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Duas armas. Ou estratégias. Quando à frente está uma batalha, é sempre melhor ter mais que uma maneira de a enfrentar. Paulo Bento só costuma ter uma: a amizade de três homens a meio campo, Cristiano Ronaldo encostado à esquerda, como um arco sempre pronto a disparar uma flecha em contra-ataque, mais Postiga e Nani. 4-3-3, o plano A.

É assim desde 2010. E um plano B? Até agora, não havia. Foi preciso o primeiro dos três testes para o Mundial ser com um trauma para a seleção ir à guerra com armas diferentes. Dez anos após o pesadelo grego na final do Europeu, os helénicos voltavam a Portugal. Desta vez sem Luz, sem Ronaldo (lesionado) e sem um caneco para levantar no final. E também sem 4-3-3.

Paulo Bento decidiu arrancar logo com uma solução que, na mala para o Brasil, deverá viajar como kit de emergência: William Carvalho ao lado de Miguel Veloso, no meio campo, e Éder a servir de companhia a Hélder Postiga lá na frente. 4-4-2, com Nani e Varela nas alas. Resultou? Até meio da primeira parte, parecia que sim.

Logo ao segundo minuto, um Nani mais que fresco (só 740 minutos esta época) mostrou mira afinada para cruzar a bola para a cabeça de Éder, que também a enviou direitinha para as mãos de Karnezis. Primeira cabeçada. Aos seis minutos, a segunda, quando Bruno Alves ligou o turbo, arrancou em direção ao poste esquerdo da baliza grega e desviou a bola vinda de um canto de Veloso. Defesa do guarda-redes. No canto seguinte, de novo Karnezis a bloquear um remate de Ricardo Costa.

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HISTÓRIA POUCO ORIGINAL

Aos 10 minutos a bancada do Jamor fazia a onda. O entusiasmo reinava pois as coisas pareciam funcionar. Postiga despedia-se muitas vezes de Éder, recuava uns metros para receber a bola e baralhava os gregos. Às vezes, mais parecia um 10, o tipo de jogador que a seleção não tem desde o fim da Decolândia, em 2010. William e Veloso acertavam muitos passes e a bola portava-se bem nos pés de Nani. Aos 15 minutos a seleção já tinha quatro cantos e o quinto, que apareceu aos 26 minutos, acabou num remate perigoso de Miguel Veloso.

E pronto. Antes de a meia hora de jogo chegar, os helénicos lá se habituaram à novidade do plano B da seleção. E a coisa acalmava para Portugal. A Grécia, porém, continuava inofensiva – na primeira metade não atirou uma bola à baliza de Eduardo, submetia-se apenas a contra-atacar e defendia sem a prioridade de roubar a bola aos portugueses. Havia plágio nesta história?

Acabou por não haver. Em 2004, a reserva que Portugal fez na final do ‘seu’ Europeu foi desmarcada por um golo que os gregos marcaram ao primeiro canto que tiveram (aos 57 minutos) no jogo. Este sábado, porém, o canto inaugural da Grécia apenas surgiu aos 81 minutos. Vá lá, sem golo ou sequer perigo. E pronto, a história era mesmo original – mas o jogo de Portugal não. Aos 65 minutos, Paulo Bento fartou-se do plano B. Trocou Éder por Rúben Amorim, puxou o 4-3-3 da moda para o relvado e deixou Hugo Almeida como único avançado.

Duplo susto

O desenho mudava mas o jogo não. A bola era da seleção, a vontade em marcar também. A segunda parte, contudo, nem deixou pensar em golos. Algo perigoso só apareceu aos 66 minutos, quando Varela cruzou uma bola para Nani, meio-sozinho na área, que optou por dominar, não rematar de primeira e deixar os gregos taparem-lhe o caminho. Aos 68 minutos quis redimir-se, pegou na bola à direita, cortou para dentro mas a intenção ficou num remate fraco e rasteiro.

E os gregos aguentavam, ganhavam faltas – que úteis foram os 37 anos de Karagounis, ex-médio do Benfica – e, à medida que o tempo passava, viam os portugueses a cometer mais e mais erros. Ou seja, a bola já ia parar aos pés dos helénicos sem que eles fizessem muito por isso. Até Fetfatzidis começar a fazer.

Aos 84 minutos, o canhoto foi atrás de André Almeida, até à bandeira que marca o canto do campo. O português tentava proteger a bola para que ela saísse de campo, mas o grego reparou na apatia e roubou-a. Correu rumo à baliza e rematou para Beto defender. Segundo canto para a Grécia e outra trapalhada para Portugal: a bola cruzada para a área teve vários ressaltos e os gregos tiveram oportunidades para rematar. Nada aconteceu. Nem aí nem nos cinco minutos que restavam por jogar.

Dez anos volvidos, a Grécia não roubou nada – as seleções já se tinham reencontrado em 2008, na Alemanha, e aí os gregos até voltaram a ganhar (2-1). E vão 18 anos sem ganhar um jogo à seleção grega: desde 1996, quando um penálti de Oceano, no Estádio do Restelo, fez o suficiente.

O primeiro teste de Paulo Bento antes do Mundial serviu para isso mesmo, testar e experimentar. Fica registado o plano B mas com João Moutinho, Raul Meireles e (espera-se) Cristiano Ronaldo, a versão A deverá continuar a ser a primeira escolha. A 6 de junho será o segundo teste (contra o México, já nos EUA).