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Viver é jogar. Os anos passam e as correrias sucedem-se.Ganham-se hábitos, aprendem-se as manhas e adquirem-se truques. É a tal experiência, a veterania que tanto dá cair no elogio como na mira da críticas. É como tudo – se há sucesso, batem-se palmas, se a coisa dá para o torto, é o primeiro lado a levar com as balas. A Espanha caiu na Copa do Mundo. A derrota por 2-0, frente ao Chile, confirmou a saída da seleção que, nos últimos seis anos, era a campeã dos campeões. E logo veio a crítica: parte da culpa está no envelhecimento da geração que tanto deu ao futebol espanhol.

Chamam-lhes velhos. Dizem que as suas pernas, as que espalharam a boa nova do tiki-taka pelo mundo, estão a emperrar. Que faltou renovação. Que a idade já é um atrelado demasiado pesado para a magia puxar. Os quatro cilindros do motor espanhol – Xavi (34 anos), Casillas (33), Xabi Alonso (32) e Iniesta (30) -, os que estiveram nas conquistas de 2008, 2010 e 2012, já são trintões. E depois?

Para cada um que cruza a fronteira dos trinta há um Koke (22 anos), um De Gea (21), um Azpilicueta (24) ou um Jordi Alba (25). A seleção espanhola levou 23 jogadores ao Brasil que, entre si, têm uma média de idades nos 27,7 anos. Chegar a um Mundial como detentor do caneco e sair logo na fase de grupos é mau e já tinha acontecido em quatro anteriores edições — mas só o Brasil, em 1966, ousou defender um título com um plantel mais jovem que escolhido por Vicente Del Bosque em 2014.

Há 48 anos, o escrete de Pelé, Garrincha e Jairzinho chegou a Inglaterra ainda a reinar no Mundo. E fê-lo com 22 jogadores e 25,9 anos de média de idade. Calharam no grupo de Portugal e terminariam a prova com duas derrotas e apenas uma vitória. Antes, em 1950, foi a Itália a mostrar o que é chegar envelhecida a um Mundial.

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Os transalpinos cruzaram o Atlântico, chegaram à primeira Copa organizada pelo Brasil e ficaram nos grupos com a média de 31 anos de idade. Foi mais azar que outra coisa — a Itália fora campeã em 1938 e, com a Segunda Guerra Mundial pelo meio, teve de aguardar 12 anos para defender o título.

Depois, os dois casos deste milénio. Em 2002, o pequeno império gaulês inchara as esperança de um país poder, pela primeira vez, revalidar o título mundial. Nada disso, a França foi ao Japão e à Coreia do Sul perder dois jogos, empatar o outro e não marcar nenhum golo. Que tragédia. Com tanto craque à escolha (havia Zidane, Henry, Vieira, Trezeguet, Djorkaeff, etc.), os franceses despediram-se na fase de grupos com uma média de idades de 28,3 anos. A La Roja atual, pelo menos, já tem um golo marcado — de penálti, por Xabi Alonso, contra a Holanda.

A única que foi sem campeões

A mesma que constava no bilhete de identidade da Itália que, em 2010, imitou a proeza. No Mundial da África do Sul, os italianos empataram duas partidas e perderam outra no grupo mais acessível da prova: tinham a companhia da Eslováquia, Paraguai e Nova Zelândia. Esta squadra azzurra, porém, foi a única seleção entre estas cinco que não levou à Copa uma coisa — jogadores que tinha sido campeões em época de Mundial.

A Itália de 2010 não tinha qualquer jogador do Inter de Milão — entre Materazzi, Balotelli e Toldo, os únicos italianos selecionáveis do plantel que, com José Mourinho, venceu a Série, a Taça e a Liga dos Campeões. Algo que a atual Espanha não imitiu, já que levou ao Brasil quatro jogadores do Atlético de Madrid (Koke, Juanfran, David Villa e Diego Costa) e um do Manchester City (David Silva), campeões em Espanha e Inglaterra.

Em 1950, os italianos tinham quatro jogadores da Juventus que erguera o troféu da Série A. No Brasil de 1966 só havia Tostão, o jovem avançado e único representante do Cruzeiro, o campeão brasileiro. Entre os franceses que desiludiram em 2002 estavam seis que tinham saído dos clubes a festejar — Thierry Henry, Sylvain Wiltord e Patrick Vieira, do Arsenal, Grégory Coupet, do Lyon, e Liliam Thuram, da Juventus.

O que tramou então esta Espanha? Para os que responderam a um inquérito que a Marca tem em curso no seu site, as principais causa desta saída precoce foram a forma física dos jogadores e a perda da fome por títulos. Talvez. Ou também se pode dizer apenas isto — qualquer ciclo que começa tem de acabar. E para esta La Roja, que trocou a fúria pelo toque de bola, este pode ter sido el fin.