinto na apresentação da sua candidatura (ou terá sido o contrário?), mas o agora eurodeputado ia fazendo comentários pessoais. Um dos pontos mais destacados no discurso foi a necessidade de “valorizar o papel do advogado na administração da justiça”. E, parando de ler, Marinho e Pinto acrescentou: “Eu faço um parêntesis para interpelar os srs. jornalistas para que se interroguem porque é que, em Portugal, no sistema judicial há tão pouca corrupção quando comparada com outros domínios da vida pública. Não é que os magistrados sejam feitos de carne diferente dos políticos, é porque nenhuma outra atividade do Estado está sujeita a um escrutínio tão intenso e permanente como a atividade dos juízes. E quem é que faz esse escrutínio? São os advogados.”

Um discurso que já não lhe é novo. Em 2011, num debate em que participou com Paulo Rangel, Marinho e Pinto defendeu a mesma ideia, o que provocou a indignação do eurodeputado do PSD. “Anda aqui a brincar aos índios e aos cowboys: os juízes são muito maus e os advogados muito bons. Isso é uma coisa que não cabe na cabeça de ninguém”, dizia Rangel.

Também José Manuel Coelho, candidato às europeias pelo Partido Trabalhista Português, ainda no dia 21 de maio, tinha críticas a apontar a Marinho e Pinto, a propósito do seu discurso anti-corrupção. “Esse senhor é mais um ao serviço do sistema. Esse senhor o que pretende é enganar os madeirenses. Um homem destes é um homem vendido ao sistema”, dizia Coelho, referindo-se ao facto de Marinho e Pinto ter elogiado o Governo de Alberto João Jardim no arquipélago. “São todos farinha do mesmo saco”, rematava Coelho.

Solidário com os motards

A campanha do MPT para as europeias não teve a exposição mediática que as campanhas dos partidos com assento parlamentar tiveram, mas Marinho e Pinto conseguiu, ainda assim, veicular algumas das suas ideias através da comunicação social. Uma delas foi defendida num passeio de mota entre Lisboa e Sintra. Nessa ocasião, o ex-Bastonário demonstrou “a solidariedade do MPT e da lista de candidatos ao Parlamento Europeu com os motards portugueses e europeus” e exigiu às autoridades “medidas para aumentar a segurança de circulação dos motards”, nomeadamente a possibilidade de os motociclos poderem circular nas faixas Bus.

… e na Europa, contra a corrente

E porque estas eram eleições para o Parlamento Europeu, o candidato do MPT também apresentou algumas ideias para a Europa, ressalvando contudo que esta, “a exemplo do que se passa em Portugal, está entregue a políticos de pequena dimensão” e “a uns quantos burocratas”. Marinho e Pinto defende que “não é admissível” que as empresas operem num estado-membro e paguem depois os seus impostos noutro estado-membro. Por outro lado, uma outra ideia presente no manifesto eleitoral é a da “supervisão atenta e eficaz da atividade bancária”, tal como a “implementação de uma plataforma europeia contra a pobreza”.

Sobre o assunto que tem dominado a atualidade internacional nos últimos meses – a crise na Ucrânia – Marinho e Pinto acusava em fevereiro a UE de ter “pulsões imperialistas” e considerava que “um Governo democraticamente eleito” havia sido “deposto de forma violenta por grupos de extrema-direita”. “Estou muito preocupado com o apoio que a União Europeia deu àqueles bandos. O grande urso [a Rússia] não está adormecido”, avisava.